Edição 1954 . 3 de maio de 2006

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O cidadão de si mesmo

Em Um Homem sem Pátria,
uma boa amostra do escritor
– e homem – Kurt Vonnegut


Moacyr Scliar

Brad Barket/Getty Images
O octogenário Vonnegut: marcado a fundo pela experiência do bombardeio de Dresden
EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro


Como o Charles Bukowski de Mulheres e o J.D. Salinger de O Apanhador no Campo de Centeio, Kurt Vonnegut ocupa uma posição peculiar na literatura americana contemporânea. Ele não pode ser incluído em nenhuma escola, grupo ou tendência. É original, como escritor e como indivíduo. Disso se tem uma boa amostra em sua mais recente obra, Um Homem sem Pátria (tradução de Roberto Muggiati; Record; 157 páginas; 29,90 reais). Vonnegut, de 83 anos, é autor de algumas dezenas de volumes de ficção, mas não publicava um livro inédito desde 1999. Seu novo livro, assim, surpreende já pela existência – e pelo título. Um homem sem pátria, numa época de ressurgimento do nacionalismo? Sim: Vonnegut se considera cidadão do mundo, posição que defende com ironia nessa coletânea de ensaios.

Um Homem sem Pátria reúne textos curtos e agradáveis, que às vezes estão mais próximos da leveza da crônica do que do ensaio propriamente dito. Os temas vão da crítica à sociedade americana, pela qual Vonnegut já é bem conhecido, a uma estranha proposta de leitura de Hamlet, a peça maior de Shakespeare, amparada em gráficos matemáticos. A obra apresenta ainda Vonnegut como um artista plástico diletante: aforismos dele aparecem, manuscritos e com requintes caligráficos, em página inteira na abertura de cada ensaio. A ilustração da capa também é de sua autoria. Nada digno de figurar em museu, mas confere originalidade ao livro. O mais notável, porém, é o forte aspecto autobiográfico da maioria dos textos. Mesmo aqueles que versam sobre política permitem vislumbres da trajetória pessoal do autor.

E Vonnegut tem muito a contar. Descendente de alemães, durante a II Guerra ele conheceu na pele a hostilidade ocasionada por sua origem. Como combatente, presenciou um episódio dantesco, que marcaria toda a sua obra, inclusive Um Homem sem Pátria. Prisioneiro dos alemães em Dresden, viu a cidade ser arrasada por bombardeiros ingleses e americanos, numa ação que causou entre 35 000 e 135 000 mortes de civis e que não tinha justificativa do ponto de vista militar. Baseado na experiência de Dresden, escreveu o clássico Matadouro 5 – que, juntamente com Cama-de-Gato e Almoço dos Campeões, forma seu trio de livros mais citados. Misto de sátira, narrativa realista de guerra e ficção científica (seu protagonista vai e vem no tempo), Matadouro 5 é, já na sua forma, uma manifestação do inconformismo do autor – no caso, contra a divisão arbitrária entre a arte e a educação técnica. Químico e antropólogo por formação, o escritor é um rebelde eclético.

O espírito contestador de Vonnegut, contudo, vai além. O autor se considera um socialista à moda antiga, e defende seu pensamento, se não com lógica inatacável, ao menos com sinceridade: "O socialismo não preconizou Josef Stalin, sua polícia secreta e o fechamento de igrejas mais do que o cristianismo preconizou a Inquisição", escreve, como se dois erros fizessem um acerto. Vonnegut, obviamente, é um crítico devotado da gestão Bush em particular e da supremacia americana em geral. O poder, postula ele, corrompe e exclui qualquer chance "de a América se tornar humana e sensata". Se Vonnegut soa assim algo ingênuo, é preciso balizar essas afirmações com sua própria trajetória e com o humanismo que norteia suas considerações. Veja-se, por exemplo, a frase que ele quer como seu epitáfio: "A Boa Terra: poderíamos tê-la salvo, mas fomos muito medíocres e preguiçosos". O escritor é, de fato, um homem de outro tempo. Um tempo em que, em vez da complacência, se preferia o desafio.

 

O humor no horror

"Catástrofes totais são terrivelmente divertidas, como Voltaire demonstrou. Se querem saber, o terremoto de Lisboa é engraçado. Vi a destruição de Dresden. Vi a cidade antes, e então saí de um abrigo antiaéreo e a vi depois, e certamente uma das minhas reações foi a risada. Sabe Deus, é a alma buscando algum alívio."

Trecho de Um Homem sem
Pátria
, de Kurt Vonnegut

 
 
 
 
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