Edição 1 647 -3/5/2000

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FILME

Pandora Filmes
Kitano (à esq.), em Verão Feliz:
pungente amizade de criança e
adulto carentes


Verão Feliz
(Kikujiro, Japão, 1999. Estréia nesta sexta-feira em São Paulo) — Ator, diretor, escritor e até mesmo jogador bissexto de beisebol, o japonês Takeshi Kitano ficou conhecido por aqui com o sucesso "cabeça" Hana-bi — Fogos de Artifício. Neste novo filme, ele mostra sua versatilidade. Verão Feliz conta a história do menino Masao, que sofre por não ter um pai e viver longe da mãe. Planejando uma fuga para visitá-la, ganha a companhia de um vagabundo (vivido pelo próprio Kitano). Apesar do jeito grosseirão e amalucado, ele se revelará tão carente quanto o próprio garoto. É um tema clássico do cinema, visto, por exemplo, em Central do Brasil. Aqui, no entanto, ele ganha um tratamento ao mesmo tempo pungente e alegre.

 

LIVRO

Os Sete Loucos & Os Lança-Chamas, de Roberto Arlt (tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro; Iluminuras; 411 páginas; 39 reais) — Roberto Arlt ocupa, na ficção argentina, espaço semelhante ao de Lima Barreto no Brasil. Ambos rejeitaram a escrita enfeitada. Ambos falaram dos "excluídos". Foram hostilizados em seu próprio tempo, mas gerações posteriores lhes restituíram a devida importância. A principal arma do autor de Policarpo Quaresma era a sátira. Já Arlt foi mais violento. Ele descreveu tipos embrutecidos, imersos na "vida porca" da Buenos Aires dos anos 20. Os dois romances reunidos neste volume foram escritos em seqüência e compartilham personagens e cenários. Estão entre os dez melhores da literatura argentina, segundo a crítica.

 

DISCOS

Ecstasy, Lou Reed (WEA Music) — O cantor e compositor americano sabe como poucos retratar o submundo de Nova York em suas letras. O cotidiano de traficantes, viciados e transformistas fazia parte das canções de Lou Reed nos tempos do grupo Velvet Underground e foi explorado ao máximo em seus discos-solo nos anos 70. Em Ecstasy, seu vigésimo trabalho, o cantor mantém a escrita. O CD é uma compilação de contos musicados sobre traição, desonestidade e turbulentos finais de romance. A interpretação de Reed costuma deixar as músicas ainda mais angustiantes: ele simplesmente declama suas letras, sobre uma guitarra tocada da maneira mais desleixada possível. O disco pode não superar obras-primas como Transformer (1972) ou Berlin (1973), mas é uma prova de que Lou Reed continua em grande forma.

 

Live at the Apollo, James Brown (Universal Music) — James Brown era o Herbert von Karajan do soul. Perfeccionista, obrigava seus músicos a ensaiar exaustivamente. Para cada nota errada, os integrantes de sua banda eram obrigados a pagar 5 dólares de multa. Essa é uma das razões da excelência de seus discos, mesmo os gravados ao vivo. Live at the Apollo faz parte da série que o cantor gravou no lendário teatro de Nova York. Há sucessos de sua fase dourada, como a sacolejante I Feel Good, além da longuíssima balada It's a Man's, Man's Man's World. Repare no som do baixo e da bateria dos sucessos de Brown. Ele foi plagiado por nove entre dez bandas de rap. Os dois CDs mostram que o original era muito melhor.

 

DVD

Terra de Ninguém (Badlands, Estados Unidos, 1973. Warner) — O texano Terrence Malick é um caso único no cinema americano: virou um mito tendo feito apenas três filmes em 25 anos, sendo o mais recente deles Além da Linha Vermelha. Uma nova chance de entender por que sua obra é tão admirada está neste lançamento em DVD, que ressalta seu apurado trabalho fotográfico. Terra de Ninguém se inspira num caso real, sobre um casal de jovens (vividos por Martin Sheen e Sissy Spacek) que, nos anos 50, saiu pelo interior americano promovendo uma matança desordenada. O estilo meditativo do diretor faz um belo contraponto com a atuação incisiva de Sheen, que depois protagonizaria Apocalypse Now.

 

TELEVISÃO

Volta ao Mundo em 80 Dias (segundas às 20h30, no Eurochannel) — No livro homônimo de Júlio Verne, o personagem Phileas Fogg é desafiado a realizar uma viagem ao redor da Terra em exatos oitenta dias. No século XIX, essa era uma façanha e tanto, já que os meios de transporte disponíveis eram lentos. Hoje, circundar o globo leva pouco mais de um dia, se você estiver a bordo de um jato. Nesta minissérie em sete capítulos produzida pela BBC, o ator Michael Palin refaz o percurso de Phileas Fogg, seguindo apenas uma regra: não usar avião. O resultado é um programa interessantíssimo. Ex-integrante da trupe Monty Python, Palin é uma atração à parte. Com humor refinado, desvenda as curiosidades de cada país, da Suíça à Índia, enquanto vive uma aventura cheia de surpresas.

OS MAIS VENDIDOS — Crítica

Se você sempre quis lançar um livro, mas acha que não vai conseguir, eis aqui uma sugestão: morra. Ou melhor, desencarne. Segundo os espíritas, no "outro plano" você vai contar com todo o apoio necessário para realizar sua ambição. Poderá inclusive freqüentar os cursos de uma certa Casa do Escritor. Depois disso, é só procurar um médium pronto para psicografar seu texto. Se a médium for Vera Lúcia Carvalho, alvíssaras! Serão grandes suas chances de alcançar a lista de mais vendidos. É isso, em tese, o que acaba de acontecer com o espírito Rosângela, "autor" de Aborrecente, Não. Sou Adolescente! (Petit; 124 páginas; 13 reais).

Não é a primeira vez que Vera Lúcia e seus espíritos emplacam um grande sucesso. Tempos atrás, essa equipe do outro mundo chegou à lista de VEJA com Violetas na Janela. Assim como Aborrecente..., o livro era voltado para o público jovem. Curioso. Mas Vera Lúcia afirma que tudo não passa de coincidência. "Depois que termino a psicografia, faço uma leitura minuciosa do material junto com o autor espiritual", diz ela. "Em seguida, o trabalho é enviado à editora, que o encaminha para uma revisão de texto. Ele não passa por adaptações." No caso de Violetas na Janela, o espírito-romancista atendia pelo nome de Patrícia. Foi ela, ainda, quem "ditou" a obra chamada A Casa do Escritor, que explica como é que se aprende o ofício literário no além.

Quanto ao livro de Rosângela, ele aborda questões comuns a todos os adolescentes: namoro, brigas com os pais, escola, e assim por diante. Entremeadas ao enredo, porém, há diversas referências à religiosidade espírita. Portanto, alerta. Por mais bem-intencionado que seja o livro, ele esconde uma intenção doutrinária. Intenção, aliás, que fica mais do que clara na nota que encerra o volume: "Todas as respostas de que você precisa estão nas Obras Básicas de Allan Kardec".

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Sulina, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano; Salvador: Siciliano; Curitiba: Livraria Curitiba, Siciliano; Belo Horizonte: Leitura, Siciliano. Esta lista não inclui livros vendidos em bancas.