Edição 1954 . 3 de maio de 2006

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Televisão
Elas gozam de ótima saúde

Com o cruel House e o novelão
Grey's Anatomy, as séries médicas
mostram toda a sua força


Marcelo Marthe


Divulgação
House (Hugh Laurie) e sua equipe: "Basta aparecer uma criança careca e logo vira santinha"
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Fotos das séries


Num episódio recente da série americana House, o médico Gregory House tratou de uma menina de 9 anos com câncer em estágio terminal. "Por que ela precisa de mais um ano de vida para se despedir da mãe? Vai ver que é gaga", resmungou para um colega. E emendou: "Basta aparecer uma criança careca e logo vira santinha". O doutor é mestre na investigação de diagnósticos complexos, mas está mais para monstro que médico: trata-se de um anti-herói viciado em remédios e um misantropo. Interpretado pelo inglês Hugh Laurie com partes iguais de humor, introspecção e crueldade, ele diz, enfim, aquilo que muitos médicos pensam, mas não confessam: que as doenças são muito interessantes, mas os pacientes são um aborrecimento. A provocativa House é a prova de que os seriados médicos são um filão longe de se esgotar.

O ambiente hospitalar é um manancial de onde já se extraíram novelões na linha do velho General Hospital, uma comédia mordaz como Scrubs (veja quadro) e uma trama de ação como E.R., que resiste no ar há doze anos. House tem sido visto toda semana por 20 milhões de americanos e virou um dos carros-chefes do canal pago brasileiro Universal (em tempo: seus direitos de exibição foram comprados pela Rede Globo). No momento, disputa a primazia do gênero com uma atração que não poderia ser mais diferente: Grey's Anatomy. Transmitida no Brasil pela Sony, essa série usa a medicina apenas como pretexto para as aventuras amorosas – ora cômicas, ora dramáticas – da protagonista, a médica residente Meredith Grey (Ellen Pompeo), e seus colegas num hospital de Seattle. Grey's Anatomy é uma potência: na noite da grande final do campeonato de futebol americano, em fevereiro passado, atraiu uma audiência de 38 milhões de espectadores nos Estados Unidos.

Não é difícil entender por que os hospitais fazem tanto sucesso na ficção. Médicos e pacientes encontram-se em posição vulnerável, o que permite aos roteiristas explorar os dramas humanos em toda a sua intensidade. Um dado da vida contemporânea também explica o interesse do público: numa época em que as pessoas chegam aos consultórios bem informadas sobre tudo o que diz respeito às doenças, os procedimentos médicos ganharam o status de entretenimento. Cada episódio de House é um quebra-cabeça no qual o protagonista e sua equipe lançam mão de dedução, exames e intervenções cirúrgicas para chegar a um diagnóstico – e é espantosa a criatividade de David Shore, roteirista da série, para bolar casos intricados. No capítulo sobre a garotinha com câncer, eles induziram a pobre à morte momentânea para descobrir a localização de um coágulo em seu cérebro.

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A doutora Grey: sexo casual com três rapazes – um deles com histórico de sífilis no prontuário


Em House, os episódios sempre desembocam em discussões sobre moral e ética. Num deles, uma paciente cansada de se submeter a exames excruciantes pede que a deixem ter uma morte digna. House reage com ceticismo: não existe dignidade possível na morte, diz ele. O médico é um dos tipos mais marcantes surgidos na TV nos últimos tempos. House é manco, fruto de um procedimento médico cometido à sua revelia – e a deficiência é uma metáfora de sua personalidade torta. Pesquisas mostraram que ele faz sucesso entre os homens por ser um personagem que realiza as coisas de seu jeito, contra todas as convenções. A surpresa para os produtores da série foi constatar que as espectadoras elegeram o esquisitão como símbolo sexual.

Se House põe o espectador diante de questões elevadas, em Grey's Anatomy só se pensa em sexo. A heroína Meredith tem uma noite de amor casual com um sujeito bonitão e, no dia seguinte, descobre que ele é o neurocirurgião que será seu chefe no hospital. Ela se apaixona pelo tal "Dr. McSonho" (Patrick Dempsey), mas eis que um dia descobre que o sujeito é casado – e com uma médica que se integra aos quadros do hospital com o objetivo de arrancar o maridão de suas garras. Desconsolada, Meredith tem uma transa fortuita com um sujeito que conhece num bar. E também terá uma noite tórrida com um amigo de trabalho. O mesmo personagem, aliás, que num outro episódio entrou em pânico ao saber que tinha contraído sífilis num triângulo amoroso com uma enfermeira e um colega residente. Num pronto-socorro, como se vê, convive-se com todo tipo de emergência.

 

Quando a UTI é uma festa

Numa cena do seriado Scrubs, o protagonista JD (Zach Braff) e a médica que divide apartamento com ele entediam-se com a brincadeira de levar para a cama um dos residentes do hospital em que trabalham. "É melhor irmos para casa ver Grey's Anatomy", diz ela, ao que JD responde: "Adoro esse programa. É como se tivessem colocado nossas vidas na televisão". Os diálogos irônicos são uma das características de Scrubs, que vai ao ar pela Sony. O programa oferece uma variação inusitada da receita dos seriados médicos: é uma comédia cheia de nonsense. O atrapalhado JD só se dá mal com as mulheres e morre de ciúme de um residente que tem um caso com sua ex-namorada. No fundo, o grande "romance" da série é a amizade entre JD e o colega Turk (Donald Faison). Os outros personagens, aliás, vivem insinuando que há algo mais que fraternidade ali. Scrubs dá um show de roteiro como não se via nas séries cômicas desde Seinfeld: a rotina do hospital é entremeada com as fantasias absurdas de JD, e as tiradas não poupam nem os casos mais tristes. Num dos episódios, o objeto de desejo do staff médico, por exemplo, é a mulher "saborosa" de um paciente em coma. A única coisa que o seriado dispensa é o "saco de risadas" – aquela claque que estimula o espectador a rir das piadas. É para quem pode.

 
 
 
 
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