De nau a pior
A caravela pifou, Greca foi
demitido, índio
apanhou no dia de sua festa. Nem carnavalesco
teria imaginação para esse enredo
Sandra Brasil e Daniella
Camargos
J. França
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| Marés: o
presidente da
Funai estava com
os dias contados e
aproveitou a confusão
para sair atirando
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A festa dos 500 anos acabou em samba-enredo. Para comemorar
a chegada de Pedro Álvares Cabral a Porto Seguro,
programou-se a aparição de um navio-abre-alas,
uma réplica da nau Capitânia, aquela
que conduziu a frota portuguesa na travessia do Atlântico.
Quando zarpou para o local da festa, o barco ficou cheio
de água e interrompeu a viagem antes que afundasse
com toda a tripulação. Os índios esperados
na festa de 22 de abril, capitaneada pelo presidente Fernando
Henrique Cardoso e seu colega português Jorge Sampaio,
pertenciam a diversas tribos e usavam seus trajes rituais:
penachos, colares, bermudas e sandálias havaianas.
Não satisfeito com o uniforme de praxe, o Ministério
do Esporte e Turismo mandou confeccionar sungas e maiôs
cor da pele, para que os moradores originais do Brasil escondessem
suas vergonhas caso resolvessem aparecer na festa com os
balangandãs de fora. Havia uns 3 000 sem-terra nas
imediações, ameaçando melar a comemoração
oficial com um protesto. Quando os indígenas e os
sem-terra decidiram aproximar-se da ala das autoridades,
entrou em ação a ala da Polícia Militar
baiana, integrada por 5.000 rapazes
bem nutridos. O resultado foi o que se viu na TV. Os índios,
que apanham dos brancos desde os tempos de Cabral, apanharam
novamente, desta vez em companhia dos sem-terra.
Na batalha campal de Porto Seguro, houve pancadas e prisões,
mas apenas uma vítima com cicatrizes de guerra para
mostrar aos netos. Ainda assim, com cicatrizes modestas.
Chama-se José Carlos Araújo Ferreira, 22 anos.
Apesar do sobrenome lusitano, é índio, mora
em Alagoas e voltou para casa com um humilde corte na perna.
De acordo com a polícia e as autoridades federais
envolvidas na segurança do presidente, empregou-se
apenas a força necessária para evitar o pior.
"O gás lacrimogêneo foi lançado para
impedir o contato físico, o confronto com os índios",
afirma o ministro-chefe do Gabinete de Segurança
Institucional, general Alberto Cardoso. Como diz a citação
famosa, a história se repete da primeira vez,
como tragédia; da segunda, como farsa. Quando aqui
desembarcaram há 500 anos, os portugueses não
evitaram o contato físico com os índios. E
com as índias, principalmente. Cinco séculos
depois, as autoridades de Brasília jogam gás
lacrimogêneo na turma da tanga para mantê-la
a distância.
AP
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| Estudantes, índios,
punks
e sem-terra tentam
entrar em Porto
Seguro |
Examinando-se a festa sem as paixões dos que nela
se envolveram fisicamente, tudo terminou bem no fim das
contas. Não houve vítimas graves. O prejuízo
com a caravela avariada vai para os cofres públicos,
sempre tão generosos. Os sem-terra, mesmo tendo recebido
do governo um território equivalente a cinco Dinamarcas,
puderam manifestar seu eterno descontentamento com Brasília.
E isso é o que eles mais gostam de fazer. Os índios,
que pela primeira vez na História brasileira estão
passando por uma fase de crescimento populacional e são
donos de reservas de tamanho superior ao de duas Alemanhas,
também tiveram uma boa oportunidade para relembrar
ao país os cinco séculos de exploração
que sofreram. No governo, também houve ganhos. O
presidente Fernando Henrique Cardoso arrumou por fim um
pretexto inamovível para derrubar o ministro que
organizou a festa dos 500 anos, o paranaense Rafael Greca,
do Esporte e Turismo, demitido na quinta-feira passada.
