A fênix alemã
Arrasada na II Guerra, Dresden está
sendo reconstruída tal como era. O projeto é
polêmico
Sérgio Martins, de Dresden
AP
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Dresden após
o ataque dos aliados: uma jóia barroca some
do mapa
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Durante séculos, Dresden, no leste da Alemanha,
foi conhecida como uma das mais belas cidades da Europa.
Fundada no século XIII, ganhou o apelido de "Florença
do Elba", numa referência à riqueza de sua
arquitetura e ao rio que a cruza. Dresden teve moradores
ilustres como Goethe e Bach. O pintor veneziano Canaletto,
um dos maiores de seu tempo, retratou seus prédios
barrocos e ruas largas. Hoje, no entanto, a cidade é
mais lembrada como palco de um dos mais devastadores ataques
das forças aliadas contra os alemães na II
Guerra. Em fevereiro de 1945, pouco antes do fim do conflito,
1.400 aviões americanos
e britânicos despejaram 3 500 toneladas de bombas
sobre Dresden. Cerca de 35.000
civis foram mortos. A cidade ardeu por vários dias
e, quando as chamas se apagaram, ela não passava
de um monte de ruínas. O bombardeio de Dresden passou
à História como um selvagem ato de vingança
dos aliados, que àquela altura do conflito já
não precisavam recorrer a tal expediente para minar
o moral alemão. Foi uma infâmia cometida em
nome da democracia.
| A Igreja de Nossa Senhora, o principal
monumento de Dresden, em três momentos: antes
da guerra, em ruínas e, hoje, em fase de reconstrução.
Muitos habitantes se perguntam até que ponto
se pode reconstituir uma cidade antiga sem que o resultado
pareça falso e kitsch |
Nas décadas que se seguiram ao final da guerra,
muitas cidades européias trataram de reconstruir
prédios, igrejas e monumentos de grande valor histórico
e arquitetônico. Os italianos, em particular, realizaram
um trabalho magistral de reconstituição. Quem
visita a Florença de verdade, por exemplo, custa
a acreditar que algumas de suas mais belas construções
foram duramente atingidas por bombas. Para os habitantes
de Dresden, porém, a tarefa de reconstrução
mostrou-se dificílima. Com a divisão da Alemanha,
a cidade ficou no empobrecido lado oriental do Muro de Berlim.
Os comunistas ressuscitaram alguns edifícios importantes,
como a Semper Opera, casa de espetáculos em que Wagner
estreou várias de suas óperas. Mas foi muito
pouco para que Dresden recuperasse seu brilho. Para piorar,
na reconstrução das áreas residenciais
da cidade os comunistas optaram por levantar horrendos prédios
populares que lembram caixas de charutos gigantes.
Desde a reunificação da Alemanha, no entanto,
a recuperação de Dresden entrou em outro ritmo.
A cidade hoje é um grande canteiro de obras, bancadas
tanto pelo governo quanto por doações da iniciativa
privada. O objetivo é reerguer uma série de
construções e, paralelamente, criar uma nova
Dresden, moderna e em sintonia com o lugar que a Alemanha
ocupa entre as potências mundiais. Esse esforço,
porém, tem causado polêmica. Até que
ponto se pode reconstituir uma cidade antiga sem que o resultado
pareça falso e kitsch? Reconstruir quarteirões
inteiros em estilo barroco e rococó não irá
criar um parque temático em lugar de um sítio
histórico? Como combinar o antigo e o novo de maneira
harmoniosa?
"Um crime" Essa discussão tem sido
particularmente acalorada no caso das ruínas mais
cultuadas pelos cidadãos de Dresden: as da Igreja
de Nossa Senhora. Erguida em 1743, esta obra-prima da arquitetura
de seu tempo sobrevive apenas em fotografias e nas pinturas
de Canaletto. O bombardeio aliado a transformou em escombros
sobraram não mais do que duas paredes. Todos
os anos, no dia 13 de fevereiro, uma multidão de
fiéis acorre ao local para lembrar o fatídico
dia do ataque. Pois bem, apesar da grita dos opositores
do projeto, a Igreja de Nossa Senhora está sendo
reconstruída tal como era antes do bombardeio, a
um preço de 250 milhões de dólares.
Ela deve ficar pronta em 2006, quando serão comemorados
os 800 anos de Dresden. Há três meses, a Inglaterra
presenteou a cidade com uma réplica da cruz que enfeitava
a torre da igreja. O adereço, que ocupará
o lugar do original, foi esculpido pelo filho de um dos
pilotos que participaram do bombardeio de Dresden em 1945.
"As lembranças do ataque assombraram meu pai até
a morte", discursou o artista na ocasião. "Ele achava
que os aliados cometeram um crime."
Diversas organizações não governamentais
amealham fundos para a reconstrução dos bairros
históricos da cidade. A mais conhecida delas, Friends
of Dresden, é presidida há seis anos pelo
cientista Günter Blobel, prêmio Nobel de Medicina
em 1999. Blobel, que vivia nos arredores de Dresden e assistiu
a sua destruição quando tinha 8 anos, destinou
integralmente o dinheiro do prêmio 1 milhão
de dólares às obras de recuperação.
Até mesmo os 7 milhões de turistas que visitam
Dresden anualmente são convidados a dar alguma contribuição.
Prédios do século XVIII já foram reinaugurados,
entre eles o imponente Taschenbergpalais. Resta saber se,
ao fim da reconstrução, Dresden voltará
a exibir seu antigo esplendor ou se converterá apenas
numa Disneylândia barroca.