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Genética
Clone de campeão
Está nascendo uma nova indústria,
a da
clonagem comercial de cavalos de raça

Ruth Costas
Paco Serinelli/AFP
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| O clone do garanhão Pieraz: bicampeão
mundial de enduro |
Uma das implicações
éticas da clonagem diz respeito ao espírito esportivo.
Será correto fazer clones dos melhores atletas e colocá-los
numa competição? A resposta dessa questão tornou-se
urgente nos esportes hípicos, pois a clonagem de cavalos
campeões parece destinada a assumir ritmo industrial. Alguns
grandes laboratórios já oferecem a clonagem de eqüinos
por preços entre 150.000 e 310.000 dólares. Há
mais tempo no ramo, o francês Cryozootech produziu três
anos atrás, em associação com um laboratório
italiano, seu primeiro clone de cavalo, a égua Prometea,
um animal sem pedigree. No ano passado, duplicou o garanhão
Pieraz, duas vezes campeão mundial de enduro. Até
o fim deste ano, deve entregar clones de outros três animais
lendários: Rusty, medalha de ouro em adestramento nas Olimpíadas
de Atenas, ET.FRH, um dos melhores cavalos de salto do mundo, e
Calvaro V, medalha de prata em salto nas Olimpíadas de Atlanta
(1996) e Sydney (2000). O campeão morreu em 2003, mas seu
material genético foi congelado.
O laboratório americano
ViaGen, com sede em Austin, no Texas, aguarda o nascimento para
este ano de nove clones de cavalos premiados. Desde janeiro a empresa
já criou cópias genéticas de três campeões
em apartação. Esse tipo de prova, no qual o peão
deve isolar um bovino do resto do rebanho com a ajuda do cavalo,
é muito popular em rodeios nos Estados Unidos e também
no Brasil. "A clonagem permite preservar características
genéticas de cavalos superiores, que sem esse recurso se
perderiam", disse a VEJA o geneticista americano Mark Walton, presidente
da ViaGen. Há outra razão imperiosa para a clonagem:
a maioria desses animais é castrada. Isso os deixa mais dóceis
e facilita o adestramento. Em contrapartida, impede a transmissão
de seu legado genético às futuras gerações.
Outro problema é a idade. A égua Royal Blue Boon,
cujos filhos valem pequenas fortunas, está com 26 anos, velha
demais para procriar. A solução é a clonagem.
Seu clone, criado pela ViaGen, nasceu em fevereiro. Ao recorrerem
à clonagem, os proprietários de cavalos estrelados
conseguem não apenas um animal com imenso potencial em competições,
mas também um reprodutor de grande valor. "Por enquanto,
o que desperta maior interesse entre os criadores é a expectativa
de lucrar com a venda de sêmen, embora também seja
possível colocar os clones para competir", diz Walton.
AP
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| O cavalinho é o clone de uma égua
americana chamada Royal Blue Boon |
Um campeão pode render
muito dinheiro na tarefa de reprodutor. Uma dose de sêmen
de um cavalo de qualidade chega a custar 20 000 dólares.
O valor estimado da soma dos prêmios recebidos pelas dezenas
de filhos por inseminação artificial do garanhão
Smart Little Lena, campeão de torneios de apartação
nos Estados Unidos, ultrapassa 36 milhões de dólares.
A fortuna pode se multiplicar se os cinco clones nascidos neste
ano tiverem talentos equivalentes aos do Smart Little Lena original.
Trabalhar com cavalos tornou-se a grande esperança comercial
das empresas americanas de clonagem. A cópia genética
de vacas e porcos, que poderia ter sido um grande negócio,
acabou esbarrando em restrições impostas pelos órgãos
de saúde. Com os cavalos esse problema não existe,
pois na maioria dos países não há consumo humano
de carne ou leite de eqüinos.
Para os entusiastas, a popularização
da técnica de clonagem tem o potencial de transformar as
competições eqüestres em espetáculos emocionantes
algo semelhante a uma partida de futebol em que as duas equipes
fossem formadas apenas por Pelés e Garrinchas. Na verdade,
a transmissão do talento não ocorre de forma tão
simples. "Não existem garantias de que o clone de um campeão
será um ganhador de medalhas", diz o veterinário Luís
Mauro Queiroz, de Brasília, que participou dos primeiros
estudos de clonagem na América Latina. "Além da predisposição
genética, fatores como o treinamento, a nutrição
e a interação com o cavaleiro influenciam o desempenho
do cavalo", completa.
Giovanna Lazzara/AP
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Jochen Luebke/AFP
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| Prometea (à esq.) foi
o primeiro da indústria do cavalo clonado. À direita,
a alemã Ulla Salzgeber monta Rusty, medalha de ouro em
Atenas: cópia do campeão nascerá neste
ano |
Outro porém é que
boa parte das entidades ligadas aos torneios e à criação
de cavalos vê a clonagem com desconfiança. Fazem isso
porque é preciso esperar para ver se os eqüinos clonados
não terão doenças ou defeitos genéticos
como já aconteceu com clones de outros animais ,
ou por simples purismo. O Jockey Club dos Estados Unidos, por exemplo,
proíbe o registro de cavalos clonados. A Federação
Eqüestre Internacional (FEI) a princípio não
tem esse tipo de restrição, mas há outras complicações.
"Para participarem de competições internacionais de
hipismo, os cavalos devem estar inscritos em associações
de criadores e federações nacionais, o que deixa para
essas entidades a decisão de aceitar ou não as duplicatas",
explica o holandês Frits Sluyter, veterinário da FEI.
A resistência à clonagem também é grande
entre cavaleiros e amazonas, que temem as mudanças nos ambientes
das provas. A amazona Pia Aragão, cinco vezes campeã
brasileira de adestramento, torce o nariz à idéia
de competir com animais clonados. Para ela, a diversidade é
o "tempero" do hipismo. "Simplesmente não haveria graça
se todos montássemos cavalos idênticos ou muito parecidos",
diz a amazona.
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