A maldição
dos esqueletos
"Não
resolveremos nossos problemas de
injustiça, pobreza e desigualdade
cobrando as contas do passado"
Ilustração
Ale Setti
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Um fantasma recorrente assombra o governo, trazendo sempre
de volta os fracassados planos de estabilização.
Todos nos lembramos: Cruzado, Bresser, Verão, Collor
1 e Collor 2. A assombração aparece na sentença
de algum juiz e vai se avolumando, até chegar a Brasília,
no Superior Tribunal de Justiça e no Supremo Tribunal
Federal. Cada vez que um desses esqueletos aparece, vemos
o Tesouro ameaçado de desembolsar somas gigantescas,
trazendo para o presente todas as perdas, erros de cálculo
e exageros que um passado tão conturbado quanto o
nosso permite. Desta vez, o STF examina a correção
dos saldos do FGTS.
Ao se discutir cada
demanda em si, ao pé da letra da lei, talvez a maioria
tenha respaldo legal. Mesmo se cada uma é avaliada
sob o prisma da Justiça, no plano individual é
difícil dizer que são injustas ou inválidas.
Mas a questão não é tão simples
assim. Este não é um país de história
comum. Nos últimos 25 anos, vivemos situações
absolutamente anormais, pelas quais já pagamos muito
caro. Tivemos uma situação única, que
nos levou ao paroxismo da inflação e da indexação.
Criamos uma cultura de defesa das rendas, em que tudo se
afigurava como perda que deveria ser compensada. Fingíamos
que compensávamos perdas, mas a inflação
anulava qualquer reposição. Esta cultura da
indexação sustenta boa parte das demandas
atuais. Não nego que tenha havido perdas. A inflação
é uma forma de distribuí-las sem assumir responsabilidades.
E sempre perderam os despossuídos, os menos capazes
de se indexar.
Só tomei consciência
de que vivíamos situação anormalíssima,
de hiperinflação disfarçada, quando
gastei 2 milhões da moeda da época apenas
para encher o tanque do carro de gasolina de qualidade discutível.
A sociedade brasileira estava gravemente doente e não
admitia. Era preciso vencer esse mal a qualquer preço.
Nessa luta, cometeu-se uma grande quantidade de abusos,
atropelou-se a lei. Era como uma guerra. E, como na guerra,
algumas atrocidades eram mesmo inaceitáveis. Foi
o caso do confisco da pequena poupança dos brasileiros
pelo Plano Collor 1. Contei esta minha descoberta da hiperinflação
brasileira em artigo publicado no livro que comemorou os
25 anos de VEJA, em 1993, no qual falava do homo indexadus,
uma espécie que inventamos, coisa nossa, do homo
economicus, que dominava uma tecnologia adaptativa,
o que lhe permitia viver num ambiente hostil de hiperinflação.
Caracterizei o Brasil
como um paciente que entra numa UTI com o organismo destroçado:
o colesterol lá no alto, excesso de peso, falta de
exercício, excesso de estresse. Fica tanto tempo
internado que acaba curado desses problemas pela dieta e
pelo isolamento hospitalar. Mas não sai de lá,
porque a doença verdadeira é outra e ele toma
o remédio errado. O remédio errado são
as medidas que redundam em mais inflação e
as usadas para mitigá-la. O homo indexadus,
porque já vivia na hiperinflação, era
capaz de agüentar qualquer índice mensal de
inflação. Bastava que a correção
monetária lhe fosse próxima. Mas reagia violentamente
se o índice saltava para patamar superior. Por quê?
Porque a correção ficava abaixo dele.
O Brasil curou-se desse
mal. Pelo menos passa muito bem de inflação
desde 1994. Não agüenta mais qualquer índice.
Os esqueletos que trazem para a normalidade de hoje as anormalidades
do passado podem voltar a infeccionar o organismo econômico
brasileiro. Não resolveremos nossos problemas de
injustiça, pobreza e desigualdade cobrando as contas
do passado. É preciso um marco zero, a partir do
qual, com nosso sistema econômico sadio, possamos,
então, corrigir seus desvios morais. É preciso
evitar que a estabilidade pague com a inflação
os erros das tentativas passadas de estabilização.
Jorge Luis Borges uma vez definiu o presente como o momento
que contém um pouco de passado e um pouco de futuro.
O nosso contém ainda muito passado e é preciso
que ele não mate o futuro que queremos ter.
Sérgio Abranches
é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)