Edição 1954 . 3 de maio de 2006

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Tecnologia
Um robô em cada casa

Esse é o plano da Coréia do Sul
até 2020. Cada máquina vai
custar no máximo 2 000 dólares


Rafael Corrêa


Divulgação
O robô Nettoro, com aspirador: instruções pela internet


A literatura e o cinema de ficção científica sempre imaginam o mundo repleto de robôs. Na Coréia do Sul, essa fantasia pode se materializar em pouco tempo. O governo do país asiático está empenhado em criar as condições econômicas e tecnológicas para que, até 2020, os 15,5 milhões de famílias sul-coreanas adquiram um robô doméstico. As máquinas serão capazes de ajudar os humanos em tarefas tão variadas como vigiar a casa e contar histórias para as crianças (veja o quadro). Para promover a invasão dos robôs, mais de 1.000 cientistas e trinta empresas de tecnologia sul-coreanas trabalham atualmente no projeto Ubiquitous Robotic Companion (Robô Companheiro Onipresente). A previsão é colocar as primeiras unidades nas lojas até o fim do ano que vem. Os robôs custarão entre 1.000 e 2.000 dólares, preços bastante acessíveis para a classe média sul-coreana. O plano de colocar um robô em cada casa faz parte da estratégia de consolidar a Coréia do Sul como país produtor de tecnologia de ponta. Como o setor de robôs industriais e militares é dominado por Estados Unidos, Japão e Alemanha, o governo sul-coreano decidiu concentrar a maior parte de suas pesquisas de robótica na área de serviços. A aposta é que, num futuro próximo, os robôs se transformem em eletrodomésticos tão corriqueiros quanto os televisores ou o computador.

O projeto dos robôs sul-coreanos começou em 2001, quando foram organizados consórcios entre empresas de tecnologia e universidades, alimentados com verbas e incentivos governamentais. Em 2004, o governo criou o projeto Ubiquitous Robotic Companion e estabeleceu as diretrizes para o desenvolvimento dos primeiros protótipos. Os consórcios apresentaram cinco modelos de robôs de serviço, Jupiter, Nettoro, Roboid, uPostMate e PGR. Em outubro do ano passado, 64 famílias receberam os protótipos de robôs em suas casas para um programa piloto, que durou até dezembro. Ao mesmo tempo, os robôs de serviço foram colocados em teste numa agência dos correios em Seul, encarregados de fornecer orientações e informações ao público. No fim deste ano, haverá um novo teste. Desta vez, serão instalados robôs em 600 lares.

Divulgação
Jupiter: serve para divertir as crianças e para proteger a casa


O segredo do baixo preço dos robôs sul-coreanos é o modo como eles funcionam. Os protótipos convencionais de robôs têm dentro de si computadores sofisticados – e muito caros – que os orientam em todas as suas funções. Em vez de desenvolverem robôs completamente autônomos, os pesquisadores sul-coreanos optaram por utilizar a internet como uma espécie de processador complementar das máquinas. Quando precisa executar uma tarefa, o robô requisita informações para uma central de servidores, via web. Essa central analisa as informações e manda as instruções de volta para o robô. Dessa maneira, a máquina pode cantar músicas infantis ou ler livros sem a necessidade de ter esse conteúdo gravado na memória. O robô pode também buscar informações, como notícias, previsão do tempo e e-mails, diretamente da rede mundial ou atualizar seus programas automaticamente. "Na essência, nossos robôs só possuem as partes mecânicas necessárias para agir, enquanto a maior parte do software vem da internet. É por isso que eles são baratos", disse a VEJA Sang-rok Oh, analista do Ministério da Comunicação e Informação e coordenador do projeto Ubiquitous Robotic Companion.

O modelo de funcionamento dos robôs sul-coreanos só é possível porque 72% dos lares da Coréia do Sul já têm internet com banda larga, porcentual superior ao do Japão e ao dos Estados Unidos. O governo quer levar a banda larga a todas as casas do país até 2010, quando se espera que mais de 3 milhões de robôs já tenham sido vendidos. No que depender da população, acostumada a adotar rapidamente novas tecnologias, os fabricantes de robôs não terão problemas. Uma pesquisa realizada em 2005 apontou que 78% dos coreanos gostariam de ter um companheiro robótico em casa. Até 2013, a Coréia do Sul pretende que a indústria de robôs tenha crescido o suficiente para movimentar 30 bilhões de dólares no mercado interno, gerando mais de 100.000 empregos. Os planos do governo vão além do mercado local. A Coréia do Sul trabalha com a meta de exportar 20 bilhões de dólares em robôs por ano, tornando-se o terceiro maior produtor dessas máquinas, atrás de Estados Unidos e Japão.

Apesar dos altos investimentos e do mercado interno ávido por novidades, o projeto coreano está sujeito a alguns desafios, também enfrentados por fabricantes de robôs domésticos em outros países. "Muita gente espera que eles sejam iguais aos dos filmes e se decepciona ao constatar que os robôs de verdade estão aquém da ficção científica", disse a VEJA Dan Kara, presidente da consultoria americana Robotics Trends. Kara acredita que o caminho para evitar esse problema é oferecer robôs com funções de entretenimento, mas que também executem tarefas domésticas, como aspirar o pó e lavar o chão, e que sejam baratos. Atualmente, o robô mais vendido do mundo é o aspirador de pó Roomba, que se move sozinho pela casa. Fabricado pela americana iRobot, o aparelho já vendeu mais de 1,5 milhão de unidades desde o seu lançamento, em 2002. O sucesso é tão grande que surgiram clones do robô aspirador pelo mundo todo, inclusive na Coréia do Sul. Se os coreanos conseguirem cumprir suas metas, em breve o Roomba ganhará irmãos muito mais inteligentes.

 

O QUE FAZEM OS ROBÔS

Contam histórias e cantam para as crianças

Recebem e-mails e os lêem em voz alta

Atuam como vigias, enviando imagens para o celular do dono

Imobilizam invasores com uma rede

Informam a previsão do tempo

Controlam os eletrodomésticos

Dão aulas de inglês

Orientam visitantes em museus e feiras de negócios, acompanhando-os aos locais procurados

 

 
 
 
 
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