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Livros Execução
adiada Saramago volta à boa forma num
romance em que a Morte faz greve 
Moacyr Scliar
Em seu novo romance, As Intermitências
da Morte (Companhia das Letras; 207 páginas; 35 reais), o português
José Saramago fala sobre um país fictício cujos habitantes,
de uma hora para outra, deixam de morrer, aí incluídos os doentes
terminais. Passado o júbilo inicial, surgem os problemas. As funerárias
têm prejuízo, assim como as seguradoras (quem vai querer seguro de
vida numa situação dessas?). Hospitais e asilos ficam superlotados
e o governo se vê na iminência da bancarrota, diante da perspectiva
de aumento das pensões e aposentadorias. Como de praxe nos livros de Saramago,
o leitor terá de suspender a apreciação lógica e realista
para deixar-se levar pela imaginosa história. Aconselha-se também
que esqueça os eventuais exageros a que esse peculiar enfoque narrativo
possa ter levado no passado recente. As Intermitências da Morte é
uma grata surpresa: uma narrativa curta que lembra o Saramago de A Jangada
de Pedra o livro em que a Península Ibérica se desgarra
do resto da Europa e passa a flutuar pelo Atlântico.
Os personagens de Saramago, como os das obras do checo Franz Kafka, são
presas de situações insólitas e, freqüentemente, angustiantes.
Mas, enquanto as engrenagens do universo kafkiano são sempre obscuras e
intangíveis, Saramago um comunista de velha cepa é
muito mais óbvio na maneira como associa suas tramas à existência
de um sistema político e econômico que abomina. Em As Intermitências
da Morte, o engajamento também se faz presente. Na primeira parte do
livro, predomina a crítica social, de certo modo relacionada com os problemas
econômicos gerados pelo aumento da expectativa de vida na União Européia.
Também se pode ver no texto uma oblíqua alusão aos conflitos
com emigrantes no continente. Como a suspensão dos óbitos só
ocorre em um país, o jeito é atravessar as fronteiras para morrer
em outro mas, enfurecidos, os governos vizinhos destacam tropas para guarnecer
suas fronteiras. Embora não
deixe de lado o engajamento, Saramago investe mais em outros dois elementos: a
sátira e a discussão sobre a finitude da vida. Aí reside
o trunfo de As Intermitências da Morte: o romance significa um reencontro
com um escritor que se move com maestria no terreno da fantasia e do humor. Dias
depois da suspensão dos óbitos, um diretor de TV recebe uma carta
anunciando que a população voltará a morrer. De fato, isso
ocorre. A partir daí, a história muda, tornando-se mais intimista
e mais pungente. Somos apresentados à Morte, que surge como a clássica
figura do esqueleto que empunha uma foice. Também ela tem seus problemas:
um violoncelista que já deveria ter morrido ainda vive, porque não
recebeu sua carta de aviso. A Morte então assume a forma de uma linda mulher,
que entregará a carta pessoalmente. Morrer confunde-se com sedução
e Saramago faz da Morte uma personagem pela qual o leitor pode ser arrebatado
sem medo e até com encanto.
| Vidas sem fim
"No
dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário
às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação
enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que
não havia notícia nos quarenta volumes da história universal,
nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno
semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte
e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem
que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio
levado a bom fim, nada de nada." | |
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