Edição 1 647 -3/5/2000

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Entrevista com o superintendente que denuncia corrupção no Ibama

Sem lei na selva

Denúncias de corrupção obrigam o governo
a decretar intervenção no Ibama do Pará

Alexandre Mansur

Oscar Cabral
Corte de madeira no Pará: das 1 324 empresas, metade está na ilegalidade


O ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, decidiu botar o dedo na maior ferida da Amazônia. Na sexta-feira passada, decretou intervenção federal na superintendência do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no Pará. A medida foi tomada a pedido do próprio superintendente do Ibama no Estado, Paulo Castelo Branco, que entregou ao ministro um pacotaço de denúncias que envolvem funcionários do órgão. A questão ambiental no Pará é realmente um escândalo. Responsável pela maior parte da madeira produzida pelo Brasil, o Estado abriga a maior selva de irregularidades e fraudes da Região Norte. Estima-se que 90% das toras sejam extraídas de forma predatória na floresta. Por precaução, o ministro pediu à Procuradoria-Geral da República que envie seu pessoal para supervisionar os trabalhos do interventor, que ainda não foi designado. "Existe um passado de muitos anos de irregularidades na região", admite Marília Marreco, presidente do Ibama.

 
Ricardo Benichio

"Descobri que três ex-superintendentes do Ibama deram autorizações para desmatamentos e planos de manejo em áreas irregulares ou que nem existem."

Paulo Castelo Branco
Superintendente do Ibama no Pará

Os relatos de corrupção de fiscais do Ibama no Pará não são novos. Mas as denúncias que Castelo Branco levou a Brasília vão além de casos isolados, compondo um quadro de corrupção generalizado. Segundo ele, três ex-superintendentes, que ainda trabalham no instituto, são responsáveis por uma centena de autorizações irregulares para a extração e o transporte de madeira. Os documentos referiam-se a áreas inexistentes e eram usados pelos madeireiros para derrubar árvores onde bem entendessem, incluindo reservas ambientais e terras indígenas. O carimbo do Ibama permitia comercializar a madeira extraída de forma irregular. Um dos madeireiros chegou a derrubar mais de 30.000 metros cúbicos ilegalmente. "Recolhi autorizações que eram vendidas pelos funcionários a 4 reais por metro cúbico de madeira", conta Castelo Branco, que agora está temporariamente afastado do cargo.

O superintendente estava no posto havia seis meses, período em que empenhou o órgão numa campanha de moralização do setor madeireiro como nunca se tinha visto. O resultado foi a apreensão de 60.000 metros cúbicos de madeira, quatro vezes mais que a operação Amazônia Fique Legal, organizada pelo Ibama de Brasília, com a ajuda das Forças Armadas. O segredo da eficiência repousava em manter sigilo sobre o local da blitz até o momento da operação, para impedir que os madeireiros fossem avisados. "Isso evita que os funcionários corruptos os alertem", explica Castelo Branco. O Ministério do Meio Ambiente decretou uma devassa similar no Ibama de Mato Grosso em dezembro. A previsão inicial era de que as investigações estivessem completas em dois meses, mas o prazo foi prorrogado para junho. No Pará, a operação de limpeza deve ser ainda mais complicada. Afinal, o setor madeireiro emprega cerca de 90.000 pessoas e corresponde a 13% do PIB do Estado. A devassa deve mexer com os negócios da maioria. Isso porque, segundo estimativa do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), pelo menos metade das 1.324 empresas no Estado opera de forma ilegal.

 
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