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Cinema
O inocente fútil
No espanhol Crime Ferpeito, um homem é levado a extremos em
defesa do direito à superficialidade 
Isabela Boscov
Rafael (Guillerme Toledo) não quer
para si romance, amizades ou sabedoria: quer ser chique, levar uma vida elegante
e nunca ter de deixar a loja de departamentos madrilena da qual é gerente
– onde o ar é perfumado, as roupas são bem cortadas e as vendedoras
são lindas e dispostas a se deixar seduzir. Tão grande é
o zelo de Rafael em manter seu lugar nesse mundo que certo dia, sem querer, ele
comete um assassinato. Na correria para se livrar do cadáver comprometedor
antes que a loja reabra, ele descobre que deixou uma testemunha: a feiíssima
vendedora Lourdes (Mónica Cervera), que agarra com as unhas roídas
e os dentes desalinhados a oportunidade de chantagear Rafael e transformá-lo
em seu escravo romântico e sexual. Lourdes, claro, é louca, e tem
uma família aterradora. Para dar um sumiço nela, Rafael precisa
bolar um plano infalível. Mas tais coisas não existem, e por isso
o novo filme de Álex de la Iglesia, que estréia nesta sexta-feira
no país, chama-se Crime Ferpeito (Crimen Ferpecto,
Espanha/Itália, 2004) – assim mesmo, com as sílabas trocadas.
Diretor dos também ótimos Ação Mutante, O Dia da
Besta e A Comunidade, Iglesia compartilha com outros espanhóis,
como Pedro Almodóvar e o Manuel Gómez Pereira de Entre as Pernas,
a vocação para um cinema exuberante, que envolve os sentidos e no
qual tudo é realçado e acentuado. Mas, até mais do que os
colegas, ele tem o dom do humor negro: a visão das pernas de Lourdes, com
meias escuras pelo meio das canelas e tênis brancos, arrepia mais até
do que a imagem dela esquartejando o corpo do assassinado para cair nas graças
do amado. A ironia do imbróglio em que Rafael se mete é que tudo
o que ele reivindica é o direito a ser um homem superficial, em paz com
a sociedade de consumo. Colorido, febril e impulsionado por excelentes atuações
cômicas do par central, Crime Ferpeito é um pesadelo do qual
dá pena acordar. |