Polícia
Federal
Tiros de festim
Vicente Chelotti é denunciado por
investigação suspeita
Ana Araujo
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| O ex-chefe da Polícia Federal,
Chelotti: mandou os suspeitos se investigarem |
Criada para investigar crimes, a Polícia Federal
é alvo freqüente de suas próprias investigações.
Nisso não difere de nenhuma polícia do mundo.
Sua particularidade é a forma como algumas apurações
são feitas. Um processo enviado na semana passada
ao diretor-geral, Agílio Monteiro Filho, é
o melhor exemplo. Trata de um ato administrativo do ex-diretor-geral
Vicente Chelotti, da época em que ainda reinava absoluto
como o chefe da principal força policial do país.
Em 1997, chegou às mãos de Chelotti uma requisição
do Ministério Público (MP) para que fossem
instaurados dez inquéritos com base em denúncias
sobre irregularidades na superintendência do Rio.
O principal acusado, por uma denunciante anônima,
era o então superintendente Jairo Kulmann. Pois foi
justamente a Kulmann que Chelotti solicitou a investigação
para, menos de um mês depois, dar o caso por encerrado.
Não instaurou nenhum dos inquéritos e devolveu
o processo ao Ministério Público. No início
deste mês, depois de mais de dois anos perdidos na
teia da burocracia, o caso voltou ao MP do Rio, que recomendou
ao MP de Brasília que denuncie o ex-diretor Chelotti
por crime de prevaricação.
A denúncia foi feita por uma policial do Rio, que
se dizia indignada com a atitude dos colegas. Num documento
de dez páginas, fez detalhadas descrições
de como seus pares estavam montados sobre um esquema paralelo
de prestação de serviços particulares
de segurança a artistas, empresários e personalidades.
Uma prática que, embora bastante comum, é
proibida por lei. Além disso, falava sobre a venda
de passaportes a pessoas impedidas de sair do país,
venda de porte de armas e recebimento de propina, entre
outros delitos menos graves. Pedir ao próprio acusado
que investigasse as acusações pareceu estranho
aos procuradores.
Chelotti e Kulmann são figurões em uma instituição
poderosa. Criada há 36 anos, a PF é a jóia
da coroa entre as polícias do país. Por isso,
é tão sujeita a duas pragas que costumam devastar
sua imagem institucional: as disputas políticas e
o corporativismo. "Sou favorável ao corporativismo,
mas nunca deixei de apurar nenhuma denúncia", afirma
Vicente Chelotti. "As investigações do Rio
mostraram que não havia nada daquilo." Não
é o que pensa o Ministério Público,
que solicitou na semana passada a instauração
dos dez inquéritos que nunca chegaram a ser abertos.
Por via das dúvidas, fez ainda uma recomendação:
a de que desta vez os investigados não acumulem funções
paralelas, sendo também os investigadores.
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