Edição 1 647 -3/5/2000

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Democratização uma ova


Miriam Duenhas


Acabo de ver no meu computador uma imagem ao vivo de um ponto de ônibus em Zwolle, na Holanda. O ponto está deserto. É provável que o ônibus tenha acabado de passar. Frustrado pela falta de movimento no ponto de ônibus holandês, resolvi verificar a situação no aeroporto Atraxis, de Zurique. Depois de assistir a duas decolagens e a uma aterrissagem, transferi-me para uma rua de Santiago do Chile. Tráfego livre. Também dei uma controlada no cinzeiro de um fumante canadense. Havia duas bitucas apagadas. Calculei que ainda era madrugada no Canadá. O fumante certamente estava dormindo. De fato, uma legenda avisava que o melhor horário para pegá-lo fumando era entre 6 e 11 da noite. A seguir, verifiquei se o Monte Fuji continuava em seu lugar. A resposta foi afirmativa. Por fim, conectei-me com um chiqueiro americano. Vi um porquinho cor-de-rosa. Não fui o único a vê-lo. Conforme uma inscrição que apareceu na tela, 1.201.562 navegantes de internet já haviam explorado esse site antes de mim.

Quando os irmãos Lumière inventaram a máquina cinematográfica, começaram a filmar tudo o que havia em torno deles: o tráfego das carroças, o vaivém dos pedestres nas ruas de Paris, a saída dos operários de sua fábrica. Os internautas fazem exatamente a mesma coisa. Instalam câmaras em todos os cantos de suas casas e transmitem essas imagens para o resto do mundo. É como se os irmãos Lumière não tivessem existido. Como se o último século tivesse passado em vão. A internet representa uma espécie de regressão histórica. Voltamos a um estado em que vale qualquer imagem, qualquer palavra. No decorrer de minha navegação, espiei, por exemplo, o quarto desarrumado de uma certa Valerie, de 17 anos de idade. Depois peguei um primeiro plano fora de foco de Rachel. Depois descobri que a americana de origem chinesa Lorraine é faixa vermelha de tae-kwon-do. Depois acompanhei um breve espetáculo de Pat, que canta karaokê enquanto guia seu carro.

Li que uma das pioneiras desse negócio de transmitir a própria intimidade via internet foi Jennifer Ringley. Ela se tornou uma celebridade da rede. Em seu site, é possível seguir as imagens de seu dia-a-dia e colher inúmeras notícias úteis a seu respeito. Nasceu em 1976, seus pais se chamam George e Jean, formou-se em economia, tem um Mustang vermelho, rói as unhas e pratica ioga. Jennifer também nos apresenta suas poesias, mas não posso julgá-las porque dei-lhes um rápido clique. Tenho uma interessante consideração a fazer sobre tudo isso. Infelizmente, a interessante consideração não é minha, mas de Umberto Eco. Ele entende de internet. Montou um grupo de estudos sobre o assunto na Universidade de Bolonha. Todo mundo diz que a internet vai liquidar intermediários como editoras de livros, distribuidoras de cinema, gravadoras de discos, galerias de arte, jornais, revistas, canais de TV. Em teoria, o acesso às informações será completamente livre. Para Umberto Eco, isso é uma mistificação. Com milhões e milhões de Jennifer Ringleys lançando suas poesias na rede, quem é que vai peneirar o que presta e o que não presta? É aí que entram novamente em jogo os editores, os jornais, as revistas. Eles terão a tarefa de fazer a triagem. Democratização uma ova. Por pior que venha a ser, a nova sociedade informática também terá de aprender a depurar o lixo.