É obrigatório relembrar que Greca estava marcado
para a demissão havia meses, desde que começaram
os rumores sobre aqueles negócios esquisitos com
bingos. A festa do Descobrimento só forneceu a gota
d'água que faltava. Amante dos detalhes, o ministro
fez questão de colocar a insígnia dourada
de deputado na lapela do paletó antes de conversar
com o presidente FHC sobre sua saída. "Desde a minha
posse como ministro, ela estava guardada na gaveta da mesa
de cabeceira", diz Greca. Depois da demissão, para
relaxar, Greca ouvia concerto de Bach para flauta no seu
gabinete decorado com as cores da bandeira nacional, enquanto
sua mulher, Margarita, andava pela sala com uma máquina
fotográfica. "Margarita, a bênção
da minha vida, está fotografando o gabinete para
nós levarmos de lembrança", explicou o ex-ministro.
Esse vai fazer falta.
O presidente da Fundação Nacional do Índio,
Carlos Frederico Marés, decidiu pedir demissão
quando viu no que deu a festa. "Não posso permanecer
num governo que faz uma agressão física ao
movimento indígena organizado", declarou. "O confronto
foi um ato de violência comparável à
repressão militar da década de 60", disse.
Perceba-se: numa mesma semana, FHC foi comparado a Collor
e a Costa e Silva, Médici, Geisel... Colocado na
presidência da Funai pelo ex-ministro da Justiça
José Carlos Dias, Marés não se entendia
com o novo ministro, José Gregori, e seria demitido
mais cedo ou mais tarde. Provavelmente mais cedo. Teve a
esperteza de politizar a sua saída.
Assim, a festa dos 500 anos acabou em Marquês de
Sapucaí. Talvez uma das razões desse desenlace
maravilhosamente brasileiro seja a feliz intervenção
do caráter afável que o habitante desta terra
adquiriu no cruzamento das três raças que dão
o eixo dominante de seu temperamento. Durante os cinco séculos
de sua História, o Brasil passou por muitos períodos
de brutalidade, exercida invariavelmente contra os elementos
mais frágeis de sua população. Os índios
eram 6 milhões no Descobrimento e são apenas
350 000 hoje. Os negros foram para o canavial, a senzala
e o açoite. É preciso não esquecer,
no entanto, que o Brasil nunca teve guerras religiosas ou
étnicas produzidas com a mortandade que se vê
ainda hoje em outros países. Há uma língua
geral e uma cultura comum num território que poderia
ter-se estilhaçado em dezenas de países, não
fosse a herança que o brasileiro carrega de sentir-se
membro de uma mesma nação, do Pará
ao Rio Grande do Sul. Porto Seguro foi, na semana passada,
um bom símbolo do Brasil cinco séculos depois
do Descobrimento. Muito discurso, muito lufa-lufa, muito
mau teatro de todos os lados e, no fim, todo mundo de volta
à rotina na Quarta-feira de Cinzas.
Agliberto Lima/AE
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| A vítima
mais grave: corte
na perna por causa de
uma bomba de gás |
Não se poderia pedir a estrangeiros que vissem a
festa como acontecimento pitoresco. No dia seguinte, os
ecos da comemoração, embalados pela indignação
das ONGs, espalhavam-se por publicações de
todo o mundo. Nas manchetes, o país de FHC ficou
muito mal. "Brasil comemora 500 anos reprimindo índios",
escreveu o jornal francês Le Monde. O britânico
The Observer: "Índios lideram protestos enquanto
o Brasil festeja". O espanhol El País: "Amargo
quinto centenário no Brasil". Qualquer coisa que
se diga em favor dos índios brasileiros será
pouco, porque a dívida do país com eles é
pesadíssima. Não se pode afirmar o mesmo em
relação aos integrantes do Movimento dos Sem-Terra,
também barrados pela PM na festa de Porto Seguro.
Como parte das comemorações dos 500 anos,
o MST programou 500 invasões espalhadas pelo Brasil.
Poucos dias antes do festejo, o MST estava numa cidade vizinha
a Porto Seguro e havia programado uma marcha de protesto
até o local do evento oficial. "Queremos protestar
contra 500 anos de latifúndio", disse Valmir Assunção,
da coordenação nacional do movimento. Insuflados
pelos padres do Conselho Indigenista Missionário
e da Comissão Pastoral da Terra, índios e
sem-terra decidiram fazer sua marcha para deixar claro que
eram contra o governo. Encontraram reforço junto
a integrantes do movimento negro, sindicatos e até
um curioso grupo de punks, que aderiu. A polícia
ergueu dez barreiras para impedir o acesso dos manifestantes
a Porto Seguro e conseguiu barrá-los.
Wilson Besnisik/A Tarde
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