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| Ilustração Beto Nejme |
Diz-se que a econometria é a arte de explicar matematicamente por que as teorias de ontem, que não deram certo hoje, vão dar certo amanhã. E o ditado vulgar é que é perigoso fazer prognósticos, especialmente sobre o futuro.
Lembro-me de três livros que nas últimas décadas divulgaram discrepantes profecias. O primeiro, de Jean Servan-Schreiber, da década de 70, intitulado O Desafio Americano, era um tratado de europessimismo. Previa a dominação da Europa pelas multinacionais ianques agressivas e supercapitalizadas. O segundo, de Ezra Vogel, intitulado Japão, o Número Um, da década de 80, previa, ao contrário, a superação dos Estados Unidos pelo irresistível crescimento japonês. Foi a década do triunfalismo asiático. Na década dos 90, o historiador Paul Kennedy, num retrospecto de 500 anos, Ascensão e Queda das Grandes Potências, lançava a tese do "decadentismo" americano, pela crescente desproporção entre tarefas assumidas e recursos mobilizáveis.
A História recente não confirma nem o europessimismo, nem o nipo-triunfalismo, nem o decadentismo americano. Após um período de contração, oriundo em parte da alta de juros provocada pela reunificação alemã e, em parte, da contenção fiscal exigida pelo Tratado de Maastricht, a Europa se prepara para ingressar no novo milênio num surto de expansão econômica. Os dois aspectos mais positivos são a implantação da moeda única, que criará um mercado financeiro unificado, e o contágio da obsessão tecnológica americana, que está provocando um avanço na biotecnologia e nas telecomunicações. Está-se formando uma cultura econômica unificada nos dois lados do Atlântico, tendo a Europa absorvido vários dos elementos fundamentais da "business culture" americana: escolas de administração de negócios, maior respeito pelo acionista "impaciente", padrões contábeis mais transparentes, inovações financeiras e febre de fusões e incorporações. Não poderia haver maior refutação do europessimismo de Servan-Schreiber do que as recentes aquisições européias da Chrysler pela Daimler, da Amoco pela BP e do Bankers Trust pelo Deutsche Bank.
O livro de Ezra Vogel refletiu um momento singular em que o dinamismo asiático ameaçava transformar o próximo século num "século do Pacífico". O Japão se transformara no maior credor mundial, comprando o Rockefeller Center e outras propriedades americanas de prestígio simbólico. E, conquanto inferior em ciência pura, parecia invencível em tecnologias aplicadas ao consumo, dominando a garagem por meio da indústria automobilística, depois a sala, com televisores e videocassetes, e, finalmente, a cozinha, com fornos de microondas. Hoje o panorama é diferente. Os japoneses, vitimados por prolongada recessão e prisioneiros de uma "armadilha da liquidez", estão experimentando sua década perdida. O espetacular avanço dos Tigres Asiáticos foi interrompido pela grande crise financeira de 1997, da qual apenas a Coréia do Sul parece estar emergindo. Na China continental há ainda robusto crescimento, mas começam a ser sentidos os efeitos de um boom imobiliário desordenado, avolumando-se o problema do desemprego com a liquidação de estatais deficitárias.
Registre-se uma vantagem da aliança ocidental sobre o complexo asiático: a hegemonia americana é vista como benigna (pois que isenta de ambições territoriais) enquanto o impulso hegemônico chinês é visto com ciúme pelo Japão e com suspicácia pelo resto da Ásia, intranqüila quanto às pretensões territoriais chinesas sobre ilhas potencialmente petrolíferas nos mares do sul.
O perigo das profecias é ilustrado também pela "nova perplexidade". Governos e bancos centrais se concentraram obsessivamente neste pós-guerra na luta contra a inflação, que hoje nos países ricos é a mais baixa dos últimos cinqüenta anos. Mas começam a surgir no Japão e na Europa evidências de excessiva capacidade ociosa, trazendo à arena um inimigo diferente a deflação. Será que os economistas, como sói acontecer aos generais, só estão preparados para lutar a guerra passada?
Roberto
Campos, embaixador, foi deputado federal,
senador e ministro do Planejamento
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S.A. |