Edição 1954 . 3 de maio de 2006

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Arquitetura
Ondas de aço e vidro

Qualquer que seja o produto, o destaque
em Milão é o próprio centro de exposições


Bel Moherdaui

 
Fotos divulgação
Sobe e desce: a maior inovação é a tenda "flutuante" que cobre o corredor dos pavilhões

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Ele se ergue na paisagem como uma visão onírica, uma jóia futurista, subvertendo a ordem natural das coisas a que o olho humano está habituado. O que é costumeiramente rígido se torna fluido; a frieza ganha uma aura cálida; o gigantesco parece lúdico. Feito basicamente de vidro e aço, com a mais avançada tecnologia disponível, o Fiera Milano, conjunto arquitetônico dedicado a abrigar exposições organizadas pela Fundação Feira de Milão, tem um desenho inovador, está revolucionando tudo à sua volta e, como é inevitável, inspirou arroubos de paixão e ódio. Estreou, aos olhos de um mundo acostumado a tudo o que existe de mais belo e instigante em termos de design, no 45º Salão Internacional do Móvel de Milão, no começo de abril. Foi difícil encontrar, entre os cerca de 200.000 visitantes, quem não saísse de queixo caído – de deslumbramento ou de birra.

Criado pelo arquiteto romano Massimiliano Fuksas, o grandioso complexo, localizado em um terreno de 2 milhões de metros quadrados no distrito de Rho-Pero, a 8 quilômetros do centro de Milão, é um espetáculo de números portentosos. Ocupa uma área total de 530.000 metros quadrados, dos quais 345.000 reservados para as exposições internas e 60.000 para as externas. Erguido em apenas dois anos, abriga oito pavilhões do tamanho da Praça de São Pedro, no Vaticano, e pode receber até vinte feiras concomitantes. Além de exposições, o projeto inclui hotéis, praças de alimentação e uma galeria comercial com mais de 200 lojas. "É um lugar para se experimentar. Arquitetura é uma experiência que deve provocar emoção", define Fuksas.

Emoções certamente não faltam, o que pode falhar é o fôlego. A área do centro de exposições é dividida por um corredor de 1,3 quilômetro, encimado pela magnífica cobertura de vidro que parece uma tenda flutuante. Dela desponta uma torre de 32 metros de altura na forma de vela de navio, feita com 40.000 placas de vidro. Essa é a marca registrada do conjunto, quando visto do exterior. Entrando na estrutura, como um redemoinho eternamente congelado em vidro, surge sua versão inversa, um cone que vai até os espelhos-d'água negros do piso inferior. "Na saída do metrô, a impressão que se tem é que a estrutura está derretida nesse volume espelhado. A luminosidade refletida na malha de vidro e o fluxo de gente circulando lembram uma estação interplanetária", descreve o designer Fernando Campana, juntamente com o irmão Humberto um habitual participante da feira – a peça de impacto que apresentaram neste ano foi a mesa Brasília, uma espécie de quebra-cabeça em policarbonato espelhado, que tem uma distante mas curiosa conexão com o próprio e gigantesco prédio onde foi exposta.

A um custo de 750 milhões de euros, o complexo é a pedra fundamental de um ambicioso projeto de "renascimento" arquitetônico tocado pela prefeitura de Milão. Com conclusão prevista para 2014, o novo Polo Urbano, instalado onde era o salão anterior e formulado sob a direção de quatro dos mais brilhantes nomes da arquitetura contemporânea – o japonês Arata Isozaki, o americano Daniel Libeskind, a iraquiana Zaha Hadid e o italiano Pier Paolo Maggiora –, abrigará um condomínio de prédios de diferentes alturas (sendo um deles curvado sobre si mesmo) e um parque. A região portuária de Darsena deverá reviver o perfil que tinha em 1800 e um enorme complexo residencial e comercial será erguido na Zona Sul da cidade. O surto reformista, como não podia deixar de ser, especialmente na Itália, tem provocado discussões entre modernistas e tradicionalistas, entre defensores e críticos da contratação de estrangeiros, entre os que se deslumbram e os que se perguntam quem vai ocupar tantas e tão grandiosas novidades. O prefeito Gabriele Albertini insufla os ânimos: "Parece que a cultura só é apreciada quando não provoca debate. Nesse caso, que tipo de cultura seria? Onde estaria a inovação?".

 

 
 
 
 
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