|
|
Livros
O cidadão de si mesmo
Em Um Homem sem Pátria, uma boa amostra do escritor – e
homem – Kurt Vonnegut 
Moacyr Scliar
Brad Barket/Getty Images  |
| O octogenário Vonnegut: marcado a fundo pela experiência
do bombardeio de Dresden | | Como o Charles Bukowski
de Mulheres e o J.D. Salinger de O Apanhador no Campo de Centeio,
Kurt Vonnegut ocupa uma posição peculiar na literatura americana
contemporânea. Ele não pode ser incluído em nenhuma escola,
grupo ou tendência. É original, como escritor e como indivíduo.
Disso se tem uma boa amostra em sua mais recente obra, Um Homem sem Pátria
(tradução de Roberto Muggiati; Record; 157 páginas; 29,90
reais). Vonnegut, de 83 anos, é autor de algumas dezenas de volumes de
ficção, mas não publicava um livro inédito desde 1999.
Seu novo livro, assim, surpreende já pela existência – e pelo título.
Um homem sem pátria, numa época de ressurgimento do nacionalismo?
Sim: Vonnegut se considera cidadão do mundo, posição que
defende com ironia nessa coletânea de ensaios.
Um
Homem sem Pátria reúne textos curtos e agradáveis, que
às vezes estão mais próximos da leveza da crônica do
que do ensaio propriamente dito. Os temas vão da crítica à
sociedade americana, pela qual Vonnegut já é bem conhecido, a uma
estranha proposta de leitura de Hamlet, a peça maior de Shakespeare,
amparada em gráficos matemáticos. A obra apresenta ainda Vonnegut
como um artista plástico diletante: aforismos dele aparecem, manuscritos
e com requintes caligráficos, em página inteira na abertura de cada
ensaio. A ilustração da capa também é de sua autoria.
Nada digno de figurar em museu, mas confere originalidade ao livro. O mais notável,
porém, é o forte aspecto autobiográfico da maioria dos textos.
Mesmo aqueles que versam sobre política permitem vislumbres da trajetória
pessoal do autor. E
Vonnegut tem muito a contar. Descendente de alemães, durante a II Guerra
ele conheceu na pele a hostilidade ocasionada por sua origem. Como combatente,
presenciou um episódio dantesco, que marcaria toda a sua obra, inclusive
Um Homem sem Pátria. Prisioneiro dos alemães em Dresden,
viu a cidade ser arrasada por bombardeiros ingleses e americanos, numa ação
que causou entre 35 000 e 135 000 mortes de civis e que não tinha justificativa
do ponto de vista militar. Baseado na experiência de Dresden, escreveu o
clássico Matadouro 5 – que, juntamente com Cama-de-Gato e
Almoço dos Campeões, forma seu trio de livros mais citados.
Misto de sátira, narrativa realista de guerra e ficção científica
(seu protagonista vai e vem no tempo), Matadouro 5 é, já
na sua forma, uma manifestação do inconformismo do autor – no caso,
contra a divisão arbitrária entre a arte e a educação
técnica. Químico e antropólogo por formação,
o escritor é um rebelde eclético.
O espírito contestador de Vonnegut, contudo, vai além. O autor se
considera um socialista à moda antiga, e defende seu pensamento, se não
com lógica inatacável, ao menos com sinceridade: "O socialismo não
preconizou Josef Stalin, sua polícia secreta e o fechamento de igrejas
mais do que o cristianismo preconizou a Inquisição", escreve, como
se dois erros fizessem um acerto. Vonnegut, obviamente, é um crítico
devotado da gestão Bush em particular e da supremacia americana em geral.
O poder, postula ele, corrompe e exclui qualquer chance "de a América se
tornar humana e sensata". Se Vonnegut soa assim algo ingênuo, é preciso
balizar essas afirmações com sua própria trajetória
e com o humanismo que norteia suas considerações. Veja-se, por exemplo,
a frase que ele quer como seu epitáfio: "A Boa Terra: poderíamos
tê-la salvo, mas fomos muito medíocres e preguiçosos". O escritor
é, de fato, um homem de outro tempo. Um tempo em que, em vez da complacência,
se preferia o desafio.
| O humor no horror "Catástrofes
totais são terrivelmente divertidas, como Voltaire demonstrou. Se querem
saber, o terremoto de Lisboa é engraçado. Vi a destruição
de Dresden. Vi a cidade antes, e então saí de um abrigo antiaéreo
e a vi depois, e certamente uma das minhas reações foi a risada.
Sabe Deus, é a alma buscando algum alívio."
Trecho de Um Homem sem Pátria, de Kurt
Vonnegut | | |