Edição 1 647 -3/5/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
O novo filme de Jim Carrey
Missão: Marte, de Brian De Palma
Linhas Cruzadas, com Meg Ryan e Diane Keaton
O homem que roubou o dinheiro de Leonardo DiCaprio
Ofensas Pessoais, de Scott Turow
Turma do Casseta & Planeta triplica os rendimentos
A reconstrução de Dresden
Colunas
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Os mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

A fênix alemã

Arrasada na II Guerra, Dresden está sendo reconstruída tal como era. O projeto é polêmico

Sérgio Martins, de Dresden

 
AP

Dresden após o ataque dos aliados: uma jóia barroca some do mapa

Durante séculos, Dresden, no leste da Alemanha, foi conhecida como uma das mais belas cidades da Europa. Fundada no século XIII, ganhou o apelido de "Florença do Elba", numa referência à riqueza de sua arquitetura e ao rio que a cruza. Dresden teve moradores ilustres como Goethe e Bach. O pintor veneziano Canaletto, um dos maiores de seu tempo, retratou seus prédios barrocos e ruas largas. Hoje, no entanto, a cidade é mais lembrada como palco de um dos mais devastadores ataques das forças aliadas contra os alemães na II Guerra. Em fevereiro de 1945, pouco antes do fim do conflito, 1.400 aviões americanos e britânicos despejaram 3 500 toneladas de bombas sobre Dresden. Cerca de 35.000 civis foram mortos. A cidade ardeu por vários dias e, quando as chamas se apagaram, ela não passava de um monte de ruínas. O bombardeio de Dresden passou à História como um selvagem ato de vingança dos aliados, que àquela altura do conflito já não precisavam recorrer a tal expediente para minar o moral alemão. Foi uma infâmia cometida em nome da democracia.

 
Divulgação

Divulgação

Messerschmidt
A Igreja de Nossa Senhora, o principal monumento de Dresden, em três momentos: antes da guerra, em ruínas e, hoje, em fase de reconstrução. Muitos habitantes se perguntam até que ponto se pode reconstituir uma cidade antiga sem que o resultado pareça falso e kitsch

Nas décadas que se seguiram ao final da guerra, muitas cidades européias trataram de reconstruir prédios, igrejas e monumentos de grande valor histórico e arquitetônico. Os italianos, em particular, realizaram um trabalho magistral de reconstituição. Quem visita a Florença de verdade, por exemplo, custa a acreditar que algumas de suas mais belas construções foram duramente atingidas por bombas. Para os habitantes de Dresden, porém, a tarefa de reconstrução mostrou-se dificílima. Com a divisão da Alemanha, a cidade ficou no empobrecido lado oriental do Muro de Berlim. Os comunistas ressuscitaram alguns edifícios importantes, como a Semper Opera, casa de espetáculos em que Wagner estreou várias de suas óperas. Mas foi muito pouco para que Dresden recuperasse seu brilho. Para piorar, na reconstrução das áreas residenciais da cidade os comunistas optaram por levantar horrendos prédios populares que lembram caixas de charutos gigantes.

Desde a reunificação da Alemanha, no entanto, a recuperação de Dresden entrou em outro ritmo. A cidade hoje é um grande canteiro de obras, bancadas tanto pelo governo quanto por doações da iniciativa privada. O objetivo é reerguer uma série de construções e, paralelamente, criar uma nova Dresden, moderna e em sintonia com o lugar que a Alemanha ocupa entre as potências mundiais. Esse esforço, porém, tem causado polêmica. Até que ponto se pode reconstituir uma cidade antiga sem que o resultado pareça falso e kitsch? Reconstruir quarteirões inteiros em estilo barroco e rococó não irá criar um parque temático em lugar de um sítio histórico? Como combinar o antigo e o novo de maneira harmoniosa?

"Um crime" – Essa discussão tem sido particularmente acalorada no caso das ruínas mais cultuadas pelos cidadãos de Dresden: as da Igreja de Nossa Senhora. Erguida em 1743, esta obra-prima da arquitetura de seu tempo sobrevive apenas em fotografias e nas pinturas de Canaletto. O bombardeio aliado a transformou em escombros – sobraram não mais do que duas paredes. Todos os anos, no dia 13 de fevereiro, uma multidão de fiéis acorre ao local para lembrar o fatídico dia do ataque. Pois bem, apesar da grita dos opositores do projeto, a Igreja de Nossa Senhora está sendo reconstruída tal como era antes do bombardeio, a um preço de 250 milhões de dólares. Ela deve ficar pronta em 2006, quando serão comemorados os 800 anos de Dresden. Há três meses, a Inglaterra presenteou a cidade com uma réplica da cruz que enfeitava a torre da igreja. O adereço, que ocupará o lugar do original, foi esculpido pelo filho de um dos pilotos que participaram do bombardeio de Dresden em 1945. "As lembranças do ataque assombraram meu pai até a morte", discursou o artista na ocasião. "Ele achava que os aliados cometeram um crime."


Diversas organizações não governamentais amealham fundos para a reconstrução dos bairros históricos da cidade. A mais conhecida delas, Friends of Dresden, é presidida há seis anos pelo cientista Günter Blobel, prêmio Nobel de Medicina em 1999. Blobel, que vivia nos arredores de Dresden e assistiu a sua destruição quando tinha 8 anos, destinou integralmente o dinheiro do prêmio – 1 milhão de dólares – às obras de recuperação. Até mesmo os 7 milhões de turistas que visitam Dresden anualmente são convidados a dar alguma contribuição. Prédios do século XVIII já foram reinaugurados, entre eles o imponente Taschenbergpalais. Resta saber se, ao fim da reconstrução, Dresden voltará a exibir seu antigo esplendor ou se converterá apenas numa Disneylândia barroca.