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Cinema
Eu sei o que você fez
No excepcional Caché, Michael Haneke mostra uma Europa entrincheirada

Isabela Boscov
O diretor austríaco Michael Haneke
rodou Caché (França/ Áustria/Alemanha/Itália,
2005) muito antes que estourassem as demonstrações recentes de vandalismo
e ódio entre os jovens descendentes de imigrantes na periferia de Paris
– o que confere ao filme que estréia nesta sexta-feira no país uma
aura de vaticínio, ou pelo menos de tragédia anunciada. Não
há em Caché (em francês, "oculto") cenas de violência
física, só psicológica. Mas que violência. Um casal
parisiense recebe, certo dia, uma correspondência anônima: uma fita
de vídeo que mostra tão-somente o exterior de sua casa, com as idas
e vindas da família. Outras semelhantes se seguem, acompanhadas de desenhos
infantis que estampam um menino sangrando pela boca, ou uma galinha com o pescoço
cortado. É o suficiente, e muito mais do que o suficiente, para instaurar
o terror na vida antes confortável de Georges e Anne (Daniel Auteuil e
Juliette Binoche). Alguém sabe de alguma coisa. Mas quem, e o quê?
Marido, mulher e até o filho pré-adolescente têm segredos,
como, presumivelmente, os tem qualquer outro ser humano. A insegurança
de se sentirem flagrados e vigiados, porém, afetará a cada um deles
de forma diversa – e a ninguém mais do que a Georges. Os desenhos toscos
que chegam com as fitas reavivam um episódio suprimido de sua infância:
suas manobras para expulsar da casa paterna um outro garoto, filho de argelinos,
que seus pais pretendiam adotar. À maneira do que dizia o escritor William
Faulkner, entretanto, esse passado não está morto. Aliás,
nem sequer é passado. Com sua contundência
e brilhantismo hoje sem rivais no cinema europeu, Haneke lança em Caché
um punhado de proposições fortes. A primeira e mais importante diz
respeito à diáspora social francesa, que pode facilmente ser generalizada
para qualquer outro país rico que receba imigrantes pobres e, sobretudo,
de cultura estranha à sua. Georges e o argelino Majid quase tiveram o mesmo
destino. Quatro décadas depois, porém, vê-se que, a partir
do ponto em que suas trajetórias divergiram, eles seguiram caminhos dramaticamente
opostos. Pior: Majid foi apagado da memória das pessoas antes próximas
dele. A mãe de Georges, idosa mas lúcida, não consegue nem
mais ligar seu nome à sua imagem. Majid se tornou invisível. Exceto
pelo fato de que algum outro indivíduo, também invisível
porque nunca se deixa apanhar, sabe o que Georges fez quando criança e
sabe, principalmente, que ele não sente remorso, mas apenas medo, por seus
atos. Essa é, de certa forma, a câmera oculta que fotografa Georges
e Anne em Caché: o imenso contingente de insatisfeitos com as letras
miúdas do contrato social francês, e o temor latente de que algum
dia eles se levantem numa ruptura irremediável. Vale notar que Haneke não
está culpando aqui os "filhos", ou os franceses de hoje, pelos erros dos
"pais" – a França colonialista. Como em Código Desconhecido,
que terminava com uma cena de tensão insuportável entre Juliette
Binoche e um árabe, ele aponta que não apenas erros antigos foram
perpetuados como outros, novos, foram inventados, de parte a parte.
Caché atira ainda em outros alvos: o peso do
oculto num casamento, a vulnerabilidade da vida numa metrópole e o papel
dúbio e desconcertante da imagem numa era em que ela pode ser manipulada
a ponto de não se saber mais qual é o seu significado real. Mas
é pela maneira como obriga o espectador a se revezar na pele incômoda
de cada um de seus personagens que ele, de fato, desfere seu nocaute.
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