Um dos grandes equívocos
cometidos nestes últimos trinta anos por quase
todos os nossos notáveis economistas foi a crença
em que um país forte depende de uma moeda forte.
Quando do seqüestro da poupança nacional,
em 1990, medida considerada por muitos inconstitucional,
um famoso economista brasileiro afirmou na televisão
que era mais importante defender a moeda que defender
a Constituição. Frase perigosa para uma
nação que acabara de sair de uma longa ditadura.
Imaginem se os engenheiros brasileiros tomassem o poder
afirmando que defender o comprimento do metro é
mais importante que defender a Constituição
do Brasil.
Não é a moeda de
um país que precisa ser forte. É a contabilidade
que deve ser forte e precisa. Todo país requer
um sistema de referência confiável, que permita
aos indivíduos registrar e comparar preços.
Não que nossos economistas não soubessem
disso, mas achavam que a única saída era
lutar por uma moeda forte, o que traria como conseqüência
uma contabilidade forte. Administradores e contadores
havia décadas alertavam políticos brasileiros
que a ordem era inversa: uma contabilidade forte traria
como conseqüência uma moeda forte. Como de
fato ocorreu no Plano Real.
Por quatro meses em 1994 contabilizamos
a nação inteira, preços e salários,
numa base nacional sólida e forte que era a URV.
Lentamente, a população readquiriu o senso
de caro e barato, porque pela primeira vez em trinta anos
ela teve uma contabilidade confiável para tomar
suas decisões de compra. Resolvemos finalmente
o problema da inflação do Brasil. Planos
contábeis são por definição
transparentes, e pela primeira vez na História
do Brasil implantou-se um plano que não foi urdido
em gabinetes às escondidas, ou na calada da noite
por jovens intelectuais, tomando a população
de surpresa. Enquanto os planos da ciência econômica
distorciam nosso sistema de preços por meio de
congelamentos e seqüestros, o Plano Real fez justamente
o contrário: resgatou-o.
Em 1995, FHC promulga a Lei nº
9249, que, pasmem, proíbe todas as empresas brasileiras
de ter uma contabilidade forte, obrigando-as a contabilizar
tudo em real, uma moeda que já enfraqueceu 94%
desde 1994. Hoje, nenhuma empresa nacional nem investidor
têm a mínima noção de seu verdadeiro
lucro. Isso corrói o sistema de informações
das companhias brasileiras, o que, para um administrador,
contador, engenheiro ou qualquer cientista empírico,
é algo simplesmente inacreditável e inconcebível.
Todas as moedas do mundo, inclusive o dólar, são
fracas, por mais que digam o contrário Paul Krugman
e Alan Greenspan. Por isso, países que se baseiam
em princípios de livre informação
precisam de contabilidade forte, seja em URV, seja em
IGP-contábil, o nome não importa.
Por nunca termos tido uma contabilidade
forte neste país, exceto nos quatro primeiros meses
do Plano Real, enfrentamos inúmeros problemas,
como corrupção, incapacidade de auditar
contas públicas corretamente, juros elevados pela
incerteza de mensuração, demandas de salário
mínimo acoplado à moeda estrangeira, a Justiça
entupida por ações meramente contábeis,
como a do FGTS atualmente no Supremo, a crise da Previdência,
baixa poupança nacional. Por falta de confiança
em nosso sistema de mensuração, o governo
é obrigado a emitir títulos cambiais em
outras moedas, investidores preferem aplicar na Suíça,
continuamos impossibilitados de comparar preços,
estamos lentamente descapitalizando a empresa brasileira
por impostos sobre lucros e dividendos fictícios.
Perdemos novamente nossos pontos de referência.
Utilizamos padrões distintos: alguns usam o real,
outros o dólar, a TR, o IGP ou múltiplos
do salário mínimo. Uma torre de Babel.
Não que tudo isso coloque
o Real em risco, mas estamos pagando um preço elevado
em termos de desemprego, juros altos e recessão
desnecessariamente. Hoje, ninguém mais duvida de
que nunca mais teremos em nossa vida uma inflação
de 15% ao mês. No primeiro sinal de descontrole
inflacionário, algum leitor de VEJA se lembrará
de que a saída não é fazer um congelamento
de emergência, e sim criar uma contabilização
forte como fizemos no Real.
Defender um sistema de referência
nacional forte pode parecer picuinha intelectual, um mero
detalhe. Mas, tanto quanto a Constituição,
nenhum país pode dispensar um forte sistema de
mensuração para se guiar em relação
ao futuro.