Notícias de uma guerra particular (2)
Deseja-se uma polícia
honesta? Então fica combinado que o que vale para
a favela vale para Ipanema
Eu digo. Não precisa ninguém dizer. Eu afirmo:
a polícia é corrupta.
Com a palavra o delegado Hélio Luz, então
chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, num dos
trechos de sua marcante participação no documentário
Notícias de uma Guerra Particular, de João
Moreira Salles e Kátia Lund. Na semana passada já
se falou aqui desse documentário, hoje mais famoso
do que na época em que foi lançado (1998)
por causa da mesada paga por Salles a um chefe de tráfico,
que conheceu nas filmagens, para que escrevesse um livro.
Notícias de uma Guerra Particular, cujo tema
é a guerra entre policiais e traficantes nos morros
cariocas, causa aflição, de tão denso
e revelador. Volta-se a ele para abordar o que ficou de
fora na semana passada o depoimento de Hélio Luz.
"Sim, a polícia é corrupta", diz o delegado
no filme, para em seguida acrescentar que, se a sociedade
quer uma polícia honesta, não seria difícil
consegui-lo. Conta então uma experiência que
viveu num município do norte fluminense. Quando ali
chegou, para assumir o posto de delegado, encontrou a população
traumatizada. Havia pouco, o carcereiro se apoderara da
boca-de-fumo local. Clamava-se pela moralização
dos agentes da segurança pública. Luz juntou
trinta policiais que, em suas palavras, "não levavam
grana" e pôs-se ao trabalho. Aplausos. O delegado
era convidado para os jantares do Rotary. Tudo foi bem durante
dois meses até que, no terceiro, o segurança
do supermercado estapeou um garoto apanhado furtando. Foram
autuados os dois. Um por furto, outro por agressão.
O dono do supermercado protestou, em favor do segurança:
"Mas, doutor, era um ladrão..." O delegado começou
a ser visto como bicho estranho. Hélio Luz data daquele
momento o fim da lua-de-mel da sociedade local com a moralidade.
Os convites para jantar escassearam. Deu-se então
que um fazendeiro matou um rapaz que lhe levara o toca-fitas
do carro. "Aí pronto", diz Luz. "O que era bom deixou
de ser." Não se suportou a incriminação
do fazendeiro. Não se agüentava mais tanta moralidade.
Luz defende que a polícia é corrupta porque
convém à sociedade. Deseja-se uma polícia
honesta? Então, o que vale para a favela passa a
valer para o Posto 9. "Não pode cheirar em Ipanema",
diz. "Vai ter pé na porta na Delfim Moreira." Pé
na porta, o leitor sabe, é como a polícia
invade os barracos nas favelas. Hélio Luz sugere
a extensão do método aos prédios chiques
do Leblon. E pergunta: "A sociedade vai conseguir segurar
isso?" A pergunta fica nos ouvidos. A sociedade segura isso?
Uma questão não enfatizada com a atenção
devida, quando se fala em narcotráfico, é
a do contrabando de armas. No documentário de Salles
e Lund desfila uma profusão de armas, nas mãos
tanto de policiais quanto de traficantes as melhores,
de modelos mais avançados, fuzis e metralhadoras
de nomes cabalísticos, para o comum das pessoas,
P-90, MD-2, K-47, PT-92, mas pronunciados pelas crianças
do morro com a familiaridade com que a dona-de-casa enumera
marcas de sabão de pó. Ou, para ficar no filme,
com a familiaridade com que, em outra cena, os mesmos meninos
enumeram as grifes preferidas: jeans Company, camisetas
Toulon, tênis Nike...
Luz afirma que o negócio das armas é quase
tão vultoso quanto o do narcotráfico. Os lucros
de um e outro estariam muito próximos. "Por que se
fabricam fuzis com 700 tiros por minuto?", pergunta. "Já
não caiu o muro?" Tais armas, a comunidade internacional
proíbe que se vendam à Líbia ou ao
Exército Republicano Irlandês (IRA) mas
dão o ar de sua graça no Rio de Janeiro. Parte
delas, os traficantes compram de policiais corruptos. Outra
parte lhes chega por canais misteriosos. Como combater o
tráfico de armas? Luz tem uma sugestão tão
provocadoramente absurda quanto absurdamente lógica:
fechar as fábricas. Não é isso o que
os Estados Unidos fazem como política de combate
ao narcotráfico? Não vão às
origens do problema, com o objetivo de desmontar a produção
no Peru e na Colômbia? Pois Luz reivindica uma intervenção
nas fábricas de armas: "Quero fechar a fábrica
da Colt que faz o AR-15, nos Estados Unidos. Quero fechar
a fábrica do Sig-Sauer na Suíça".
Vai-se encerrar esta página informando, à
moda dos filmes, o que aconteceu depois com os personagens.
Hélio Luz deixou a polícia e é hoje
deputado estadual pelo PT no Rio de Janeiro. O traficante
ajudado com a mesada de Salles, o hoje famoso Marcinho VP,
foi finalmente preso na semana passada, depois de anos de
busca, num morro do bairro carioca de Santa Teresa. João
Salles foi indiciado pelas relações com Marcinho
VP e mergulhou num inferno particular. Não mudou
a vida nos morros. Os moradores do bairro da Tijuca viveram
na semana passada mais uma das habituais noites de terror,
com o tiroteio cerrado entre traficantes. Os meninos da
favela continuam tão craques no nome das armas quanto
no das grifes, confundindo ambas, acarinhando e embalando-as
ambas no mesmo programa de vida tênis Nike e HK
962, camiseta Toulon e PT-92.