|
|
Arquitetura
Ondas de aço e vidro
Qualquer que seja o produto, o destaque em Milão é o próprio
centro de exposições 
Bel Moherdaui
Fotos divulgação  |
| Sobe e desce: a maior inovação é
a tenda "flutuante" que cobre o corredor dos pavilhões |
 |
Ele se ergue na paisagem como uma visão onírica,
uma jóia futurista, subvertendo a ordem natural das coisas a que o olho
humano está habituado. O que é costumeiramente rígido se
torna fluido; a frieza ganha uma aura cálida; o gigantesco parece lúdico.
Feito basicamente de vidro e aço, com a mais avançada tecnologia
disponível, o Fiera Milano, conjunto arquitetônico dedicado a abrigar
exposições organizadas pela Fundação Feira de Milão,
tem um desenho inovador, está revolucionando tudo à sua volta e,
como é inevitável, inspirou arroubos de paixão e ódio.
Estreou, aos olhos de um mundo acostumado a tudo o que existe de mais belo e instigante
em termos de design, no 45º Salão Internacional do Móvel de
Milão, no começo de abril. Foi difícil encontrar, entre os
cerca de 200.000 visitantes, quem não saísse de queixo caído
– de deslumbramento ou de birra. Criado pelo arquiteto romano
Massimiliano Fuksas, o grandioso complexo, localizado em um terreno de 2 milhões
de metros quadrados no distrito de Rho-Pero, a 8 quilômetros do centro de
Milão, é um espetáculo de números portentosos. Ocupa
uma área total de 530.000 metros quadrados, dos quais 345.000 reservados
para as exposições internas e 60.000 para as externas. Erguido em
apenas dois anos, abriga oito pavilhões do tamanho da Praça de São
Pedro, no Vaticano, e pode receber até vinte feiras concomitantes. Além
de exposições, o projeto inclui hotéis, praças de
alimentação e uma galeria comercial com mais de 200 lojas. "É
um lugar para se experimentar. Arquitetura é uma experiência que
deve provocar emoção", define Fuksas. Emoções
certamente não faltam, o que pode falhar é o fôlego. A área
do centro de exposições é dividida por um corredor de 1,3
quilômetro, encimado pela magnífica cobertura de vidro que parece
uma tenda flutuante. Dela desponta uma torre de 32 metros de altura na forma de
vela de navio, feita com 40.000 placas de vidro. Essa é a marca registrada
do conjunto, quando visto do exterior. Entrando na estrutura, como um redemoinho
eternamente congelado em vidro, surge sua versão inversa, um cone que vai
até os espelhos-d'água negros do piso inferior. "Na saída
do metrô, a impressão que se tem é que a estrutura está
derretida nesse volume espelhado. A luminosidade refletida na malha de vidro e
o fluxo de gente circulando lembram uma estação interplanetária",
descreve o designer Fernando Campana, juntamente com o irmão Humberto um
habitual participante da feira – a peça de impacto que apresentaram neste
ano foi a mesa Brasília, uma espécie de quebra-cabeça em
policarbonato espelhado, que tem uma distante mas curiosa conexão com o
próprio e gigantesco prédio onde foi exposta.
A um custo de 750 milhões de euros, o complexo é a pedra fundamental
de um ambicioso projeto de "renascimento" arquitetônico tocado pela prefeitura
de Milão. Com conclusão prevista para 2014, o novo Polo Urbano,
instalado onde era o salão anterior e formulado sob a direção
de quatro dos mais brilhantes nomes da arquitetura contemporânea – o japonês
Arata Isozaki, o americano Daniel Libeskind, a iraquiana Zaha Hadid e o italiano
Pier Paolo Maggiora –, abrigará um condomínio de prédios
de diferentes alturas (sendo um deles curvado sobre si mesmo) e um parque. A região
portuária de Darsena deverá reviver o perfil que tinha em 1800 e
um enorme complexo residencial e comercial será erguido na Zona Sul da
cidade. O surto reformista, como não podia deixar de ser, especialmente
na Itália, tem provocado discussões entre modernistas e tradicionalistas,
entre defensores e críticos da contratação de estrangeiros,
entre os que se deslumbram e os que se perguntam quem vai ocupar tantas e tão
grandiosas novidades. O prefeito Gabriele Albertini insufla os ânimos: "Parece
que a cultura só é apreciada quando não provoca debate. Nesse
caso, que tipo de cultura seria? Onde estaria a inovação?".
 |
 |
|