Democratização uma ova
Miriam Duenhas
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Acabo de ver no meu computador uma imagem ao vivo de um
ponto de ônibus em Zwolle, na Holanda. O ponto está
deserto. É provável que o ônibus tenha
acabado de passar. Frustrado pela falta de movimento no
ponto de ônibus holandês, resolvi verificar
a situação no aeroporto Atraxis, de Zurique.
Depois de assistir a duas decolagens e a uma aterrissagem,
transferi-me para uma rua de Santiago do Chile. Tráfego
livre. Também dei uma controlada no cinzeiro de um
fumante canadense. Havia duas bitucas apagadas. Calculei
que ainda era madrugada no Canadá. O fumante certamente
estava dormindo. De fato, uma legenda avisava que o melhor
horário para pegá-lo fumando era entre 6 e
11 da noite. A seguir, verifiquei se o Monte Fuji continuava
em seu lugar. A resposta foi afirmativa. Por fim, conectei-me
com um chiqueiro americano. Vi um porquinho cor-de-rosa.
Não fui o único a vê-lo. Conforme uma
inscrição que apareceu na tela, 1.201.562
navegantes de internet já haviam explorado esse site
antes de mim.
Quando os irmãos Lumière inventaram a máquina
cinematográfica, começaram a filmar tudo o
que havia em torno deles: o tráfego das carroças,
o vaivém dos pedestres nas ruas de Paris, a saída
dos operários de sua fábrica. Os internautas
fazem exatamente a mesma coisa. Instalam câmaras em
todos os cantos de suas casas e transmitem essas imagens
para o resto do mundo. É como se os irmãos
Lumière não tivessem existido. Como se o último
século tivesse passado em vão. A internet
representa uma espécie de regressão histórica.
Voltamos a um estado em que vale qualquer imagem, qualquer
palavra. No decorrer de minha navegação, espiei,
por exemplo, o quarto desarrumado de uma certa Valerie,
de 17 anos de idade. Depois peguei um primeiro plano fora
de foco de Rachel. Depois descobri que a americana de origem
chinesa Lorraine é faixa vermelha de tae-kwon-do.
Depois acompanhei um breve espetáculo de Pat, que
canta karaokê enquanto guia seu carro.
Li que uma das pioneiras desse negócio de transmitir
a própria intimidade via internet foi Jennifer Ringley.
Ela se tornou uma celebridade da rede. Em seu site, é
possível seguir as imagens de seu dia-a-dia e colher
inúmeras notícias úteis a seu respeito.
Nasceu em 1976, seus pais se chamam George e Jean, formou-se
em economia, tem um Mustang vermelho, rói as unhas
e pratica ioga. Jennifer também nos apresenta suas
poesias, mas não posso julgá-las porque dei-lhes
um rápido clique. Tenho uma interessante consideração
a fazer sobre tudo isso. Infelizmente, a interessante consideração
não é minha, mas de Umberto Eco. Ele entende
de internet. Montou um grupo de estudos sobre o assunto
na Universidade de Bolonha. Todo mundo diz que a internet
vai liquidar intermediários como editoras de livros,
distribuidoras de cinema, gravadoras de discos, galerias
de arte, jornais, revistas, canais de TV. Em teoria, o acesso
às informações será completamente
livre. Para Umberto Eco, isso é uma mistificação.
Com milhões e milhões de Jennifer Ringleys
lançando suas poesias na rede, quem é que
vai peneirar o que presta e o que não presta? É
aí que entram novamente em jogo os editores, os jornais,
as revistas. Eles terão a tarefa de fazer a triagem.
Democratização uma ova. Por pior que venha
a ser, a nova sociedade informática também
terá de aprender a depurar o lixo.