Edição 1954 . 3 de maio de 2006

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Cinema
O inocente fútil

No espanhol Crime Ferpeito, um homem
é levado a extremos em defesa do direito
à superficialidade


Isabela Boscov

DA INTERNET
Trailer do filme

Rafael (Guillerme Toledo) não quer para si romance, amizades ou sabedoria: quer ser chique, levar uma vida elegante e nunca ter de deixar a loja de departamentos madrilena da qual é gerente – onde o ar é perfumado, as roupas são bem cortadas e as vendedoras são lindas e dispostas a se deixar seduzir. Tão grande é o zelo de Rafael em manter seu lugar nesse mundo que certo dia, sem querer, ele comete um assassinato. Na correria para se livrar do cadáver comprometedor antes que a loja reabra, ele descobre que deixou uma testemunha: a feiíssima vendedora Lourdes (Mónica Cervera), que agarra com as unhas roídas e os dentes desalinhados a oportunidade de chantagear Rafael e transformá-lo em seu escravo romântico e sexual. Lourdes, claro, é louca, e tem uma família aterradora. Para dar um sumiço nela, Rafael precisa bolar um plano infalível. Mas tais coisas não existem, e por isso o novo filme de Álex de la Iglesia, que estréia nesta sexta-feira no país, chama-se Crime Ferpeito (Crimen Ferpecto, Espanha/Itália, 2004) – assim mesmo, com as sílabas trocadas.

Diretor dos também ótimos Ação Mutante, O Dia da Besta e A Comunidade, Iglesia compartilha com outros espanhóis, como Pedro Almodóvar e o Manuel Gómez Pereira de Entre as Pernas, a vocação para um cinema exuberante, que envolve os sentidos e no qual tudo é realçado e acentuado. Mas, até mais do que os colegas, ele tem o dom do humor negro: a visão das pernas de Lourdes, com meias escuras pelo meio das canelas e tênis brancos, arrepia mais até do que a imagem dela esquartejando o corpo do assassinado para cair nas graças do amado. A ironia do imbróglio em que Rafael se mete é que tudo o que ele reivindica é o direito a ser um homem superficial, em paz com a sociedade de consumo. Colorido, febril e impulsionado por excelentes atuações cômicas do par central, Crime Ferpeito é um pesadelo do qual dá pena acordar.

 
 
 
 
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