Edição 1954 . 3 de maio de 2006

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Música
Pagode de alemão

Uma rave em que os DJs tocam música
erudita faz sucesso na terra de Beethoven


Sérgio Martins


Montagem sobre fotos de Kean Collection/Getty Images/Seth Kushner/Getty Images

A Yellow Lounge é a festa mais badalada da noite alemã. Na primeira segunda-feira de cada mês, em Berlim, ela lota locais que abrigam de 600 a 1.500 pessoas (sendo que pelo menos outras 700 ficam de fora). O público é formado por gente entre os 25 e os 40 anos, e os DJs figuram no primeiro time da cena eletrônica. A diferença está na seleção musical. Na Yellow Lounge, o bate-estaca dá lugar a compositores como Beethoven e Chopin. De vez em quando, alguém coloca para tocar Varese ou Pierre Boulez, papas da música erudita contemporânea. "A Yellow Lounge tem duas qualidades alemãs: a excelência erudita e a vanguarda eletrônica, sem a sisudez da sala de concertos ou o barulho das discotecas" diz Christian Kellersman, executivo da gravadora Deutsche Grammophon e criador da festa. O burburinho em torno da Yellow Lounge é tão grande que até o presidente alemão, Horts Koehler, já foi ferver na "rave erudita".

A Yellow Lounge nasceu porque a Deutsche Grammophon necessitava urgentemente atrair o público jovem para a seara erudita. Nos últimos anos, as vendas de álbuns de música clássica caíram 20%. Uma das razões é porque a moçada não se mostra disposta a entrar na seção de discos do gênero. "Nas lojas, ela fica separada dos lançamentos pop, como se fosse um mundo à parte. Para os adolescentes, então, parece que ouvir música erudita é coisa de gente de meia-idade", diz Kellersman. O primeiro passo para sacudir o segmento foi mudar a capa dos discos: em lugar da expressão sisuda de um Bach, por exemplo, modelos em trajes diáfanos e poses lânguidas. Até uma artista como a violinista Anne-Sophie Mutter, de 42 anos, vez ou outra aparece de camiseta justinha na capa de seus discos.

Por fim, a Deutsche Grammophon criou a Yellow Lounge. O trunfo da festa é que as composições são mixadas ao vivo. O DJ pode começar com Debussy, passar para Chopin e encerrar com Mozart. Meses atrás, a pianista Hélène Grimaud e a violinista Hilary Hahn duelaram com DJs numa performance realizada na Postdamer Platz, um dos cartões-postais de Berlim. Em outra ocasião, o naipe de percussão de uma orquestra jovem fez um miniconcerto numa boate, com DJs e projeção de imagens psicodélicas.

A escolha de Berlim contribuiu muito para o êxito da Yellow Lounge. A cidade é uma das capitais da música erudita: tem quatro sinfônicas e mais três orquestras de ópera, todas bancadas pelo governo. "Os alemães sabem que a música clássica é um patrimônio do país e gastam com suas orquestras", explica o regente Daniel Barenboim, diretor artístico da Ópera Estatal de Berlim. Mas há sinais de que a Yellow Lounge poderia fazer sucesso também na terra do pagode. Há um ano, o guia VivaMúsica organizou no Rio de Janeiro uma festa nos moldes da rave alemã. A ousadia deu bons resultados. "Os DJs brasileiros gostaram da novidade e o público pediu mais eventos desse tipo", diz a editora Heloísa Fischer, responsável pelo VivaMúsica.

 
 
 
 
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