Edição 1 647 -3/5/2000

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A elite pobre

Eles podem ganhar pouco, mas recebem
ótimos presentes e se divertem a valer

Marcelo Marthe

 
Selmy Yassuda

O fotógrafo Alvaro Toledo Leme leva uma vida cheia de glamour. Todo dia chega a seu apartamento, em São Paulo, meia dúzia de convites para festas e jantares badalados. Depois de selecionar os eventos em que dará o ar da sua graça – afinal, ele se permite cair na noite apenas quatro vezes por semana –, é hora de se produzir. Em frente de seu guarda-roupa, o fotógrafo pode optar entre vários pares de sapatos italianos, jaquetas e camisas de grife. Se o oba-oba demandar capricho extra no visual, talvez use aquela calça Gucci que custou a bagatela de 1.400 dólares. Custou, vírgula. Gente como Alvaro Toledo Leme não precisa pôr a mão no bolso para ter acesso a muitos prazeres materiais. Ele nem teria dinheiro para isso, aliás. Profissional free lance, ganha por mês cerca de 3.000 reais. Só com faturamento muito maior conseguiria manter seu padrão de vida. "Para bancar essa minha rotina, eu deveria ganhar cerca de três vezes mais", calcula.

Ricardo Benichio

Leme faz parte de uma casta de jovens profissionais ligados à moda, à mídia e à vida noturna que costumam ser paparicados por pessoas ou empresas que têm interesse em conquistar sua simpatia. Considerados formadores de opinião, influentes em seu meio ou simplesmente presenças bem-vindas em festas, eles compensam seus baixos salários com presentes que vão de ingressos para shows a roupas caras e viagens. Essa turma, que entre os americanos é chamada de "elite pobre", vem ganhando visibilidade no Brasil por causa do crescimento dos setores em que atuam. Pegue-se por exemplo o mundo da moda. Nos últimos oito anos, a indústria têxtil nacional investiu 7 bilhões de dólares para tornar seus produtos mais refinados e abrir as portas do mercado externo. As estrelas de primeira grandeza são, evidentemente, os estilistas e os modelos. Mas por trás deles existe um exército de maquiadores, cenógrafos, fotógrafos especializados e produtores. Todos eles desfrutando com galhardia a boca-livre e o jabaculê.

Mesa cativa – Uma categoria em alta é a dos vips pobretões que dão expediente entre a mídia. Principalmente os assessores de imprensa, relações-públicas e assistentes de marketing. Para aparecer em colunas sociais e outras seções de notinhas de jornais e revistas, muitas empresas, lojas e restaurantes estão contratando gente bem relacionada, que aceite receber um salário modesto mas acompanhado de mordomias. Um caso típico é o do relações-públicas John Wesley, que presta serviços para dois restaurantes chiques de São Paulo. Seu ganho mensal declarado fica na casa dos 2.000 reais. A contrapartida é que ele possui mesa cativa nos estabelecimentos para os quais trabalha. Sua função é levar gente bonita ou famosa para comer de graça nesses lugares e, assim, transformá-los em notícia. Pela natureza de sua profissão, Wesley circula na companhia de belas aspirantes a modelo, o que garante a inclusão de seu nome em diversas listas de convidados para eventos coruscantes. A explosão da internet, por seu turno, criou sua própria categoria de emergentes sociais. Os mais cotados são os webdesigners, que bolam o visual dos sites da rede. Eles servem para dar um toque "artístico" a festas moderninhas e coisas que tais.

 
Ricardo Benichio

Atividades intimamente vinculadas à badalação noturna são um campo fértil para quem quer viver como rico. A ala mais evidente é composta das hostesses, geralmente moças atraentes que são responsáveis pela triagem de quem vai entrar numa boate da moda (ou então mofar na porta até o sol raiar). Os promoters constituem um capítulo à parte. Eles organizam e divulgam todo tipo de festas e se subdividem em vários patamares. Há desde os poderosos, que fazem as listas de eventos fechados, até os que simplesmente ajudam na distribuição dos flyers, aqueles coloridos panfletos das danceterias. Não importa o grau de importância, são encargos que normalmente resultam em alta popularidade.

A trajetória da promoter carioca Tatiana Medeiros é representativa. Ela começou a carreira como tequileira, a garçonete de bares mexicanos que chacoalha a cabeça do cliente depois que ele sorve sua dose de tequila. Poucos meses mais tarde adquiriu status de promoter, pelas mãos do empresário Ricardo Amaral. Tatiana ainda não conseguiu juntar dinheiro para comprar um carro, mas pelo menos três vezes por semana pode ser vista naqueles rega-bofes cujos convites são disputados a tapa. Alguns exemplos recentes: réveillon numa mansão luxuosa em Angra dos Reis, festa em homenagem ao cantor argelino Khaled e lançamento do novo programa de Luciano Huck. "Meus horizontes se abriram depois que virei promoter", gaba-se Tatiana. Esses horizontes, no entanto, não são lá tão vastos. A elite pobre não tem futuro ou carreira promissora. Sua dimensão é a do eterno presente. Mas isso não interessa: ela se diverte a valer.