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Música
Pagode de alemão
Uma rave em que os DJs tocam música
erudita faz sucesso na terra de Beethoven

Sérgio Martins
Montagem sobre fotos de Kean Collection/Getty
Images/Seth Kushner/Getty Images
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A Yellow Lounge é a festa
mais badalada da noite alemã. Na primeira segunda-feira de
cada mês, em Berlim, ela lota locais que abrigam de 600 a
1.500 pessoas (sendo que pelo menos outras 700 ficam de fora). O
público é formado por gente entre os 25 e os 40 anos,
e os DJs figuram no primeiro time da cena eletrônica. A diferença
está na seleção musical. Na Yellow Lounge,
o bate-estaca dá lugar a compositores como Beethoven e Chopin.
De vez em quando, alguém coloca para tocar Varese ou Pierre
Boulez, papas da música erudita contemporânea. "A Yellow
Lounge tem duas qualidades alemãs: a excelência erudita
e a vanguarda eletrônica, sem a sisudez da sala de concertos
ou o barulho das discotecas" diz Christian Kellersman, executivo
da gravadora Deutsche Grammophon e criador da festa. O burburinho
em torno da Yellow Lounge é tão grande que até
o presidente alemão, Horts Koehler, já foi ferver
na "rave erudita".
A Yellow Lounge nasceu porque
a Deutsche Grammophon necessitava urgentemente atrair o público
jovem para a seara erudita. Nos últimos anos, as vendas de
álbuns de música clássica caíram 20%.
Uma das razões é porque a moçada não
se mostra disposta a entrar na seção de discos do
gênero. "Nas lojas, ela fica separada dos lançamentos
pop, como se fosse um mundo à parte. Para os adolescentes,
então, parece que ouvir música erudita é coisa
de gente de meia-idade", diz Kellersman. O primeiro passo para sacudir
o segmento foi mudar a capa dos discos: em lugar da expressão
sisuda de um Bach, por exemplo, modelos em trajes diáfanos
e poses lânguidas. Até uma artista como a violinista
Anne-Sophie Mutter, de 42 anos, vez ou outra aparece de camiseta
justinha na capa de seus discos.
Por fim, a Deutsche Grammophon
criou a Yellow Lounge. O trunfo da festa é que as composições
são mixadas ao vivo. O DJ pode começar com Debussy,
passar para Chopin e encerrar com Mozart. Meses atrás, a
pianista Hélène Grimaud e a violinista Hilary Hahn
duelaram com DJs numa performance realizada na Postdamer Platz,
um dos cartões-postais de Berlim. Em outra ocasião,
o naipe de percussão de uma orquestra jovem fez um miniconcerto
numa boate, com DJs e projeção de imagens psicodélicas.
A escolha de Berlim contribuiu
muito para o êxito da Yellow Lounge. A cidade é uma
das capitais da música erudita: tem quatro sinfônicas
e mais três orquestras de ópera, todas bancadas pelo
governo. "Os alemães sabem que a música clássica
é um patrimônio do país e gastam com suas orquestras",
explica o regente Daniel Barenboim, diretor artístico da
Ópera Estatal de Berlim. Mas há sinais de que a Yellow
Lounge poderia fazer sucesso também na terra do pagode. Há
um ano, o guia VivaMúsica organizou no Rio de Janeiro
uma festa nos moldes da rave alemã. A ousadia deu bons resultados.
"Os DJs brasileiros gostaram da novidade e o público pediu
mais eventos desse tipo", diz a editora Heloísa Fischer,
responsável pelo VivaMúsica.
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