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Televisão
Elas gozam de ótima saúde Com
o cruel House e o novelão Grey's Anatomy, as séries
médicas mostram toda a sua força 
Marcelo Marthe
Divulgação  |
| House (Hugh Laurie) e sua equipe: "Basta aparecer
uma criança careca e logo vira santinha" | | Num episódio recente
da série americana House, o médico Gregory House tratou de
uma menina de 9 anos com câncer em estágio terminal. "Por que ela
precisa de mais um ano de vida para se despedir da mãe? Vai ver que é
gaga", resmungou para um colega. E emendou: "Basta aparecer uma criança
careca e logo vira santinha". O doutor é mestre na investigação
de diagnósticos complexos, mas está mais para monstro que médico:
trata-se de um anti-herói viciado em remédios e um misantropo. Interpretado
pelo inglês Hugh Laurie com partes iguais de humor, introspecção
e crueldade, ele diz, enfim, aquilo que muitos médicos pensam, mas não
confessam: que as doenças são muito interessantes, mas os pacientes
são um aborrecimento. A provocativa House é a prova de que
os seriados médicos são um filão longe de se esgotar.
O ambiente hospitalar é um manancial
de onde já se extraíram novelões na linha do velho General
Hospital, uma comédia mordaz como Scrubs (veja
quadro) e uma trama de ação como E.R., que
resiste no ar há doze anos. House tem sido visto toda semana por
20 milhões de americanos e virou um dos carros-chefes do canal pago brasileiro
Universal (em tempo: seus direitos de exibição foram comprados pela
Rede Globo). No momento, disputa a primazia do gênero com uma atração
que não poderia ser mais diferente: Grey's Anatomy. Transmitida
no Brasil pela Sony, essa série usa a medicina apenas como pretexto para
as aventuras amorosas ora cômicas, ora dramáticas da
protagonista, a médica residente Meredith Grey (Ellen Pompeo), e seus colegas
num hospital de Seattle. Grey's Anatomy é uma potência: na
noite da grande final do campeonato de futebol americano, em fevereiro passado,
atraiu uma audiência de 38 milhões de espectadores nos Estados Unidos.
Não é difícil
entender por que os hospitais fazem tanto sucesso na ficção. Médicos
e pacientes encontram-se em posição vulnerável, o que permite
aos roteiristas explorar os dramas humanos em toda a sua intensidade. Um dado
da vida contemporânea também explica o interesse do público:
numa época em que as pessoas chegam aos consultórios bem informadas
sobre tudo o que diz respeito às doenças, os procedimentos médicos
ganharam o status de entretenimento. Cada episódio de House é
um quebra-cabeça no qual o protagonista e sua equipe lançam mão
de dedução, exames e intervenções cirúrgicas
para chegar a um diagnóstico e é espantosa a criatividade
de David Shore, roteirista da série, para bolar casos intricados. No capítulo
sobre a garotinha com câncer, eles induziram a pobre à morte momentânea
para descobrir a localização de um coágulo em seu cérebro.
Divulgação  |
| A doutora Grey: sexo casual com três rapazes – um deles
com histórico de sífilis no prontuário |
Em House, os episódios sempre desembocam em discussões sobre
moral e ética. Num deles, uma paciente cansada de se submeter a exames
excruciantes pede que a deixem ter uma morte digna. House reage com ceticismo:
não existe dignidade possível na morte, diz ele. O médico
é um dos tipos mais marcantes surgidos na TV nos últimos tempos.
House é manco, fruto de um procedimento médico cometido à
sua revelia e a deficiência é uma metáfora de sua personalidade
torta. Pesquisas mostraram que ele faz sucesso entre os homens por ser um personagem
que realiza as coisas de seu jeito, contra todas as convenções.
A surpresa para os produtores da série foi constatar que as espectadoras
elegeram o esquisitão como símbolo sexual.
Se House põe o espectador diante de questões elevadas, em
Grey's Anatomy só se pensa em sexo. A heroína Meredith tem
uma noite de amor casual com um sujeito bonitão e, no dia seguinte, descobre
que ele é o neurocirurgião que será seu chefe no hospital.
Ela se apaixona pelo tal "Dr. McSonho" (Patrick Dempsey), mas eis que um dia descobre
que o sujeito é casado e com uma médica que se integra aos
quadros do hospital com o objetivo de arrancar o maridão de suas garras.
Desconsolada, Meredith tem uma transa fortuita com um sujeito que conhece num
bar. E também terá uma noite tórrida com um amigo de trabalho.
O mesmo personagem, aliás, que num outro episódio entrou em pânico
ao saber que tinha contraído sífilis num triângulo amoroso
com uma enfermeira e um colega residente. Num pronto-socorro, como se vê,
convive-se com todo tipo de emergência.
| Quando a UTI é uma
festa Numa cena do seriado Scrubs, o protagonista
JD (Zach Braff) e a médica que divide apartamento com ele entediam-se com
a brincadeira de levar para a cama um dos residentes do hospital em que trabalham.
"É melhor irmos para casa ver Grey's Anatomy", diz ela, ao que JD
responde: "Adoro esse programa. É como se tivessem colocado nossas vidas
na televisão". Os diálogos irônicos são uma das características
de Scrubs, que vai ao ar pela Sony. O programa oferece uma variação
inusitada da receita dos seriados médicos: é uma comédia
cheia de nonsense. O atrapalhado JD só se dá mal com as mulheres
e morre de ciúme de um residente que tem um caso com sua ex-namorada. No
fundo, o grande "romance" da série é a amizade entre JD e o colega
Turk (Donald Faison). Os outros personagens, aliás, vivem insinuando que
há algo mais que fraternidade ali. Scrubs dá um show de roteiro
como não se via nas séries cômicas desde Seinfeld:
a rotina do hospital é entremeada com as fantasias absurdas de JD, e as
tiradas não poupam nem os casos mais tristes. Num dos episódios,
o objeto de desejo do staff médico, por exemplo, é a mulher "saborosa"
de um paciente em coma. A única coisa que o seriado dispensa é o
"saco de risadas" aquela claque que estimula o espectador a rir das piadas.
É para quem pode. | | |