Edição 1954 . 3 de maio de 2006

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Frigobar de rico

Adegas climatizadas ganham
lugar de honra na sala dos
apreciadores de vinho


Sandra Brasil

 
Lailson Santos
TV de plasma de um lado, adega do outro: item indispensável

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Funcionário de uma importadora de bebidas, o paulista Marco Antônio Fernandes, 46 anos, foi dos primeiros a perceber o aumento do interesse dos brasileiros por vinhos. Decidido a ocupar espaço no mercado que se abria, fundou, em 1997, a Art des Caves, a primeira fabricante no país de adegas climatizadas – àquela altura, um equipamento que quase ninguém tinha ou sequer sabia que existia. Hoje, Fernandes contabiliza, orgulhoso, a presença de 25.000 adegas com a sua marca em casas, lojas e restaurantes, uma amostra de que o caixote com jeitão de frigobar, dotado de temperatura controlada e acomodação apropriada para as garrafas, ganhou lugar de honra na casa, com mais de trinta modelos à venda, de onze marcas nacionais e importadas. Mesmo quem não é nenhum apaixonado por vinhos já incorporou a adega climatizada ao mobiliário doméstico mais sofisticado, nem que seja apenas como elemento de decoração, com um lugar garantido entre a televisão de plasma e a cadeira de grife. "É um item que consta de 100% das listas de presentes de casamento da classe média alta", diz Tuti Generali, dona da Suxxar, rede de lojas de utensílios domésticos finos.

As adegas disponíveis no Brasil são caras – a mais em conta, para nove míseras garrafas, custa 760 reais. Para os mais puristas, sua utilidade também é discutível (veja o quadro). O modismo, porém, parece irreversível. "Sabemos que adega é o supérfluo do supérfluo e só interessa às classes A e B", assume Luiz Eduardo Moreira Caio, presidente da Metalfrio. Mesmo assim, a título de experiência, sua empresa, a maior produtora nacional de refrigeradores e freezers para a indústria de bebidas e alimentos, fabricou 1.000 adegas climatizadas em 2003. Vendeu todas, e rapidamente. No ano passado, a Metalfrio comercializou 3.000 unidades de três tamanhos e prevê um futuro abundante em brindes. "O mercado deve crescer 15% ao ano", acredita Caio. O modelo de adega mais procurado acomoda quarenta garrafas e não sai por menos de 1.800 reais. Todas devem manter temperatura constante entre 12 e 18 graus Celsius e umidade nunca inferior a 55%. Antes restritas a lojas especializadas, atualmente se encontram adegas climatizadas nos sites de redes de lojas como Magazine Luiza, Ponto Frio e Americanas.

O empurrão definitivo do neo-apreciador de vinhos para a compra de uma adega são os cursos sobre a bebida, que sempre enfatizam a importância de guardar corretamente as garrafas. "Cerca de 30% das 1.500 pessoas por ano que fazem cursos de vinhos na Associação Brasileira de Sommeliers saem da aula e compram uma adega", diz o médico Arthur de Azevedo, presidente da entidade. O engenheiro paulista Alberto Andaló, 58 anos, adquiriu uma para quarenta garrafas, por 1.800 reais, com altos planos de instalar o brinquedo na sala. Sua mulher, Gisela, vetou. "Ela achou que ficou grande demais para o ambiente. Tive de pôr no escritório", conforma-se. Esse tipo de equipamento é uma miniatura simplificada das caves que colecionadores sérios, como o ex-prefeito Paulo Maluf e o ex-manda-chuva da Rede Globo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, mantêm em casa. Uma adega de respeito requer saleta de 4 metros quadrados, com paredes isoladas por isopor e revestidas de madeira ou pedra, prateleiras próprias para garrafas, porta com vedação e revestimento térmico, iluminação fraca e temperatura e umidade controladas. "Tem no mínimo 800 garrafas de vinhos variados, ao preço médio de 100 reais cada uma", diz o dono de importadora Ciro Lilla.

A onda das adegas já foi detectada pelo mercado imobiliário. Em apartamentos nas faixas de preço mais salgado, tornaram-se um atrativo extra. No edifício L'Essence Jardins, em São Paulo, cada apartamento de 730 metros quadrados, ao preço de 7,5 milhões de reais, tem espaço para uma adega climatizada de 500 garrafas. "Virou apelo de vendas para imóveis acima de 300 metros quadrados", confirma Rogério Santos, diretor de planejamento e marketing da Abyara, uma empresa de consultoria imobiliária. Faz diferença? Para os bebedores comuns, não. "Quem bebe vinho na faixa dos 40 reais não tem a menor necessidade", garante o crítico de vinhos Guilherme Rodrigues. "Sai muito mais barato comprar um termômetro de 20 reais, pôr a garrafa num balde de gelo e servir quando atingir a temperatura certa." Mais barato, sem dúvida. Mas e o charme de abrir a adeguinha?

 

 

 
 
 
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