Edição 1954 . 3 de maio de 2006

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Engenharia
Tratamento de canal

O Panamá lança um plano para
alargar seu famoso canal e
evitar que ele se torne obsoleto


Heloisa Joly


NESTA REPORTAGEM
Quadro: A expansão do canal

A abertura do Canal do Panamá, em 1914, foi uma das obras de engenharia mais audaciosas da história: mudou a geografia da América e alterou os rumos do comércio no século XX. No próximo ano, outro empreendimento gigantesco deverá modernizar o canal. O presidente panamenho Martín Torrijos apresentou um projeto de ampliação do corredor que conecta os oceanos Atlântico e Pacífico. Atualmente, os navios fazem esse caminho por duas vias de 33,5 metros de largura – medida que, desde a década de 60, é usada para a construção de grandes cargueiros, os Panamax. Há dez anos, no entanto, surgiram navios maiores, com o dobro da capacidade dos seus antecessores. Os Pós-Panamax, como são chamados, são largos demais para atravessar o canal. Para possibilitar a passagem desses novos supercargueiros, Torrijos quer abrir uma terceira faixa no canal, com 55 metros de largura.

Arnulfo Franco/AP
O acesso ao Pacífico pelo canal: estreito demais para permitir a passagem dos navios de carga mais modernos


Os números envolvidos no empreendimento são colossais. A um custo mínimo estimado de 5,2 bilhões de dólares, a terceira faixa dobrará o volume do transporte de carga do canal. Serão necessários quase 40 000 trabalhadores para abri-la. Para se ter uma idéia do impacto da obra, calcula-se que a ampliação resultará em um aumento de 15% nos postos de trabalho panamenhos. Como a economia do país gira em torno do canal, Torrijos convocará nos próximos três meses um referendo para que a população aprove o projeto. Até lá, ele terá de convencer os panamenhos de que a reforma do canal será feita sem necessidade de elevar os impostos, não aumentará o endividamento externo do país nem causará desastres ambientais. O presidente argumenta que a reforma será inteiramente custeada pela arrecadação do pedágio cobrado dos navios, que chega a 850 milhões de dólares anuais. Diz ainda que, sem a abertura da terceira faixa, a economia do país empacará ou andará para trás. Ele tem razão: o canal já opera com 93% de sua capacidade instalada. Ou seja, não existe chance de que a receita do país aumente significativamente se ele continuar do tamanho atual.

Hoje, o canal é a via de acesso de 68% de todas as cargas que passam pelos portos americanos e de 23% das mercadorias que trafegam pelos portos chineses. Estima-se que 5% do comércio mundial seja transportado pelo canal. Sem a reforma, o corredor corre o risco de perder sua importância. Em 2000, o número de embarcações que o atravessam começou a diminuir. Um estudo do governo panamenho prevê que, sem a reforma, o canal se tornará obsoleto em 2013, já que daqui a sete anos a maior parte das cargas será transportada por navios do tipo Pós-Panamax. Para o comércio marítimo entre Estados Unidos e Ásia, uma alternativa mais vantajosa poderá ser o antigo Canal de Suez, inaugurado no Egito em 1869, que é mais largo do que o do Panamá. Também se prevê que os sistemas de ferrovias dos Estados Unidos e do México se tornarão mais competitivos para transportar mercadorias de um oceano a outro.


AFP
Operários abrem caminho em 1913: ao todo, 25 000 pessoas morreram durante a construção

O Panamá só existe como país por causa do canal. Até o começo do século XX, seu território era apenas um pedaço da Colômbia. O primeiro projeto de um corredor marítimo foi iniciado em 1881, por uma empresa francesa, a Companhia Universal do Canal Interoceânico. Sete anos depois, 20.000 operários contratados pelos franceses haviam morrido sem que a obra tivesse avançado muito – boa parte deles vítima de malária, uma doença que recentemente voltou a assolar a Região Norte do Brasil (veja o quadro abaixo). Em 1903, os Estados Unidos assumiram a obra e obrigaram a Colômbia, que criava empecilhos aos americanos, a dar independência ao Panamá. O canal foi inaugurado onze anos depois, a um custo de mais 5.000 vidas. De 1914 até 1999, os Estados Unidos mantiveram o controle do corredor e, de lambuja, uma base militar no Panamá. Em 2000, o governo panamenho passou a administrar o canal – e, rapidamente, viu a obra caducar. Quase 30% da capacidade mundial do movimento marítimo de contêineres já é feita em navios mais largos que os acessos atuais do Panamá. O presidente Torrijo agora corre para inaugurar uma terceira faixa em 2014, quando o canal fará 100 anos.

 

A malária dá de dez no governo

Leonardo Coutinho


Alberto César Araújo/Folha Imagem
Igarapé em Manaus: criadouro de mosquitos

Há quatro anos, o Brasil dava sinais de que tinha conseguido conter a malária. O número de pessoas que contraíram a doença caíra de 640 000 em 1999 para 350 000 em 2002, um patamar compatível com as características geográficas e climáticas do Brasil. No governo Lula, os casos de malária se multiplicaram e atingiram níveis de epidemia. No ano passado, o número de infecções voltou à casa dos 600 000. A maior parte delas foi registrada no Amazonas, em Rondônia e no Acre, que juntos respondem por 66% das ocorrências. Em Manaus, a capital nacional da malária, o número de contaminados cresceu 270% em quatro anos. A malária é uma doença infecciosa grave. Provoca febre alta e pode ser fatal se não tratada a tempo. Ela é transmitida pelo mosquito Anopheles, um inseto que, na Região Norte, encontra condições de reprodução ainda mais favoráveis nas áreas de maior concentração populacional.

Em Manaus, a principal causa do crescimento da malária foi a ocupação de 130 quilômetros de igarapés por favelas. Nesses braços de rio, agora repletos de palafitas e assoreados pelo lixo, a água represada transformou-se em criadouro de mosquitos transmissores. A piscicultura também está entre os fatores de disseminação da doença. Apenas no entorno de Manaus há 300 tanques de criação de peixes. Metade deles é também viveiro do Anopheles. O mesmo problema atingiu o Acre. O município de Cruzeiro do Sul incentivou empresários interessados em construir tanques. A maioria dos negócios não deu certo e os reservatórios abandonados viraram integralmente piscinas de mosquitos. Resultado: só neste ano, 25% dos moradores da cidade foram contaminados. Os assentamentos da reforma agrária são outros focos de malária. Os sem-terra instalaram-se em áreas de floresta virgem que são infestadas pelo Anopheles. Como algumas dessas pessoas chegaram infectadas e lá foram picadas pelos insetos, a doença disseminou-se.

A epidemia de malária nada tem a ver com falta de dinheiro. O problema é mesmo de má gestão. O governo Lula aumentou em 25% os recursos destinados a combater a doença, mas a epidemia voltou porque foram deixadas de lado as medidas para identificar contaminados, tratá-los e impedi-los de ir para localidades no interior que não haviam sido infectadas. Atenção ainda menor foi dada à limpeza dos igarapés e ao esforço de educação dos moradores de palafitas. Ou seja, na Amazônia, para usar uma metáfora futebolística tão ao gosto do presidente, o placar está assim: dez para a malária, zero para o governo.

 
 
 
 
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