Edição 1954 . 3 de maio de 2006

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Arte
O altar romano

Roma inaugura um novo museu
para abrigar o Ara Pacis, monumento
que celebra o imperador Augusto


Jerônimo Teixeira

 

Alessandro Bianchi/Reuters
O Ara Pacis, do ano 9 a.C.: protegido por uma estrutura de vidro e aço do arquiteto americano Richard Meier. Assinalados em vermelho, os orifícios para escoar o sangue dos sacrifícios

Desde os anos 1930, quando o governo fascista de Benito Mussolini promoveu uma série de reformas em Roma, não se construíam novas edificações no centro histórico da cidade. Não surpreende, portanto, que o novo museu que abriga o Ara Pacis – o Altar da Paz, monumento da época do imperador Otávio Augusto – venha gerando tanta polêmica. Os conservadores mais empedernidos relutam em aceitar que um marco da Roma dos césares seja protegido por uma estrutura de aço, concreto e vidro projetada pelo arquiteto americano Richard Meier. O prefeito Walter Veltroni inaugurou oficialmente o novo museu na semana passada, marcando a data convencional do aniversário da cidade, 21 de abril. Ainda estão para ser concluídos o auditório de 300 lugares e um espaço de exposições paralelas, mas a peça central desse complexo já está aberta ao público. Romanos e turistas podem admirar o altar do ano 9 a.C. em sua morada modernista. "O novo museu tem uma leveza que não se encontra nos antigos", diz Meier, que já projetou, entre outros, o Museu Getty de Los Angeles e o Museu de Arte Contemporânea de Barcelona.

O Ara Pacis foi erguido pelo Senado romano para celebrar a pacificação da Gália e da Hispânia (atuais França e Espanha), depois das excursões militares efetuadas por Augusto nessas províncias. "O Senado decretou que se devia consagrar um altar da paz em honra ao meu regresso e ordenou que magistrados, sacerdotes e virgens vestais ali realizassem um sacrifício anual", anotou o imperador no Res Gestae, livro em que registrou seus feitos. O Ara Pacis é uma edificação retangular, de mármore, dentro da qual se encontra o altar propriamente dito (junto ao chão, há orifícios para escoar o sangue dos animais sacrificados). As paredes externas são cobertas de frisos que retratam temas mitológicos e uma procissão religiosa atendida por Augusto, sua família e amigos. O historiador latino Tácito afirmou que a chamada pax romana era uma "paz sangrenta". A paz celebrada na época de Augusto foi, portanto, muito relativa. Mas o primeiro imperador de Roma (veja o quadro abaixo) conteve com sucesso as guerras civis herdadas de Júlio César e fez um governo próspero.

Soterrado depois que Roma foi invadida por bárbaros, o Ara Pacis seria redescoberto em escavações no início do século XX. No fim dos anos 30, o ditador Benito Mussolini ordenou a restauração do altar e o instalou à margem do Rio Tibre, num prédio monumental hoje substituído pela elegante estrutura de Meier. Quando Hitler esteve em Roma em 1938, o orgulhoso Mussolini fez questão de incluir o Ara Pacis no roteiro oficial da visita. É claro que esse empenho arqueológico do líder fascista não se devia a seu amor desinteressado pelas artes. Mussolini desejava ser um novo Augusto, restaurando a glória do antigo Império Romano. O curioso é que, nas reformas e restaurações que realizou no centro histórico de Roma, o mausoléu do primeiro imperador foi negligenciado. Não era "triunfal" o suficiente para o gosto fascista.

Em sua nova casa, o Ara Pacis parece ter sido por fim desvinculado de qualquer associação com o fascismo. A polêmica em torno do prédio de Meier, porém, tem suas repercussões políticas. Enquanto o arquiteto e o prefeito discursavam na inauguração do museu, um protesto do lado de fora reuniu membros do partido de extrema direita Alleanza Nazionale. O grande opositor do projeto tem sido Vittorio Sgarbi, ex-ministro da Cultura do governo de Silvio Berlusconi – e é claro que parte de sua munição tem como alvo Veltroni, prefeito de centro-esquerda que pretende se reeleger no próximo pleito. Sgarbi chegou a dizer que o museu é o "pior monumento" já erguido em Roma. Não é verdade. Como a pirâmide de vidro do Museu do Louvre, em Paris – outro projeto que foi cercado de polêmica quando de sua inauguração, em 1989 –, a estrutura envidraçada que abriga o Ara Pacis promove uma vibrante interação entre a arquitetura antiga e a moderna. É a prova maior da vitalidade artística da era de Augusto: seus monumentos convivem pacificamente com a novidade.

 

O primeiro imperador

Júlio César muitas vezes é equivocadamente creditado como o primeiro imperador romano. Mas essa honra cabe a seu sobrinho-neto, Caio Otávio (63 a.C.-14 d.C.). Júlio César, na verdade, proclamou-se ditador de Roma. Com apenas 18 anos, Otávio envolveu-se na complicada e violenta disputa sucessória que se seguiu ao assassinato de César, em 44 a.C. Político habilidoso, nos anos seguintes ele derrotou Brutus e Cássio, os assassinos do ditador, e mais tarde Marco Antônio, com quem por algum tempo dividira o poder. Otávio nomeou-se Augusto, nome que guardava uma certa ressonância religiosa. Para pacificar os ânimos de nobres e senadores, Otávio Augusto restaurou formalmente as instituições da República sufocadas por César, ainda que de fato exercesse um poder quase absoluto. Descrito pelo historiador Suetônio como um homem de hábitos frugais, foi um dos mais iluminados governantes romanos. Sob seu domínio, o império ampliou-se, incentivaram-se as artes e vários monumentos foram erguidos em Roma – entre eles, o Ara Pacis e o mausoléu em que as cinzas do imperador seriam depositadas.

 
 
 
 
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