Carta ao Leitor
Leões vegetarianos
 |
ESQUERDA EFICIENTE
Cabral com o presidente
Funes e Vanda, sua mulher, brasileira e petista |
Oficialmente não
consta da pauta brasileira de exportações de
serviços o que, de certa ótica, talvez seja
seu mais valioso item, a consultoria de moderação
política e eficiência econômica dada a
governos de esquerda da América Latina. Por canais
que passam ao largo da diplomacia tradicional, o Brasil vem
conseguindo influenciar pontual mas positivamente os governos
do Paraguai, Bolívia, Equador e, com taxa menor de
sucesso, os da Argentina e Venezuela. Mas está em El
Salvador, na América Central, o exemplo mais completo
dessa transferência de tecnologia de criação
de "leões vegetarianos", apelido carinhoso
dado a governantes de esquerda com adesão aos princípios
democráticos e às políticas econômicas
responsáveis. Os salvadorenhos ainda exibem as cicatrizes
de um passado recente devastado pela intolerância política
que mergulhou o país em uma sangrenta e duradoura guerra
civil. Seu presente e seu futuro, porém, são
animadores. Muito disso se deve à ajuda, digamos técnica,
do PT e à decisão do presidente salvadorenho,
Mauricio Funes, de adotar Lula como modelo.
VEJA mandou a El
Salvador o jornalista Otávio Cabral, da sucursal de
Brasília, com a missão de apurar as reais dimensões
dessa inédita colaboração entre os dois
países. Cabral voltou impressionado com a similaridade
entre os processos de viabilização política
de Lula no Brasil e de Funes em El Salvador: "Candidato
pela Frente Farabundo Martí de Libertação
Nacional, até duas décadas atrás um violento
movimento guerrilheiro, Funes foi pragmático. Ele só
venceu a eleição porque conseguiu atrair parte
do eleitorado conservador que temia um regime de esquerda
radical. Lula e o PT foram sua inspiração".
Na reportagem que
começa na página 66, o enviado de VEJA conta
que os petistas do Brasil aconselharam Funes a escrever uma
Carta ao Povo Salvadorenho nos mesmos moldes da Carta ao Povo
Brasileiro, garantindo que não haveria rupturas econômicas.
Eleito em uma disputa apertada, Funes indicou para comandar
o Banco Central um economista respeitado nos grandes centros
financeiros e contratou técnicos ligados à oposição.
Ajudou muito no processo, é claro, o fato de Funes
ser casado com a advogada brasileira Vanda Pignato, uma petista
militante. Mas, com Fidel Castro e Hugo Chávez tão
perto, é uma sorte para os salvadorenhos e para o continente
que seu presidente esquerdista tenha se espelhado em Lula.