Edição 1954 . 3 de maio de 2006

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Cinema
Eu sei o que você fez

No excepcional Caché, Michael Haneke
mostra uma Europa entrincheirada


Isabela Boscov

DA INTERNET
Trailer do filme

O diretor austríaco Michael Haneke rodou Caché (França/ Áustria/Alemanha/Itália, 2005) muito antes que estourassem as demonstrações recentes de vandalismo e ódio entre os jovens descendentes de imigrantes na periferia de Paris – o que confere ao filme que estréia nesta sexta-feira no país uma aura de vaticínio, ou pelo menos de tragédia anunciada. Não há em Caché (em francês, "oculto") cenas de violência física, só psicológica. Mas que violência. Um casal parisiense recebe, certo dia, uma correspondência anônima: uma fita de vídeo que mostra tão-somente o exterior de sua casa, com as idas e vindas da família. Outras semelhantes se seguem, acompanhadas de desenhos infantis que estampam um menino sangrando pela boca, ou uma galinha com o pescoço cortado. É o suficiente, e muito mais do que o suficiente, para instaurar o terror na vida antes confortável de Georges e Anne (Daniel Auteuil e Juliette Binoche). Alguém sabe de alguma coisa. Mas quem, e o quê? Marido, mulher e até o filho pré-adolescente têm segredos, como, presumivelmente, os tem qualquer outro ser humano. A insegurança de se sentirem flagrados e vigiados, porém, afetará a cada um deles de forma diversa – e a ninguém mais do que a Georges. Os desenhos toscos que chegam com as fitas reavivam um episódio suprimido de sua infância: suas manobras para expulsar da casa paterna um outro garoto, filho de argelinos, que seus pais pretendiam adotar. À maneira do que dizia o escritor William Faulkner, entretanto, esse passado não está morto. Aliás, nem sequer é passado.

Com sua contundência e brilhantismo hoje sem rivais no cinema europeu, Haneke lança em Caché um punhado de proposições fortes. A primeira e mais importante diz respeito à diáspora social francesa, que pode facilmente ser generalizada para qualquer outro país rico que receba imigrantes pobres e, sobretudo, de cultura estranha à sua. Georges e o argelino Majid quase tiveram o mesmo destino. Quatro décadas depois, porém, vê-se que, a partir do ponto em que suas trajetórias divergiram, eles seguiram caminhos dramaticamente opostos. Pior: Majid foi apagado da memória das pessoas antes próximas dele. A mãe de Georges, idosa mas lúcida, não consegue nem mais ligar seu nome à sua imagem. Majid se tornou invisível. Exceto pelo fato de que algum outro indivíduo, também invisível porque nunca se deixa apanhar, sabe o que Georges fez quando criança e sabe, principalmente, que ele não sente remorso, mas apenas medo, por seus atos. Essa é, de certa forma, a câmera oculta que fotografa Georges e Anne em Caché: o imenso contingente de insatisfeitos com as letras miúdas do contrato social francês, e o temor latente de que algum dia eles se levantem numa ruptura irremediável. Vale notar que Haneke não está culpando aqui os "filhos", ou os franceses de hoje, pelos erros dos "pais" – a França colonialista. Como em Código Desconhecido, que terminava com uma cena de tensão insuportável entre Juliette Binoche e um árabe, ele aponta que não apenas erros antigos foram perpetuados como outros, novos, foram inventados, de parte a parte.

Caché atira ainda em outros alvos: o peso do oculto num casamento, a vulnerabilidade da vida numa metrópole e o papel dúbio e desconcertante da imagem numa era em que ela pode ser manipulada a ponto de não se saber mais qual é o seu significado real. Mas é pela maneira como obriga o espectador a se revezar na pele incômoda de cada um de seus personagens que ele, de fato, desfere seu nocaute.

 
 
 
 
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