Edição 1954 . 3 de maio de 2006

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Internet
Emergência nacional

Bomba na rede: de repente,
sem aviso, bisbilhoteiros do
Orkut perdem o anonimato


Laura Ming

Como sabem muito bem os viciados do ramo, um dos maiores prazeres de participar do Orkut, o site de relacionamento número 1 do país, é poder bisbilhotar a vida alheia sem que o objeto de curiosidade perceba. Rememorando, para os não-orkutificados: basta ser convidada por um "sócio" para qualquer pessoa criar seu cantinho na comunidade. Uma vez instalada, pode singrar tranqüilamente o mar de informações contidas nas páginas dos demais integrantes – o rapaz com uma paixão secreta, a menina que rompeu com o namorado e nunca mais quer vê-lo pela frente mas todo dia examina sua página (e a da nova namorada também) ou a mãe que, ao ver a filha de pretendente novo, põe-se a investigar a família inteira dele. Num ambiente assim movimentado, pode-se imaginar o estado de comoção nacional desencadeado no último dia 21, quando de uma hora para outra, sem avisar ninguém, o Orkut – braço do gigante Google – pôs à disposição dos usuários um "visualizador de perfil" que identifica, com nome e sobrenome, as cinco últimas pessoas a circular em cada página da comunidade, um similar do Bina dos telefones. "Quando soube, fiquei desesperada, comecei a tremer", conta Renata, 24 anos, que, como todos os demais envolvidos em operações constrangedoras, prefere não dar o sobrenome. "Tinha passado o dia anterior examinando o perfil das minhas inimigas. Saber que eu perco meu tempo com a vida delas é mostrar que eu me importo." Para contrabalançar, teve o gostinho de flagrar ex-namorados de amigas suas bisbilhotando sua página – indício de que continuavam interessados na vida das meninas.

Não houve, por parte do Orkut, nenhuma justificativa para a novidade. Um comunicado simplesmente informou que o visualizador existe, identifica os cinco últimos visitantes de cada página no dia anterior e informa o total de visitas naquele dia, na semana e no mês. Num primeiro momento, usuários afrontados foram à luta tal qual ela é travada no Orkut. Em questão de dias, passavam de 100 as comunidades do tipo "Eu odeio o visualizador de perfis". Em seguida, o criativo pessoal tratou de arranjar formas de retornar à clandestinidade. Uma delas, fácil e óbvia, é desativar o visualizador e voltar a ser como antes, possibilidade explicitada no comunicado do Orkut. Vantagem: ninguém vai saber que o sem-visualizador andou por sua página. Desvantagem: ele tampouco saberá quem o visitou – e depois de pegar esse gostinho é triste abrir mão dele. A saída para muitos foi criar um pseudoperfil, de uma pessoa que não existe e não tem amigos reais – assim, pode passear por páginas alheias sem se importar se é ou não identificada. O passo seguinte dessa turma foi montar uma espécie de confraria, a "Precisa-se de 5 fakes". Se um deles entra numa página e só depois se lembra do execrado visualizador, pede ajuda e um quinteto com identidade falsa entra na mesma página, apagando o nome do incauto. Seja o recurso desativado, sejam as páginas inundadas por fakes, o resultado final deve ser o mesmo: todo mundo continuará sem saber quem andou bisbilhotando sua página. A partir de agora, porém, todos terão mais cuidado, precavendo-se contra novas surpresas. "Passei a selecionar as páginas antes de entrar", diz Ana, 30 anos, às voltas com o desafio de administrar quatro perfis: o dela, o fake, o do cachorro e o do marido.

 
 
 
 
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