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Engenharia
Tratamento de canal
O Panamá lança um plano para
alargar seu famoso canal e
evitar que ele se torne obsoleto

Heloisa Joly
A abertura do Canal do Panamá,
em 1914, foi uma das obras de engenharia mais audaciosas da história:
mudou a geografia da América e alterou os rumos do comércio
no século XX. No próximo ano, outro empreendimento
gigantesco deverá modernizar o canal. O presidente panamenho
Martín Torrijos apresentou um projeto de ampliação
do corredor que conecta os oceanos Atlântico e Pacífico.
Atualmente, os navios fazem esse caminho por duas vias de 33,5 metros
de largura medida que, desde a década de 60, é
usada para a construção de grandes cargueiros, os
Panamax. Há dez anos, no entanto, surgiram navios maiores,
com o dobro da capacidade dos seus antecessores. Os Pós-Panamax,
como são chamados, são largos demais para atravessar
o canal. Para possibilitar a passagem desses novos supercargueiros,
Torrijos quer abrir uma terceira faixa no canal, com 55 metros de
largura.
Arnulfo Franco/AP
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| O acesso ao Pacífico pelo canal: estreito
demais para permitir a passagem dos navios de carga mais modernos
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Os números envolvidos no empreendimento são colossais.
A um custo mínimo estimado de 5,2 bilhões de dólares,
a terceira faixa dobrará o volume do transporte de carga
do canal. Serão necessários quase 40 000 trabalhadores
para abri-la. Para se ter uma idéia do impacto da obra, calcula-se
que a ampliação resultará em um aumento de
15% nos postos de trabalho panamenhos. Como a economia do país
gira em torno do canal, Torrijos convocará nos próximos
três meses um referendo para que a população
aprove o projeto. Até lá, ele terá de convencer
os panamenhos de que a reforma do canal será feita sem necessidade
de elevar os impostos, não aumentará o endividamento
externo do país nem causará desastres ambientais.
O presidente argumenta que a reforma será inteiramente custeada
pela arrecadação do pedágio cobrado dos navios,
que chega a 850 milhões de dólares anuais. Diz ainda
que, sem a abertura da terceira faixa, a economia do país
empacará ou andará para trás. Ele tem razão:
o canal já opera com 93% de sua capacidade instalada. Ou
seja, não existe chance de que a receita do país aumente
significativamente se ele continuar do tamanho atual.
Hoje, o canal é a via
de acesso de 68% de todas as cargas que passam pelos portos americanos
e de 23% das mercadorias que trafegam pelos portos chineses. Estima-se
que 5% do comércio mundial seja transportado pelo canal.
Sem a reforma, o corredor corre o risco de perder sua importância.
Em 2000, o número de embarcações que o atravessam
começou a diminuir. Um estudo do governo panamenho prevê
que, sem a reforma, o canal se tornará obsoleto em 2013,
já que daqui a sete anos a maior parte das cargas será
transportada por navios do tipo Pós-Panamax. Para o comércio
marítimo entre Estados Unidos e Ásia, uma alternativa
mais vantajosa poderá ser o antigo Canal de Suez, inaugurado
no Egito em 1869, que é mais largo do que o do Panamá.
Também se prevê que os sistemas de ferrovias dos Estados
Unidos e do México se tornarão mais competitivos para
transportar mercadorias de um oceano a outro.
AFP
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| Operários abrem caminho em 1913: ao
todo, 25 000 pessoas morreram durante a construção
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O Panamá só existe
como país por causa do canal. Até o começo
do século XX, seu território era apenas um pedaço
da Colômbia. O primeiro projeto de um corredor marítimo
foi iniciado em 1881, por uma empresa francesa, a Companhia Universal
do Canal Interoceânico. Sete anos depois, 20.000 operários
contratados pelos franceses haviam morrido sem que a obra tivesse
avançado muito boa parte deles vítima de malária,
uma doença que recentemente voltou a assolar a Região
Norte do Brasil (veja o quadro abaixo). Em 1903, os Estados
Unidos assumiram a obra e obrigaram a Colômbia, que criava
empecilhos aos americanos, a dar independência ao Panamá.
O canal foi inaugurado onze anos depois, a um custo de mais 5.000
vidas. De 1914 até 1999, os Estados Unidos mantiveram o controle
do corredor e, de lambuja, uma base militar no Panamá. Em
2000, o governo panamenho passou a administrar o canal e,
rapidamente, viu a obra caducar. Quase 30% da capacidade mundial
do movimento marítimo de contêineres já é
feita em navios mais largos que os acessos atuais do Panamá.
O presidente Torrijo agora corre para inaugurar uma terceira faixa
em 2014, quando o canal fará 100 anos.
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A malária dá de dez
no governo
Leonardo Coutinho
Alberto César Araújo/Folha
Imagem
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| Igarapé em Manaus: criadouro
de mosquitos |
Há quatro anos,
o Brasil dava sinais de que tinha conseguido conter
a malária. O número de pessoas que contraíram
a doença caíra de 640 000 em 1999 para
350 000 em 2002, um patamar compatível com as
características geográficas e climáticas
do Brasil. No governo Lula, os casos de malária
se multiplicaram e atingiram níveis de epidemia.
No ano passado, o número de infecções
voltou à casa dos 600 000. A maior parte delas
foi registrada no Amazonas, em Rondônia e no Acre,
que juntos respondem por 66% das ocorrências.
Em Manaus, a capital nacional da malária, o número
de contaminados cresceu 270% em quatro anos. A malária
é uma doença infecciosa grave. Provoca
febre alta e pode ser fatal se não tratada a
tempo. Ela é transmitida pelo mosquito Anopheles,
um inseto que, na Região Norte, encontra condições
de reprodução ainda mais favoráveis
nas áreas de maior concentração
populacional.
Em Manaus, a principal
causa do crescimento da malária foi a ocupação
de 130 quilômetros de igarapés por favelas.
Nesses braços de rio, agora repletos de palafitas
e assoreados pelo lixo, a água represada transformou-se
em criadouro de mosquitos transmissores. A piscicultura
também está entre os fatores de disseminação
da doença. Apenas no entorno de Manaus há
300 tanques de criação de peixes. Metade
deles é também viveiro do Anopheles.
O mesmo problema atingiu o Acre. O município
de Cruzeiro do Sul incentivou empresários interessados
em construir tanques. A maioria dos negócios
não deu certo e os reservatórios abandonados
viraram integralmente piscinas de mosquitos. Resultado:
só neste ano, 25% dos moradores da cidade foram
contaminados. Os assentamentos da reforma agrária
são outros focos de malária. Os sem-terra
instalaram-se em áreas de floresta virgem que
são infestadas pelo Anopheles. Como algumas
dessas pessoas chegaram infectadas e lá foram
picadas pelos insetos, a doença disseminou-se.
A epidemia de malária
nada tem a ver com falta de dinheiro. O problema é
mesmo de má gestão. O governo Lula aumentou
em 25% os recursos destinados a combater a doença,
mas a epidemia voltou porque foram deixadas de lado
as medidas para identificar contaminados, tratá-los
e impedi-los de ir para localidades no interior que
não haviam sido infectadas. Atenção
ainda menor foi dada à limpeza dos igarapés
e ao esforço de educação dos moradores
de palafitas. Ou seja, na Amazônia, para usar
uma metáfora futebolística tão
ao gosto do presidente, o placar está assim:
dez para a malária, zero para o governo.
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