Edição 1929 . 2 de novembro de 2005

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Livros
Execução adiada

Saramago volta à boa forma num
romance em que a Morte faz greve


Moacyr Scliar

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Trecho do livro

Em seu novo romance, As Intermitências da Morte (Companhia das Letras; 207 páginas; 35 reais), o português José Saramago fala sobre um país fictício cujos habitantes, de uma hora para outra, deixam de morrer, aí incluídos os doentes terminais. Passado o júbilo inicial, surgem os problemas. As funerárias têm prejuízo, assim como as seguradoras (quem vai querer seguro de vida numa situação dessas?). Hospitais e asilos ficam superlotados e o governo se vê na iminência da bancarrota, diante da perspectiva de aumento das pensões e aposentadorias. Como de praxe nos livros de Saramago, o leitor terá de suspender a apreciação lógica e realista para deixar-se levar pela imaginosa história. Aconselha-se também que esqueça os eventuais exageros a que esse peculiar enfoque narrativo possa ter levado no passado recente. As Intermitências da Morte é uma grata surpresa: uma narrativa curta que lembra o Saramago de A Jangada de Pedra – o livro em que a Península Ibérica se desgarra do resto da Europa e passa a flutuar pelo Atlântico.

Os personagens de Saramago, como os das obras do checo Franz Kafka, são presas de situações insólitas e, freqüentemente, angustiantes. Mas, enquanto as engrenagens do universo kafkiano são sempre obscuras e intangíveis, Saramago – um comunista de velha cepa – é muito mais óbvio na maneira como associa suas tramas à existência de um sistema político e econômico que abomina. Em As Intermitências da Morte, o engajamento também se faz presente. Na primeira parte do livro, predomina a crítica social, de certo modo relacionada com os problemas econômicos gerados pelo aumento da expectativa de vida na União Européia. Também se pode ver no texto uma oblíqua alusão aos conflitos com emigrantes no continente. Como a suspensão dos óbitos só ocorre em um país, o jeito é atravessar as fronteiras para morrer em outro – mas, enfurecidos, os governos vizinhos destacam tropas para guarnecer suas fronteiras.

Embora não deixe de lado o engajamento, Saramago investe mais em outros dois elementos: a sátira e a discussão sobre a finitude da vida. Aí reside o trunfo de As Intermitências da Morte: o romance significa um reencontro com um escritor que se move com maestria no terreno da fantasia e do humor. Dias depois da suspensão dos óbitos, um diretor de TV recebe uma carta anunciando que a população voltará a morrer. De fato, isso ocorre. A partir daí, a história muda, tornando-se mais intimista e mais pungente. Somos apresentados à Morte, que surge como a clássica figura do esqueleto que empunha uma foice. Também ela tem seus problemas: um violoncelista que já deveria ter morrido ainda vive, porque não recebeu sua carta de aviso. A Morte então assume a forma de uma linda mulher, que entregará a carta pessoalmente. Morrer confunde-se com sedução – e Saramago faz da Morte uma personagem pela qual o leitor pode ser arrebatado sem medo e até com encanto.

 

Vidas sem fim

"No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada."

 

 
 
 
 
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