|
|
Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Os brasileiros – uma nova interpretação
Com base nas filas do INSS, funcionário
do governo dá a chave para uma
reveladora visão do país
O presidente do INSS, Valdir Moysés Simão,
disse ao Jornal Nacional, da Rede Globo, que foi ao ar na
segunda-feira, que as filas nas unidades de atendimento do órgão
se devem a uma "questão cultural". Seria um traço
do povo brasileiro já tão arraigado na consciência
coletiva que contra ele se esboroam as boas intenções
das autoridades. A frase completa foi: "Por uma questão cultural,
o segurado tem receio e acaba chegando muito cedo". Daí que
desde a madrugada se formem as desagradáveis aglomerações
em frente aos postos da Previdência.
A "doutrina Simão", chamemo-la assim, tem
alcance que vai muito além da questão do atendimento
no INSS. Ela abre as portas para uma nova e reveladora via de interpretação
do Brasil. À luz da "questão cultural" temos uma explicação,
por exemplo, para o fato de um número tão grande de
brasileiros morar longe. Tantos bairros bons nas cidades, e eles
insistem em se entocar nos cafundós-do-judas. Tantas ruas
aprazíveis, arborizadas, com oportunidades de lazer e boas
escolas por perto, e eles se refugiam em lugares onde a paisagem
é árida e os serviços são precários.
Alguns até insistem em se empoleirar em favelas. Tantos lugares
bem urbanizados, em que as construções são
seguras e os títulos de propriedade passíveis de ser
legalizados, e eles preferem a construção improvisada,
em lugares de risco e em terrenos dos quais jamais poderão
ser proprietários. Só pode ser mania, uma invencível
e irracional resistência a mudar de hábitos. Ou, como
disse Simão, em formulação mais erudita, uma
"questão cultural".
Do fato de morar longe resulta que uma grande massa
de brasileiros gaste boa parte do dia a deslocar-se da casa ao local
de trabalho, e vice-versa. São três, quatro, cinco
ou mais horas em veículos de transporte coletivo que não
oferecem conforto nem segurança. Já que insistem em
morar longe, deveriam pelo menos equacionar melhor seu sistema pessoal
de transporte. A indústria nacional produz bons automóveis
– por que não adquirir um? Para quem não gosta de
dirigir, há os táxis. E a vida moderna oferece até
alternativas avançadas, como os helicópteros. Não.
Eles preferem espremer-se em ônibus, vans ou trens. Tal a
promiscuidade nesses meios de transporte que no Rio de Janeiro acaba
de ser adotado o critério de reservar vagões só
para as mulheres no metrô e nos trens de subúrbio.
É mais trabalho que se dá às autoridades, resultado
de hábitos da população tão arraigados
que, como desvendou Simão, em seu precioso insight, só
podem provir de uma questão cultural.
Tome-se outro setor, o da saúde. É
fato conhecido que o Brasil possui bons hospitais. Também
é fato conhecido que temos uma boa medicina, equiparável
à dos países mais desenvolvidos e exercida por profissionais
que atendem em consultórios bem montados e bem localizados.
Que faz a maioria da população, porém? Prefere
as filas (sempre as filas!) dos postos de saúde, ou as macas
armadas nos corredores de abarrotados hospitais públicos.
É "questão cultural" em estado puro. Há hospitais
que até parecem hotéis de luxo, tal a excelência
de suas instalações e do atendimento. A esmagadora
maioria os rejeita em favor de uma assistência apressada,
oferecida em prédios arruinados.
Volte-se o olhar para o ensino e o emprego, e o
panorama é similar. Em cada cidade há um número
considerável de boas escolas particulares, mas a massa prefere
a aventura incerta da escola pública. No ensino superior,
ao contrário, as melhores ofertas estão na universidade
pública. Mas a maioria – cruel paradoxo – prefere as faculdades
particulares, nas quais o ensino é pior e se tem de pagar.
Isso quando se chega à faculdade, pois na maior parte dos
casos se prefere nem chegar perto. No emprego, esses mesmos que
optaram pelo ensino fundamental público e pelo ensino superior
privado, ou que prescindiram do ensino superior, vão agora
engrossar as fileiras daqueles que se jogam de corpo e alma nos
cargos mal pagos, nas ocupações temporárias
e nos arranjos sem carteira assinada. São costumes que, por
ter origem cultural, não se mudam com facilidade. E no setor
da segurança pública, então? Mora-se nas zonas
mais desprotegidas, convive-se com bandidos na esquina de casa,
e vigora até a compulsão de imiscuir-se no meio de
tiroteios – daí a freqüência de vítimas
de balas perdidas.
A maioria da população brasileira
não viaja ao exterior. Teima em ficar em seu canto e, ao
recusar-se a conhecer os centros mais avançados, priva-se
de padrões de comparação que seriam úteis
ao desenvolvimento pessoal e ao progresso coletivo. Eis outro traço
de infaustas conseqüências. Demorou para que compreendêssemos
o comportamento bizarro, na contramão da lógica mais
comezinha, da maioria dos brasileiros. Foi preciso esperar por um
funcionário do governo do PT. Outros governos, carentes de
raízes populares, não teriam a mesma legitimidade.
Este conhece o povo. Quando um seu porta-voz levanta a teoria da
"questão cultural", é porque sabe do que está
falando.
|