Edição 1 647 -3/5/2000

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A maldição dos esqueletos

"Não resolveremos nossos problemas de
injustiça, pobreza e desigualdade
cobrando as contas do passado"


Ilustração Ale Setti


Um fantasma recorrente assombra o governo, trazendo sempre de volta os fracassados planos de estabilização. Todos nos lembramos: Cruzado, Bresser, Verão, Collor 1 e Collor 2. A assombração aparece na sentença de algum juiz e vai se avolumando, até chegar a Brasília, no Superior Tribunal de Justiça e no Supremo Tribunal Federal. Cada vez que um desses esqueletos aparece, vemos o Tesouro ameaçado de desembolsar somas gigantescas, trazendo para o presente todas as perdas, erros de cálculo e exageros que um passado tão conturbado quanto o nosso permite. Desta vez, o STF examina a correção dos saldos do FGTS.

Ao se discutir cada demanda em si, ao pé da letra da lei, talvez a maioria tenha respaldo legal. Mesmo se cada uma é avaliada sob o prisma da Justiça, no plano individual é difícil dizer que são injustas ou inválidas. Mas a questão não é tão simples assim. Este não é um país de história comum. Nos últimos 25 anos, vivemos situações absolutamente anormais, pelas quais já pagamos muito caro. Tivemos uma situação única, que nos levou ao paroxismo da inflação e da indexação. Criamos uma cultura de defesa das rendas, em que tudo se afigurava como perda que deveria ser compensada. Fingíamos que compensávamos perdas, mas a inflação anulava qualquer reposição. Esta cultura da indexação sustenta boa parte das demandas atuais. Não nego que tenha havido perdas. A inflação é uma forma de distribuí-las sem assumir responsabilidades. E sempre perderam os despossuídos, os menos capazes de se indexar.

Só tomei consciência de que vivíamos situação anormalíssima, de hiperinflação disfarçada, quando gastei 2 milhões da moeda da época apenas para encher o tanque do carro de gasolina de qualidade discutível. A sociedade brasileira estava gravemente doente e não admitia. Era preciso vencer esse mal a qualquer preço. Nessa luta, cometeu-se uma grande quantidade de abusos, atropelou-se a lei. Era como uma guerra. E, como na guerra, algumas atrocidades eram mesmo inaceitáveis. Foi o caso do confisco da pequena poupança dos brasileiros pelo Plano Collor 1. Contei esta minha descoberta da hiperinflação brasileira em artigo publicado no livro que comemorou os 25 anos de VEJA, em 1993, no qual falava do homo indexadus, uma espécie que inventamos, coisa nossa, do homo economicus, que dominava uma tecnologia adaptativa, o que lhe permitia viver num ambiente hostil de hiperinflação.

Caracterizei o Brasil como um paciente que entra numa UTI com o organismo destroçado: o colesterol lá no alto, excesso de peso, falta de exercício, excesso de estresse. Fica tanto tempo internado que acaba curado desses problemas pela dieta e pelo isolamento hospitalar. Mas não sai de lá, porque a doença verdadeira é outra e ele toma o remédio errado. O remédio errado são as medidas que redundam em mais inflação e as usadas para mitigá-la. O homo indexadus, porque já vivia na hiperinflação, era capaz de agüentar qualquer índice mensal de inflação. Bastava que a correção monetária lhe fosse próxima. Mas reagia violentamente se o índice saltava para patamar superior. Por quê? Porque a correção ficava abaixo dele.

O Brasil curou-se desse mal. Pelo menos passa muito bem de inflação desde 1994. Não agüenta mais qualquer índice. Os esqueletos que trazem para a normalidade de hoje as anormalidades do passado podem voltar a infeccionar o organismo econômico brasileiro. Não resolveremos nossos problemas de injustiça, pobreza e desigualdade cobrando as contas do passado. É preciso um marco zero, a partir do qual, com nosso sistema econômico sadio, possamos, então, corrigir seus desvios morais. É preciso evitar que a estabilidade pague com a inflação os erros das tentativas passadas de estabilização. Jorge Luis Borges uma vez definiu o presente como o momento que contém um pouco de passado e um pouco de futuro. O nosso contém ainda muito passado e é preciso que ele não mate o futuro que queremos ter.

Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)