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Brasil
Escapará ele de mais essa?
Mensaleiro absolvido, o petista Mentor
é acusado de negociar por 300 000 reais
texto do relatório de CPI

Camila Pereira
Roosewelt Pinheiro/ABR
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| Mentor bem
que tenta escapar, mas as denúncias o perseguem |
Das duas uma: ou o deputado José Mentor (PT-SP) é
o perseguido preferencial de nove entre dez acusadores surgidos
no cenário político recente (e, nesse caso, todos
os delitos que lhe são imputados não passam de calúnia)
ou tem-se saído muito bem nas tentativas de driblar a lei
(hipótese em que passa a ser um caso exemplar de corrupto
impune). Breve retrospectiva: no ano passado, o deputado foi acusado
de ter sido o operador do "mensalinho" que a gestão de Marta
Suplicy é suspeita de ter distribuído a vereadores
de São Paulo em troca de apoio a projetos da prefeitura.
A investigação, a cargo do Ministério Público
Estadual, continua em curso. Também em 2005, quando veio
a público o escândalo do mensalão, o nome de
Mentor surgiu, reluzente, na lista dos políticos beneficiados
pelo valerioduto. Processado pelo Conselho de Ética da Câmara,
foi absolvido em plenário há duas semanas. Na semana
passada, outra denúncia desabou sobre o petista: Mentor foi
formalmente acusado de ter recebido suborno para beneficiar envolvidos
nas investigações da tristemente famosa CPI do Banestado,
da qual foi relator entre 2003 e 2004 (veja o quadro). Em
depoimento ao Ministério Público Estadual de São
Paulo, o doleiro Richard van Otterloo afirmou ter pago 300.000 reais
ao petista para não ter seu nome mencionado no relatório
final da comissão.
As revelações de Otterloo foram feitas
ao promotor Silvio Marques e ao procurador da República Rodrigo
de Grandis, responsáveis pelas investigações
das contas mantidas no exterior pelo ex-prefeito Paulo Maluf e seu
filho, Flávio. Otterloo trabalhou para os Maluf por pelo
menos seis anos. Por meio do doleiro Vivaldo Alves, ele recebia
dinheiro da conta Chanani (atribuída ao ex-prefeito, em Nova
York) em duas contas próprias, a Jazz e a Campari, também
em Nova York. Em seguida, repassava o dinheiro aos Maluf no Brasil
("em espécie e acondicionado em malotes", conforme afirmou
em depoimento). Quando, no fim de 2003, as relações
entre Maluf e a conta Campari vieram a público, Otterloo
preocupou-se com a possibilidade de ter sua participação
no esquema investigada pela CPI. Decidiu, então, aceitar
a sugestão que, segundo contou ao MP, partiu de Flávio
Maluf: a de que procurasse uma determinada pessoa, ligada ao deputado
Mentor, que poderia intermediar uma "negociação" para
excluí-lo do relatório final da CPI. O Ministério
Público deverá ouvir em breve essa pessoa. Otterloo
diz ter entregado ao intermediário de Mentor 300.000 reais
em dinheiro. Em troca, recebeu o disquete com o relatório
final da CPI dias antes de o documento ser divulgado para
ter certeza de que seu nome não estava lá. Os Maluf
também foram poupados no relatório de Mentor. O deputado-relator
alegou falta de tempo para analisar os documentos relativos à
família.
João Sal/Folha Imagem
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| Marta Suplicy
(com o marido, Luiz Favre): Mentor era seu homem de confiança
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Mentor ganhou a relatoria da CPI do Banestado graças
ao ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, de quem sempre
foi próximo. A indicação era uma forma de o
Planalto controlar a comissão, depois de tentativas frustradas
de sufocá-la. Antes de eleger-se deputado federal, Mentor
era o homem de confiança da ex-prefeita de São Paulo
Marta Suplicy. Como líder de seu governo na Câmara,
atraiu desde o PMDB até malufistas históricos para
a base da prefeita. Durante o tempo em que permaneceu no cargo,
Marta conseguiu maioria para aprovar tudo o que quis. Em julho do
ano passado, o ex-tesoureiro do PPS Evaldo Rui Vicentini, em depoimento
ao MP, acusou Mentor de ser o "homem da mala" no esquema do mensalinho
municipal da petista. A existência do esquema havia sido revelada
por VEJA dois meses antes. Mentor, é claro, nega ter participado
da compra de vereadores em São Paulo, assim como nega ter
sido agraciado com dinheiro do valerioduto. Na semana passada, negou
também, é lógico, ter negociado a exclusão
de nomes do texto da CPI. Mensalinho, mensalão, compra de
votos, venda de relatório: é espantoso como a corrupção
teima em perseguir Mentor.
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A CPI DA DISCÓRDIA
Allan Marques/Folha Imagem
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| O senador Antero
(sentado): o PT queria
usar CPI contra inimigos |
Criada a partir de uma operação
da Polícia Federal, que investigou remessas ilegais
de dinheiro para o exterior por meio do Banco do Estado
do Paraná (Banestado), a CPI do Banestado tinha
por objetivo investigar a evasão de divisas do
Brasil para paraísos fiscais. As brigas entre
o seu presidente, o senador Antero Paes de Barros (PSDB),
e o relator, o deputado José Mentor (PT), no
entanto, praticamente inviabilizaram as investigações.
Durante o período em que a comissão funcionou,
de junho de 2003 a dezembro de 2004, Paes de Barros
e Mentor acusaram-se mutuamente de usar a CPI para destruir
a reputação de adversários. O volume
recorde de documentos solicitados mais de 1 000
quebras de sigilo bancário e fiscal, de pessoas
muitas vezes sem relação direta com as
investigações suscitou desconfianças.
A oposição acusou Mentor de, a mando do
ex-ministro José Dirceu, tentar formar um banco
de dados para ser usado contra inimigos do governo.
As sessões tumultuadas não permitiram
sequer que todos os documentos solicitados fossem analisados.
Ao final, nenhum dos dois relatórios produzidos
o oficial, de Mentor, e o paralelo, de Paes de
Barros foi votado. Para evitar que o trabalho
dos parlamentares fosse para o lixo, Paes de Barros
juntou as quarenta caixas de documentos reunidos pela
CPI e enviou-as ao Ministério Público
Federal, que já tinha uma investigação
em curso. Até agora, a investigação
do MP gerou, só no Paraná, a denúncia
de mais de 400 pessoas envolvidas em crime de evasão
de divisas relacionadas ao Banestado e a condenação
de vinte delas à prisão.
Renato Piccinin
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