Edição 1 647 -3/5/2000

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Educação

Assalto às crianças

Dinheiro para pagar professores e reformar escolas está sendo desviado por centenas de prefeitos

Quando a superinflação foi domada e as contas puderam ser feitas com maior precisão, descobriu-se que mais da metade do dinheiro destinado às escolas públicas no Brasil se perdia nos desvãos da burocracia ou da desonestidade antes de chegar a seu destino. Um escândalo. Para tolher o desperdício, o governo teve a boa idéia de fazer os repasses de recursos com endereço certo: uma parte vai direto para salários de professores e funcionários de escolas. Outra, para merenda, transporte escolar e assim por diante. Foi criado um fundo, o Fundef, para garantir o treinamento e o pagamento decente de professores e condições mínimas para os alunos estudarem. Funcionou bem durante algum tempo – até que centenas de prefeitos encontrassem formas de fraudar o esquema. A estimativa da comissão da Câmara dos Deputados, que analisa denúncias contra 800 prefeituras, é de que as fraudes no Fundef tenham alcançado 3 bilhões de reais – 21% de toda a verba distribuída pelo fundo no ano passado. O Ministério da Educação não tem um número preciso do montante dos desvios, mas admite que mandou o Ministério Público investigar mais de 500 prefeituras.

 
Moreira Mariz
Alunos de escola pública: estima-se que as fraudes com recursos do Fundef atingiram 3 bilhões de reais

O Fundef distribuiu 13 bilhões de reais em 1998, 14 bilhões em 1999 e, neste ano, está repassando 16 bilhões de reais a prefeituras e governos estaduais. A conta-gotas. Toda sexta-feira entra dinheiro na conta das prefeituras. Para os prefeitos candidatos à reeleição, essa pode ser uma tentação irresistível. "Não sabemos dizer ainda a extensão real das irregularidades", diz o diretor do Fundef, Ulysses Semeghini. A criatividade não tem limite quando o objetivo é desviar recursos da educação. Em Nossa Senhora dos Remédios, no Piauí, cidade com apenas 1.600 estudantes, o prefeito Ronaldo Lages iniciou o ano anunciando a compra de 60.000 cadernos – quase quarenta por criança. Descobriu-se que a fatura era de uma empresa fantasma. Em Umirim, no Ceará, uma pessoa, tida como especialista em questões pedagógicas, foi contratada para dar cursos de capacitação a professores. No recibo de pagamento, a tal especialista deixou a marca de seu polegar. Era analfabeta. No Ceará, o promotor Erionaldo Cruz pediu intervenção em 22 prefeituras. "São casos escabrosos", diz o promotor. No Piauí, o prefeito da cidade de Picos comprou 49.000 tabuadas – sete por aluno. "Aqui no estado o negócio é escandaloso", diz Robert Magalhães, superintendente da Polícia Federal no Piauí. Dos 226 municípios piauienses, 186 estão sob suspeita e três prefeitos perderam o mandato. Na Bahia, o Ministério Público investiga mais 78 cidades. E isso é só o começo.

 
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