Edição 1 647 -3/5/2000

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De nau a pior

A caravela pifou, Greca foi demitido, índio
apanhou no dia de sua festa. Nem carnavalesco
teria imaginação para esse enredo

Sandra Brasil e Daniella Camargos

J. França
Marés: o presidente da Funai estava com os dias contados e aproveitou a confusão para sair atirando


A festa dos 500 anos acabou em samba-enredo. Para comemorar a chegada de Pedro Álvares Cabral a Porto Seguro, programou-se a aparição de um navio-abre-alas, uma réplica da nau Capitânia, aquela que conduziu a frota portuguesa na travessia do Atlântico. Quando zarpou para o local da festa, o barco ficou cheio de água e interrompeu a viagem antes que afundasse com toda a tripulação. Os índios esperados na festa de 22 de abril, capitaneada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e seu colega português Jorge Sampaio, pertenciam a diversas tribos e usavam seus trajes rituais: penachos, colares, bermudas e sandálias havaianas. Não satisfeito com o uniforme de praxe, o Ministério do Esporte e Turismo mandou confeccionar sungas e maiôs cor da pele, para que os moradores originais do Brasil escondessem suas vergonhas caso resolvessem aparecer na festa com os balangandãs de fora. Havia uns 3 000 sem-terra nas imediações, ameaçando melar a comemoração oficial com um protesto. Quando os indígenas e os sem-terra decidiram aproximar-se da ala das autoridades, entrou em ação a ala da Polícia Militar baiana, integrada por 5.000 rapazes bem nutridos. O resultado foi o que se viu na TV. Os índios, que apanham dos brancos desde os tempos de Cabral, apanharam novamente, desta vez em companhia dos sem-terra.

Na batalha campal de Porto Seguro, houve pancadas e prisões, mas apenas uma vítima com cicatrizes de guerra para mostrar aos netos. Ainda assim, com cicatrizes modestas. Chama-se José Carlos Araújo Ferreira, 22 anos. Apesar do sobrenome lusitano, é índio, mora em Alagoas e voltou para casa com um humilde corte na perna. De acordo com a polícia e as autoridades federais envolvidas na segurança do presidente, empregou-se apenas a força necessária para evitar o pior. "O gás lacrimogêneo foi lançado para impedir o contato físico, o confronto com os índios", afirma o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Alberto Cardoso. Como diz a citação famosa, a história se repete – da primeira vez, como tragédia; da segunda, como farsa. Quando aqui desembarcaram há 500 anos, os portugueses não evitaram o contato físico com os índios. E com as índias, principalmente. Cinco séculos depois, as autoridades de Brasília jogam gás lacrimogêneo na turma da tanga para mantê-la a distância.

AP
Estudantes, índios, punks e sem-terra tentam entrar em Porto Seguro


Examinando-se a festa sem as paixões dos que nela se envolveram fisicamente, tudo terminou bem no fim das contas. Não houve vítimas graves. O prejuízo com a caravela avariada vai para os cofres públicos, sempre tão generosos. Os sem-terra, mesmo tendo recebido do governo um território equivalente a cinco Dinamarcas, puderam manifestar seu eterno descontentamento com Brasília. E isso é o que eles mais gostam de fazer. Os índios, que pela primeira vez na História brasileira estão passando por uma fase de crescimento populacional e são donos de reservas de tamanho superior ao de duas Alemanhas, também tiveram uma boa oportunidade para relembrar ao país os cinco séculos de exploração que sofreram. No governo, também houve ganhos. O presidente Fernando Henrique Cardoso arrumou por fim um pretexto inamovível para derrubar o ministro que organizou a festa dos 500 anos, o paranaense Rafael Greca, do Esporte e Turismo, demitido na quinta-feira passada. É obrigatório relembrar que Greca estava marcado para a demissão havia meses, desde que começaram os rumores sobre aqueles negócios esquisitos com bingos. A festa do Descobrimento só forneceu a gota d'água que faltava. Amante dos detalhes, o ministro fez questão de colocar a insígnia dourada de deputado na lapela do paletó antes de conversar com o presidente FHC sobre sua saída. "Desde a minha posse como ministro, ela estava guardada na gaveta da mesa de cabeceira", diz Greca. Depois da demissão, para relaxar, Greca ouvia concerto de Bach para flauta no seu gabinete decorado com as cores da bandeira nacional, enquanto sua mulher, Margarita, andava pela sala com uma máquina fotográfica. "Margarita, a bênção da minha vida, está fotografando o gabinete para nós levarmos de lembrança", explicou o ex-ministro. Esse vai fazer falta.

