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Arte
O altar romano
Roma inaugura um novo museu
para abrigar o Ara Pacis, monumento
que celebra o imperador Augusto

Jerônimo Teixeira
Alessandro Bianchi/Reuters
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| O Ara Pacis, do ano 9 a.C.: protegido por
uma estrutura de vidro e aço do arquiteto americano Richard
Meier. Assinalados em vermelho, os orifícios para escoar
o sangue dos sacrifícios |
Desde os anos 1930, quando o governo
fascista de Benito Mussolini promoveu uma série de reformas
em Roma, não se construíam novas edificações
no centro histórico da cidade. Não surpreende, portanto,
que o novo museu que abriga o Ara Pacis – o Altar da Paz, monumento
da época do imperador Otávio Augusto – venha gerando
tanta polêmica. Os conservadores mais empedernidos relutam
em aceitar que um marco da Roma dos césares seja protegido
por uma estrutura de aço, concreto e vidro projetada pelo
arquiteto americano Richard Meier. O prefeito Walter Veltroni inaugurou
oficialmente o novo museu na semana passada, marcando a data convencional
do aniversário da cidade, 21 de abril. Ainda estão
para ser concluídos o auditório de 300 lugares e um
espaço de exposições paralelas, mas a peça
central desse complexo já está aberta ao público.
Romanos e turistas podem admirar o altar do ano 9 a.C. em sua morada
modernista. "O novo museu tem uma leveza que não se encontra
nos antigos", diz Meier, que já projetou, entre outros, o
Museu Getty de Los Angeles e o Museu de Arte Contemporânea
de Barcelona.
O Ara Pacis foi erguido pelo Senado
romano para celebrar a pacificação da Gália
e da Hispânia (atuais França e Espanha), depois das
excursões militares efetuadas por Augusto nessas províncias.
"O Senado decretou que se devia consagrar um altar da paz em honra
ao meu regresso e ordenou que magistrados, sacerdotes e virgens
vestais ali realizassem um sacrifício anual", anotou o imperador
no Res Gestae, livro em que registrou seus feitos. O Ara
Pacis é uma edificação retangular, de mármore,
dentro da qual se encontra o altar propriamente dito (junto ao chão,
há orifícios para escoar o sangue dos animais sacrificados).
As paredes externas são cobertas de frisos que retratam temas
mitológicos e uma procissão religiosa atendida por
Augusto, sua família e amigos. O historiador latino Tácito
afirmou que a chamada pax romana era uma "paz sangrenta".
A paz celebrada na época de Augusto foi, portanto, muito
relativa. Mas o primeiro imperador de Roma (veja
o quadro abaixo) conteve com sucesso as guerras civis
herdadas de Júlio César e fez um governo próspero.
Soterrado depois que Roma foi invadida
por bárbaros, o Ara Pacis seria redescoberto em escavações
no início do século XX. No fim dos anos 30, o ditador
Benito Mussolini ordenou a restauração do altar e
o instalou à margem do Rio Tibre, num prédio monumental
hoje substituído pela elegante estrutura de Meier. Quando
Hitler esteve em Roma em 1938, o orgulhoso Mussolini fez questão
de incluir o Ara Pacis no roteiro oficial da visita. É claro
que esse empenho arqueológico do líder fascista não
se devia a seu amor desinteressado pelas artes. Mussolini desejava
ser um novo Augusto, restaurando a glória do antigo Império
Romano. O curioso é que, nas reformas e restaurações
que realizou no centro histórico de Roma, o mausoléu
do primeiro imperador foi negligenciado. Não era "triunfal"
o suficiente para o gosto fascista.
Em sua nova casa, o Ara Pacis
parece ter sido por fim desvinculado de qualquer associação
com o fascismo. A polêmica em torno do prédio de Meier,
porém, tem suas repercussões políticas. Enquanto
o arquiteto e o prefeito discursavam na inauguração
do museu, um protesto do lado de fora reuniu membros do partido
de extrema direita Alleanza Nazionale. O grande opositor do projeto
tem sido Vittorio Sgarbi, ex-ministro da Cultura do governo de Silvio
Berlusconi – e é claro que parte de sua munição
tem como alvo Veltroni, prefeito de centro-esquerda que pretende
se reeleger no próximo pleito. Sgarbi chegou a dizer que
o museu é o "pior monumento" já erguido em Roma. Não
é verdade. Como a pirâmide de vidro do Museu do Louvre,
em Paris – outro projeto que foi cercado de polêmica quando
de sua inauguração, em 1989 –, a estrutura envidraçada
que abriga o Ara Pacis promove uma vibrante interação
entre a arquitetura antiga e a moderna. É a prova maior da
vitalidade artística da era de Augusto: seus monumentos convivem
pacificamente com a novidade.
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O primeiro
imperador
Júlio César
muitas vezes é equivocadamente creditado como
o primeiro imperador romano. Mas essa honra cabe a seu
sobrinho-neto, Caio Otávio (63 a.C.-14 d.C.).
Júlio César, na verdade, proclamou-se
ditador de Roma. Com apenas 18 anos, Otávio envolveu-se
na complicada e violenta disputa sucessória que
se seguiu ao assassinato de César, em 44 a.C.
Político habilidoso, nos anos seguintes ele derrotou
Brutus e Cássio, os assassinos do ditador, e
mais tarde Marco Antônio, com quem por algum tempo
dividira o poder. Otávio nomeou-se Augusto, nome
que guardava uma certa ressonância religiosa.
Para pacificar os ânimos de nobres e senadores,
Otávio Augusto restaurou formalmente as instituições
da República sufocadas por César, ainda
que de fato exercesse um poder quase absoluto. Descrito
pelo historiador Suetônio como um homem de hábitos
frugais, foi um dos mais iluminados governantes romanos.
Sob seu domínio, o império ampliou-se,
incentivaram-se as artes e vários monumentos
foram erguidos em Roma – entre eles, o Ara Pacis e o
mausoléu em que as cinzas do imperador seriam
depositadas.
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