Edição 1 647 - 3/5/2000

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O sexto aniversário do Real

"Apesar do sucesso do Real em eliminar a inflação,
é triste perceber o
grande número de especialistas
que
ainda hoje não entenderam a essência
do sucesso do plano"

Ilustração Ale Setti


Um dos grandes equívocos cometidos nestes últimos trinta anos por quase todos os nossos notáveis economistas foi a crença em que um país forte depende de uma moeda forte. Quando do seqüestro da poupança nacional, em 1990, medida considerada por muitos inconstitucional, um famoso economista brasileiro afirmou na televisão que era mais importante defender a moeda que defender a Constituição. Frase perigosa para uma nação que acabara de sair de uma longa ditadura. Imaginem se os engenheiros brasileiros tomassem o poder afirmando que defender o comprimento do metro é mais importante que defender a Constituição do Brasil.

Não é a moeda de um país que precisa ser forte. É a contabilidade que deve ser forte e precisa. Todo país requer um sistema de referência confiável, que permita aos indivíduos registrar e comparar preços. Não que nossos economistas não soubessem disso, mas achavam que a única saída era lutar por uma moeda forte, o que traria como conseqüência uma contabilidade forte. Administradores e contadores havia décadas alertavam políticos brasileiros que a ordem era inversa: uma contabilidade forte traria como conseqüência uma moeda forte. Como de fato ocorreu no Plano Real.

Por quatro meses em 1994 contabilizamos a nação inteira, preços e salários, numa base nacional sólida e forte que era a URV. Lentamente, a população readquiriu o senso de caro e barato, porque pela primeira vez em trinta anos ela teve uma contabilidade confiável para tomar suas decisões de compra. Resolvemos finalmente o problema da inflação do Brasil. Planos contábeis são por definição transparentes, e pela primeira vez na História do Brasil implantou-se um plano que não foi urdido em gabinetes às escondidas, ou na calada da noite por jovens intelectuais, tomando a população de surpresa. Enquanto os planos da ciência econômica distorciam nosso sistema de preços por meio de congelamentos e seqüestros, o Plano Real fez justamente o contrário: resgatou-o.

Em 1995, FHC promulga a Lei nº 9249, que, pasmem, proíbe todas as empresas brasileiras de ter uma contabilidade forte, obrigando-as a contabilizar tudo em real, uma moeda que já enfraqueceu 94% desde 1994. Hoje, nenhuma empresa nacional nem investidor têm a mínima noção de seu verdadeiro lucro. Isso corrói o sistema de informações das companhias brasileiras, o que, para um administrador, contador, engenheiro ou qualquer cientista empírico, é algo simplesmente inacreditável e inconcebível. Todas as moedas do mundo, inclusive o dólar, são fracas, por mais que digam o contrário Paul Krugman e Alan Greenspan. Por isso, países que se baseiam em princípios de livre informação precisam de contabilidade forte, seja em URV, seja em IGP-contábil, o nome não importa.

Por nunca termos tido uma contabilidade forte neste país, exceto nos quatro primeiros meses do Plano Real, enfrentamos inúmeros problemas, como corrupção, incapacidade de auditar contas públicas corretamente, juros elevados pela incerteza de mensuração, demandas de salário mínimo acoplado à moeda estrangeira, a Justiça entupida por ações meramente contábeis, como a do FGTS atualmente no Supremo, a crise da Previdência, baixa poupança nacional. Por falta de confiança em nosso sistema de mensuração, o governo é obrigado a emitir títulos cambiais em outras moedas, investidores preferem aplicar na Suíça, continuamos impossibilitados de comparar preços, estamos lentamente descapitalizando a empresa brasileira por impostos sobre lucros e dividendos fictícios. Perdemos novamente nossos pontos de referência. Utilizamos padrões distintos: alguns usam o real, outros o dólar, a TR, o IGP ou múltiplos do salário mínimo. Uma torre de Babel.

Não que tudo isso coloque o Real em risco, mas estamos pagando um preço elevado em termos de desemprego, juros altos e recessão desnecessariamente. Hoje, ninguém mais duvida de que nunca mais teremos em nossa vida uma inflação de 15% ao mês. No primeiro sinal de descontrole inflacionário, algum leitor de VEJA se lembrará de que a saída não é fazer um congelamento de emergência, e sim criar uma contabilização forte como fizemos no Real.

Defender um sistema de referência nacional forte pode parecer picuinha intelectual, um mero detalhe. Mas, tanto quanto a Constituição, nenhum país pode dispensar um forte sistema de mensuração para se guiar em relação ao futuro.

Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)