O presidente da Fundação Nacional do Índio, Carlos Frederico Marés, decidiu pedir demissão quando viu no que deu a festa. "Não posso permanecer num governo que faz uma agressão física ao movimento indígena organizado", declarou. "O confronto foi um ato de violência comparável à repressão militar da década de 60", disse. Perceba-se: numa mesma semana, FHC foi comparado a Collor e a Costa e Silva, Médici, Geisel... Colocado na presidência da Funai pelo ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, Marés não se entendia com o novo ministro, José Gregori, e seria demitido mais cedo ou mais tarde. Provavelmente mais cedo. Teve a esperteza de politizar a sua saída.

Assim, a festa dos 500 anos acabou em Marquês de Sapucaí. Talvez uma das razões desse desenlace maravilhosamente brasileiro seja a feliz intervenção do caráter afável que o habitante desta terra adquiriu no cruzamento das três raças que dão o eixo dominante de seu temperamento. Durante os cinco séculos de sua História, o Brasil passou por muitos períodos de brutalidade, exercida invariavelmente contra os elementos mais frágeis de sua população. Os índios eram 6 milhões no Descobrimento e são apenas 350 000 hoje. Os negros foram para o canavial, a senzala e o açoite. É preciso não esquecer, no entanto, que o Brasil nunca teve guerras religiosas ou étnicas produzidas com a mortandade que se vê ainda hoje em outros países. Há uma língua geral e uma cultura comum num território que poderia ter-se estilhaçado em dezenas de países, não fosse a herança que o brasileiro carrega de sentir-se membro de uma mesma nação, do Pará ao Rio Grande do Sul. Porto Seguro foi, na semana passada, um bom símbolo do Brasil cinco séculos depois do Descobrimento. Muito discurso, muito lufa-lufa, muito mau teatro de todos os lados e, no fim, todo mundo de volta à rotina na Quarta-feira de Cinzas.

 
Agliberto Lima/AE
A vítima mais grave: corte na perna por causa de uma bomba de gás

Não se poderia pedir a estrangeiros que vissem a festa como acontecimento pitoresco. No dia seguinte, os ecos da comemoração, embalados pela indignação das ONGs, espalhavam-se por publicações de todo o mundo. Nas manchetes, o país de FHC ficou muito mal. "Brasil comemora 500 anos reprimindo índios", escreveu o jornal francês Le Monde. O britânico The Observer: "Índios lideram protestos enquanto o Brasil festeja". O espanhol El País: "Amargo quinto centenário no Brasil". Qualquer coisa que se diga em favor dos índios brasileiros será pouco, porque a dívida do país com eles é pesadíssima. Não se pode afirmar o mesmo em relação aos integrantes do Movimento dos Sem-Terra, também barrados pela PM na festa de Porto Seguro. Como parte das comemorações dos 500 anos, o MST programou 500 invasões espalhadas pelo Brasil. Poucos dias antes do festejo, o MST estava numa cidade vizinha a Porto Seguro e havia programado uma marcha de protesto até o local do evento oficial. "Queremos protestar contra 500 anos de latifúndio", disse Valmir Assunção, da coordenação nacional do movimento. Insuflados pelos padres do Conselho Indigenista Missionário e da Comissão Pastoral da Terra, índios e sem-terra decidiram fazer sua marcha para deixar claro que eram contra o governo. Encontraram reforço junto a integrantes do movimento negro, sindicatos e até um curioso grupo de punks, que aderiu. A polícia ergueu dez barreiras para impedir o acesso dos manifestantes a Porto Seguro e conseguiu barrá-los.

 

 


Wilson Besnisik/A Tarde

 

 


Joedison Alvves/AE