Edição 1 647 -3/5/2000

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Polícia Federal

Tiros de festim

Vicente Chelotti é denunciado por investigação suspeita

 
Ana Araujo
O ex-chefe da Polícia Federal, Chelotti: mandou os suspeitos se investigarem

Criada para investigar crimes, a Polícia Federal é alvo freqüente de suas próprias investigações. Nisso não difere de nenhuma polícia do mundo. Sua particularidade é a forma como algumas apurações são feitas. Um processo enviado na semana passada ao diretor-geral, Agílio Monteiro Filho, é o melhor exemplo. Trata de um ato administrativo do ex-diretor-geral Vicente Chelotti, da época em que ainda reinava absoluto como o chefe da principal força policial do país. Em 1997, chegou às mãos de Chelotti uma requisição do Ministério Público (MP) para que fossem instaurados dez inquéritos com base em denúncias sobre irregularidades na superintendência do Rio. O principal acusado, por uma denunciante anônima, era o então superintendente Jairo Kulmann. Pois foi justamente a Kulmann que Chelotti solicitou a investigação para, menos de um mês depois, dar o caso por encerrado. Não instaurou nenhum dos inquéritos e devolveu o processo ao Ministério Público. No início deste mês, depois de mais de dois anos perdidos na teia da burocracia, o caso voltou ao MP do Rio, que recomendou ao MP de Brasília que denuncie o ex-diretor Chelotti por crime de prevaricação.

A denúncia foi feita por uma policial do Rio, que se dizia indignada com a atitude dos colegas. Num documento de dez páginas, fez detalhadas descrições de como seus pares estavam montados sobre um esquema paralelo de prestação de serviços particulares de segurança a artistas, empresários e personalidades. Uma prática que, embora bastante comum, é proibida por lei. Além disso, falava sobre a venda de passaportes a pessoas impedidas de sair do país, venda de porte de armas e recebimento de propina, entre outros delitos menos graves. Pedir ao próprio acusado que investigasse as acusações pareceu estranho aos procuradores.

Chelotti e Kulmann são figurões em uma instituição poderosa. Criada há 36 anos, a PF é a jóia da coroa entre as polícias do país. Por isso, é tão sujeita a duas pragas que costumam devastar sua imagem institucional: as disputas políticas e o corporativismo. "Sou favorável ao corporativismo, mas nunca deixei de apurar nenhuma denúncia", afirma Vicente Chelotti. "As investigações do Rio mostraram que não havia nada daquilo." Não é o que pensa o Ministério Público, que solicitou na semana passada a instauração dos dez inquéritos que nunca chegaram a ser abertos. Por via das dúvidas, fez ainda uma recomendação: a de que desta vez os investigados não acumulem funções paralelas, sendo também os investigadores.

 
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