Edição 1954 . 3 de maio de 2006

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Copa
Velhos ou experientes?

Veteranos podem fazer a
diferença no Mundial de futebol.
Para o bem ou para o mal


André Fontenelle, de Madri

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Especial: Copa 2006

Na última quarta-feira, Zinedine Zidane, um dos maiores jogadores de sua geração, anunciou que vai se aposentar em julho. "Tenho lesões que não tinha dos 20 aos 30 anos, e não quero estar em campo apenas por estar", disse o francês de 33 anos ao comunicar a decisão (veja quadro). Zidane não pára, porém, sem antes tentar conquistar um último objetivo – a Copa da Alemanha, no mês que vem. Será sua derradeira oportunidade de reviver a glória de oito anos atrás, quando fez dois gols na final do Mundial vencida em casa, derrotando a seleção brasileira. É natural que ele tenha escolhido como palco da despedida a maior competição esportiva do planeta. A Copa é uma meta que leva muitos jogadores veteranos, mesmo os já consagrados, a espichar a carreira profissional, ainda que correndo o risco de fazer má figura e de comprometer sua equipe por estarem longe da melhor forma.

Para os padrões do futebol de hoje, Zidane é até relativamente jovem. Suas lesões não são tão graves. O problema verdadeiro é mesmo a falta de motivação. A evolução da preparação física e do tratamento de lesões tem prolongado a carreira dos jogadores dispostos a continuar. Romário, que aos 40 anos trocou o Vasco da Gama por Miami para tentar chegar aos 1.000 gols como profissional, está longe de ser uma exceção. Um dos principais times da Itália, o Milan, está repleto de veteranos, como os defensores Alessandro Costacurta (40 anos), Paolo Maldini (37), Cafu (35), Serginho (34) e Jaap Stam (33). Mesmo com tantos "velhinhos", chegou à semifinal da Liga dos Campeões da Europa. Outros dois grandes clubes italianos, Juventus e Internazionale, também alinham uma legião de trintões. "Antes da década de 90 dificilmente um jogador chegava aos 35 anos em atividade", diz o preparador físico da seleção brasileira, Moraci Sant'Anna. "Hoje se tomam cuidados específicos na preparação dos jogadores mais velhos."

O outro lado da moeda é que, ao mesmo tempo, cresceu o esforço físico exigido em uma partida de futebol de alto nível. "O aumento foi de 30% a 40% em relação a décadas atrás", avalia o fisiologista Turibio Leite de Barros, coordenador do Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte da Universidade Federal de São Paulo. Em um único jogo de noventa minutos podem-se correr 10 ou mais quilômetros, e um atleta profissional disputa uma partida dessas a cada três ou quatro dias. Os veteranos resistem porque também evoluíram as técnicas de "recuperação do esforço", como as chamam os especialistas. As horas imediatamente subseqüentes a uma partida são decisivas. "Hoje em dia o clube não libera o jogador, depois de uma partida, sem que ele coma os alimentos e suplementos necessários", exemplifica Turibio.

Mas é indiscutível que os veteranos sofrem mais do que os jovens. Muitos dos que tentam disputar pela última vez a Copa do Mundo vêm tendo dificuldade até para se manter como titulares. Na Alemanha, o goleiro Oliver Kahn, de 36 anos, eleito o melhor jogador do Mundial de 2002 – antes de soltar nos pés de Ronaldo a bola que decidiu a final –, acaba de tornar-se reserva da seleção. Tomou frangos no campeonato alemão deste ano, enquanto seu substituto, Jens Lehmann, que joga no Arsenal de Londres, na semana passada defendeu um pênalti na semifinal da Liga dos Campeões. Curiosamente, Lehmann tem os mesmos 36 anos de Kahn. Outras estrelas enfrentam concorrência mais jovem. Cafu, o capitão da seleção brasileira, recém-saído de uma cirurgia no joelho esquerdo, corre contra o tempo para provar que está de volta à melhor forma. Seu lugar entre os 23 convocados de Carlos Alberto Parreira está garantido, mas a vaga entre os onze titulares é ameaçada por Cicinho, do Real Madrid, dez anos mais jovem. "Depois da Copa podem aparecer substitutos", diz Cafu – em tom de brincadeira, mas ciente de que o Mundial deve marcar o fim de seus quinze anos de reinado na lateral direita da seleção. No Milan, ele tem geralmente jogado apenas o segundo tempo das partidas.

Assim como no Brasil, há uma polêmica em diversos países sobre a escalação de veteranos. Se, de um lado, sua experiência pode ajudar a controlar os nervos diante de adversários fortes, de outro, teme-se que, por desgaste, eles possam contundir-se num momento importante da jornada ou, pior ainda, falhar numa jogada decisiva. Na França, o goleiro Fabien Barthez, de 34 anos, é cada vez mais criticado. Durante a Copa, jogadores como o francês Lilian Thuram, de 34 anos, o checo Pavel Nedved, 33, e o brasileiro Roberto Carlos, 33, terão de medir forças com jovens revelações como Robinho, 22, o argentino Lionel Messi, 18, e o espanhol Francesc Fabregas, 19. Essa não parece uma luta em igualdade de condições.

Com reportagem de Letícia Sorg

 

Zidane: "São só sete jogos"

Nos dois primeiros de seus cinco anos de Real Madrid, o francês Zinedine Zidane conquistou todos os títulos possíveis: foi campeão espanhol, europeu e intercontinental. Mas nas últimas três temporadas os "galácticos" do Real não ganharam nada. Sentindo que não vinha contribuindo como gostaria, Zidane decidiu "ser honesto" consigo mesmo e anunciar o fim da carreira depois de jogar sua terceira Copa com a França, em junho.

VOCÊ DISSE QUE HÁ DOIS ANOS NÃO JOGA TÃO BEM QUANTO GOSTARIA. POR QUE NA COPA DO MUNDO SERIA DIFERENTE?
Não conseguiria mais jogar uma temporada inteira, mas disputar apenas sete partidas é um objetivo que dá para almejar. Terminar a carreira jogando o Mundial para mim é muito significativo. Vou ter uma motivação especial. Meu único receio é ter um problema físico. Mas vou fazer o máximo que puder.

ALGUNS JOGADORES TÊM JOGADO ATÉ OS 40 ANOS, CASO DE ROMÁRIO, NO BRASIL, MESMO COM UM NÍVEL DE DESEMPENHO MAIS BAIXO. POR QUE NÃO FAZER O MESMO?
No Real Madrid não é possível jogar em um nível mais baixo.

E VOCÊ NÃO PENSOU EM SAIR DO REAL?
Vou terminar a carreira aqui porque é assim que tem de ser. De qualquer maneira, eu não conseguiria jogar até os 40 anos.

 
 
 
 
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