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Ambiente
Uma mina de ouro no degelo
Efeito inusitado do aquecimento
global, a exploração econômica da
região ártica passa a ser alternativa
para a crise do petróleo e a criação
de novas rotas marítimas

José Eduardo Barella
Pâl Hermansen/World Press Photo
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| Urso-polar devora a presa no Ártico:
o degelo ameaça a fauna da região |
O aquecimento global está produzindo
efeitos devastadores no Ártico. No último verão
no Hemisfério Norte, a calota de gelo foi reduzida ao menor
tamanho já registrado. A ponto de, pela primeira vez, cientistas
russos navegarem até o Pólo Norte sem precisar abrir
caminho com navios quebra-gelos. Isso ocorre porque a temperatura
na região polar aumenta em média duas vezes mais que
no resto do planeta. O fenômeno tem efeitos ecológicos
danosos – toda uma fauna adaptada ao frio rigoroso, que inclui ursos-polares,
baleias, focas e morsas, está ameaçada de extinção
–, mas, paradoxalmente, está provocando uma espécie
de corrida do ouro ao Círculo Polar. Isso ocorre por dois
motivos principais: o derretimento do gelo vai permitir a exploração
das reservas de petróleo e gás natural no Oceano Ártico
e abrir novas e mais curtas rotas de navegação.
O Instituto Geológico dos Estados
Unidos calcula que 25% das reservas mundiais de petróleo
e gás natural estão lá, esperando para ser
exploradas. Isso significa 2 trilhões de dólares em
valores de mercado. O Campo de Stockman, que está situado
na região européia do Ártico e abriga o maior
depósito mundial de gás natural, deverá ser
explorado pela estatal de petróleo norueguesa Statoil e pela
russa Gazprom. O objetivo é transportar o gás por
dutos submarinos até o continente e de lá alimentar
a Europa ocidental. Além de reduzir os custos, o empreendimento
vai criar milhares de empregos em regiões dos dois países
que antes atraíam poucos investimentos. É verdade
que com o degelo aumenta o perigo dos icebergs, mas, em compensação,
os campos petrolíferos no Ártico não serão
ameaçados pela instabilidade política e pelos homens-bomba
do Oriente Médio.
Até 2015, toda a região
poderá ser navegável seis meses por ano – hoje não
passa de um mês, e com a ajuda de navios quebra-gelos. Será
então possível levar mercadorias do Porto de Hamburgo,
na Alemanha, para o de Yokohama, no Japão, navegando pela
costa da Sibéria, reduzindo à metade o tempo de viagem,
atualmente feita pelo Canal de Suez. Via Ártico, os petroleiros
vão poupar 12.000 quilômetros na viagem entre a Venezuela
e o Japão. "Os custos de transporte vão cair com essas
novas rotas, o que deve causar impacto positivo na economia mundial",
disse a VEJA a oceanógrafa americana Kathleen Crane, do Centro
de Pesquisas do Ártico, órgão do governo americano.
Robert Mankoff
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Com o aumento no tráfego naval,
serão necessários novos portos, estaleiros e postos
de abastecimento – é por isso que o americano Pat Broe acredita
ter acertado na sorte grande. Há oito anos, ele pagou 7 dólares
por um pedaço de terra coberto de gelo na cidade portuária
de Churchill, na região ártica do Canadá. Com
o degelo aumentando na região, Broe faz planos de investir
no Porto de Churchill para torná-lo local de apoio à
navegação entre a Europa e a Ásia. Sua previsão
é faturar 100 milhões de dólares por ano à
custa do aquecimento global. Os interesses econômicos em jogo
estão provocando outro tipo de corrida, desta vez envolvendo
países com ambições territoriais no Ártico:
Noruega, Dinamarca, Canadá e Estados Unidos. Cada um deles
quer assegurar sua soberania sobre os enormes recursos naturais
e também o controle sobre as rotas marítimas que,
por ora, ainda estão bloqueadas pelo gelo.
Em julho do ano passado, o Canadá
hasteou sua bandeira na ilha Hans, uma rocha de 1,3 quilômetro
quadrado surgida com o degelo entre a ilha canadense Ellesmere e
as águas territoriais da Groenlândia. A Dinamarca considerou
uma provocação e fez um protesto formal. Os limites
territoriais são realmente confusos no Ártico. De
acordo com a lei marítima internacional, as fronteiras das
zonas econômicas nacionais acompanham o limite da plataforma
continental de cada país. No Ártico, porém,
é impossível demarcar onde terminam as plataformas
(boa parte coberta por geleiras) e onde começam as águas
internacionais. Quem diria que, há bem pouco tempo, nenhum
país ou empresário dava a mínima para a vastidão
gelada do Ártico.
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