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Economia e Negócios
Começou o ataque ao caixa
Em ano de eleição, o governo abre
o cofre e prioriza programas sociais,
que rendem voto junto aos pobres

Leandra Peres
Fábio Guimarães/Ag. O
Globo
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| Uma farmácia do programa: 276 novos postos
de venda |
Nos últimos três
anos, o governo Lula surpreendeu os críticos com uma política
econômica que tinha o rigor fiscal como um dos princípios
básicos. Graças aos bons resultados na economia, e
apesar do mergulho na lama do bando dos 40, o governo manteve os
altos índices de popularidade. Agora, ao que parece, resolveu
inverter essa lógica. Na semana passada, o Tesouro Nacional
divulgou um dado preocupante: nos três primeiros meses de
2006, os gastos do governo cresceram 14,5% em relação
ao mesmo período do ano passado. Em moeda sonante, isso significa
que saíram dos cofres públicos até agora 11
bilhões de reais a mais. É dinheiro destinado, entre
outras coisas, ao pagamento de aumentos salariais de servidores
públicos, à contratação de novos funcionários
e aos programas sociais, como o Bolsa Família. Está
ficando cada vez mais claro que, em ano eleitoral, o governo vai
usar os bons resultados da economia para fazer política.
Com o cofre escancarado, vários programas de apelo social
e dispendiosos devem ser anunciados nos próximos dias. O
pacote, em tese, ajudaria Lula eleitoralmente mas isso, por
enquanto, é só uma hipótese, já que
o presidente garante que ainda nem sabe se será candidato
à reeleição.
A movimentação
político-eleitoreira sobre o Erário tem acontecido
em vários flancos. Na semana passada, mais de 2 000 prefeitos
estiveram em Brasília para reivindicar mais verbas para a
educação. Levaram. Ao contrário do que ocorreu
em outras ocasiões, os prefeitos saíram da capital
satisfeitos. Em solenidade no Palácio do Planalto, Lula encarregou
seu ministro de Relações Institucionais, Tarso Genro,
de anunciar um aumento de 250 milhões de reais nas verbas
da merenda escolar. Desde 2003, o governo já vinha reajustando
o valor per capita da merenda. Neste ano, porém, o índice
de reajuste foi 22% maior que no ano passado. O governo também
incluiu no pacote, para agradar aos prefeitos, 300 milhões
em financiamentos para a compra de máquinas. A principal
medida, porém, foi o anúncio de um projeto de lei
que aumenta o Fundo de Participação dos Municípios.
Se ele for aprovado, os prefeitos contarão com mais 1,4 bilhão
de reais no orçamento de suas cidades. O Ministério
da Fazenda, até o ano passado, era terminantemente contra
o aumento do repasse. O que mudou? Além do ministro, o calendário.
Lula deu ordem a seus auxiliares para priorizarem ações
de alcance popular. E prometeu que dinheiro não vai faltar.
Marcelo Fernandes/AE
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| Famílias pobres vão receber
doações de até 14 000 reais para a compra
da casa própria |
No Ministério da Saúde, o programa Farmácia
Popular, que existe desde os primórdios do governo, só
agora vai sair do papel. Era uma promessa de campanha, mas o governo,
em três anos, instalou apenas 134 postos que vendem medicamentos
para doenças como hipertensão e diabetes até
90% mais baratos que nas drogarias comuns. Neste ano, está
prevista a inauguração de 276 farmácias populares,
o dobro do que foi feito nos três anos anteriores. O Ministério
da Saúde explica que o ritmo de implementação
do programa, ao contrário do que se possa imaginar, não
foi influenciado pelo ano eleitoral. A culpa é da burocracia,
já que o Farmácia Popular, embora federal, precisa
contar com a parceria das prefeituras, que cedem o local onde os
postos são instalados. No Ministério do Desenvolvimento
Social, além do Bolsa Família, está sendo ampliado
outro programa de apelo social: os chamados restaurantes populares.
Sucesso na cartilha de governantes desbragadamente populistas como
Anthony Garotinho, no Rio de Janeiro, e Joaquim Roriz, no Distrito
Federal, os restaurantes populares vendem uma refeição
por apenas 1 real. Hoje, há dez estabelecimentos federais.
O governo vai inaugurar mais trinta. O orçamento do Ministério
do Desenvolvimento Social também reservou três vezes
mais dinheiro do que no ano passado para o Banco de Alimentos, um
programa que processa alimentos perecíveis que de outro modo
iriam para o lixo e os distribui às famílias carentes.
O pacote de bondades tem um braço
importante na área de habitação. O governo,
através do Ministério das Cidades, reservou 1,3 bilhão
de reais que, neste ano, serão doados às famílias
pobres, de modo que possam comprar a casa própria. Cada família
com renda máxima de um salário mínimo poderá
ganhar até 14 000 reais. Para as famílias que recebem
até 740 reais por mês e moram em palafitas ou favelas,
há mais 1 bilhão de reais. A estimativa é que
207 000 famílias sem recursos devem se beneficiar apenas
com esses dois programas. É ótimo que, num país
pobre e com um enorme déficit habitacional, o governo tenha
tanta sensibilidade com os desvalidos pena que a generosidade
só se amplie em ano eleitoral. Além da política
social, Lula tem cobrado de seus ministros a elaboração
de uma intensa agenda de viagens e inaugurações até
junho, data-limite para o anúncio das candidaturas à
Presidência. Lula anda empolgado. Na semana passada, recebeu
duas pesquisas para consumo interno. Apesar da avalanche de denúncias
de corrupção no governo, em ambas ele aparece com
mais que o dobro das intenções de voto de Geraldo
Alckmin, o que lhe daria a vitória no primeiro turno
caso, claro, ele decida ser candidato.
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