Edição 1954 . 3 de maio de 2006

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Saúde
Eles param, o povo sofre

Greve de fiscais supera dois
meses, afeta bancos de sangue
e deixa doentes sem remédio


Uanderson Fernandes/Ag. O Dia/AE
Piquete dos grevistas: milhares sem medicamentos e prejuízo superior a 140 milhões de dólares

O ambulatório do Hospital das Clínicas de São Paulo, o maior da América Latina, suspendeu por quatro dias os exames de diagnóstico dos vírus HIV e da hepatite porque faltavam reagentes importados necessários aos testes. Pelo mesmo motivo, alguns bancos de sangue deixaram de fazer coletas. Nos laboratórios farmacêuticos, linhas de produção foram suspensas por falta de insumos. Esse é um breve retrato dos efeitos da greve dos funcionários da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que já dura mais de dois meses. Na semana passada, uma trégua de dez dias foi acertada entre os funcionários e o governo, mas parte dos grevistas informou que manterá a paralisação. Os fiscais da Anvisa são os responsáveis pela liberação, em portos, aeroportos e fronteiras, de remédios e alimentos importados. Sem o aval deles, os produtos não podem sair da alfândega. O reflexo mais dramático da irresponsabilidade dos grevistas é a falta de medicamentos fundamentais para o tratamento de pacientes em estado crônico que sofrem de doenças como Parkinson, Alzheimer, hipertensão e diabetes.

Os funcionários da Anvisa decidiram cruzar os braços no fim de fevereiro. Reivindicam a equiparação do salário dos novos com o dos antigos servidores. O direito de greve é algo inalienável. Em todos os casos? A própria Lei de Greve estabelece que serviços fundamentais precisam ser preservados. Os sindicalistas, porém, sustentam que a adesão não passou de 65% e que os serviços essenciais não foram afetados. Não é o que se tem visto. A adesão foi maciça nas alfândegas mais movimentadas do país, como o Porto de Santos e o Aeroporto de Guarulhos. Segundo a Associação da Indústria Farmacêutica, cálculos iniciais estimam um prejuízo de no mínimo 140 milhões de dólares. A paralisação não prejudicou apenas a chegada de medicamentos e instrumentos importados, mas também a distribuição de matérias-primas e princípios ativos necessários à produção local. A situação causou baixa nos estoques dos hospitais, que, em alguns casos, tiveram de adiar cirurgias. A Anvisa prometeu fazer um mutirão durante o feriado prolongado na tentativa de normalizar a situação. Surta ou não efeito, fica claro que os doentes brasileiros não podem ter sua saúde nas mãos de decisões feitas por assembléias de sindicato.



 
 
 
 
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