Edição 1954 . 3 de maio de 2006

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Genética
Clone de campeão

Está nascendo uma nova indústria, a da
clonagem comercial de cavalos de raça


Ruth Costas


Paco Serinelli/AFP
O clone do garanhão Pieraz: bicampeão mundial de enduro

Uma das implicações éticas da clonagem diz respeito ao espírito esportivo. Será correto fazer clones dos melhores atletas e colocá-los numa competição? A resposta dessa questão tornou-se urgente nos esportes hípicos, pois a clonagem de cavalos campeões parece destinada a assumir ritmo industrial. Alguns grandes laboratórios já oferecem a clonagem de eqüinos por preços entre 150.000 e 310.000 dólares. Há mais tempo no ramo, o francês Cryozootech produziu três anos atrás, em associação com um laboratório italiano, seu primeiro clone de cavalo, a égua Prometea, um animal sem pedigree. No ano passado, duplicou o garanhão Pieraz, duas vezes campeão mundial de enduro. Até o fim deste ano, deve entregar clones de outros três animais lendários: Rusty, medalha de ouro em adestramento nas Olimpíadas de Atenas, ET.FRH, um dos melhores cavalos de salto do mundo, e Calvaro V, medalha de prata em salto nas Olimpíadas de Atlanta (1996) e Sydney (2000). O campeão morreu em 2003, mas seu material genético foi congelado.

O laboratório americano ViaGen, com sede em Austin, no Texas, aguarda o nascimento para este ano de nove clones de cavalos premiados. Desde janeiro a empresa já criou cópias genéticas de três campeões em apartação. Esse tipo de prova, no qual o peão deve isolar um bovino do resto do rebanho com a ajuda do cavalo, é muito popular em rodeios nos Estados Unidos e também no Brasil. "A clonagem permite preservar características genéticas de cavalos superiores, que sem esse recurso se perderiam", disse a VEJA o geneticista americano Mark Walton, presidente da ViaGen. Há outra razão imperiosa para a clonagem: a maioria desses animais é castrada. Isso os deixa mais dóceis e facilita o adestramento. Em contrapartida, impede a transmissão de seu legado genético às futuras gerações. Outro problema é a idade. A égua Royal Blue Boon, cujos filhos valem pequenas fortunas, está com 26 anos, velha demais para procriar. A solução é a clonagem. Seu clone, criado pela ViaGen, nasceu em fevereiro. Ao recorrerem à clonagem, os proprietários de cavalos estrelados conseguem não apenas um animal com imenso potencial em competições, mas também um reprodutor de grande valor. "Por enquanto, o que desperta maior interesse entre os criadores é a expectativa de lucrar com a venda de sêmen, embora também seja possível colocar os clones para competir", diz Walton.


AP
O cavalinho é o clone de uma égua americana chamada Royal Blue Boon

Um campeão pode render muito dinheiro na tarefa de reprodutor. Uma dose de sêmen de um cavalo de qualidade chega a custar 20 000 dólares. O valor estimado da soma dos prêmios recebidos pelas dezenas de filhos por inseminação artificial do garanhão Smart Little Lena, campeão de torneios de apartação nos Estados Unidos, ultrapassa 36 milhões de dólares. A fortuna pode se multiplicar se os cinco clones nascidos neste ano tiverem talentos equivalentes aos do Smart Little Lena original. Trabalhar com cavalos tornou-se a grande esperança comercial das empresas americanas de clonagem. A cópia genética de vacas e porcos, que poderia ter sido um grande negócio, acabou esbarrando em restrições impostas pelos órgãos de saúde. Com os cavalos esse problema não existe, pois na maioria dos países não há consumo humano de carne ou leite de eqüinos.

Para os entusiastas, a popularização da técnica de clonagem tem o potencial de transformar as competições eqüestres em espetáculos emocionantes – algo semelhante a uma partida de futebol em que as duas equipes fossem formadas apenas por Pelés e Garrinchas. Na verdade, a transmissão do talento não ocorre de forma tão simples. "Não existem garantias de que o clone de um campeão será um ganhador de medalhas", diz o veterinário Luís Mauro Queiroz, de Brasília, que participou dos primeiros estudos de clonagem na América Latina. "Além da predisposição genética, fatores como o treinamento, a nutrição e a interação com o cavaleiro influenciam o desempenho do cavalo", completa.


Giovanna Lazzara/AP
Jochen Luebke/AFP
Prometea (à esq.) foi o primeiro da indústria do cavalo clonado. À direita, a alemã Ulla Salzgeber monta Rusty, medalha de ouro em Atenas: cópia do campeão nascerá neste ano

Outro porém é que boa parte das entidades ligadas aos torneios e à criação de cavalos vê a clonagem com desconfiança. Fazem isso porque é preciso esperar para ver se os eqüinos clonados não terão doenças ou defeitos genéticos – como já aconteceu com clones de outros animais –, ou por simples purismo. O Jockey Club dos Estados Unidos, por exemplo, proíbe o registro de cavalos clonados. A Federação Eqüestre Internacional (FEI) a princípio não tem esse tipo de restrição, mas há outras complicações. "Para participarem de competições internacionais de hipismo, os cavalos devem estar inscritos em associações de criadores e federações nacionais, o que deixa para essas entidades a decisão de aceitar ou não as duplicatas", explica o holandês Frits Sluyter, veterinário da FEI. A resistência à clonagem também é grande entre cavaleiros e amazonas, que temem as mudanças nos ambientes das provas. A amazona Pia Aragão, cinco vezes campeã brasileira de adestramento, torce o nariz à idéia de competir com animais clonados. Para ela, a diversidade é o "tempero" do hipismo. "Simplesmente não haveria graça se todos montássemos cavalos idênticos ou muito parecidos", diz a amazona.

 
 
 
 
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