Edição 1929 . 2 de novembro de 2005

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Música
O bloco das descalças

Por que algumas cantoras têm a mania
de subir ao palco com os pés de fora


Sérgio Martins

 
Mike Blake/Reuters
Marcelo Alves/AE
A inglesa Joss Stone (à esq.) e a baiana Maria Bethânia (à dir.): uma tem medo de cair no palco, a outra pensa que o palco é solo sagrado

Na semana passada, durante sua apresentação num festival, a mato-grossense Vanessa da Mata surpreendeu parte da platéia ao subir ao palco com os pés descalços. Enquanto entoava sua MPB "cabeça", ela deslizava sobre um tapete persa com os dedinhos à mostra. Vanessa não é a única a cultivar esse hábito. O "bloco das divas descalças" é numeroso, no Brasil e no exterior. Adotar um estilo ripongo (como Vanessa) ou apreciar um papo místico já é meio passo – sem sapatos, claro – para fazer parte do clube. É esse o caso das baianas Maria Bethânia e Virginia Rodrigues, da americana Natalie Merchant e da inglesa Joss Stone. Mas há cantoras fora do perfil bicho-grilo que também se rendem ao costume – como a baiana Ivete Sangalo e a cabo-verdiana Cesaria Evora.

Por que uma artista se produz inteira para subir ao palco, mas faz questão de dispensar os calçados? Uma parte delas diz que aderiu ao hábito por comodidade. "Tenho pé de goleiro, cheio de calos", diz Ivete Sangalo. Joss Stone, por sua vez, diz que tem medo de dar vexame. "Corro muito pelo palco. Se tropeçasse, morreria de vergonha", já afirmou. Projetar uma certa imagem de feminilidade também faz parte do jogo. São conhecidos os casos de cantoras de punk-rock que exibem partes do corpo agressivamente, mas seus pés ficam sempre guardados no botinão. A maioria das divas descalças alega, contudo, razões místicas para a sua prática. A idéia de que estar descalço é uma forma de manter a ligação com as "energias do universo" tem raízes na mitologia e nas religiões. Na mitologia grega, por exemplo, o gigante Anteu era invencível enquanto pisasse a terra. Hércules o derrotou ao levantá-lo no ar. Descalçar-se pode ser também uma maneira de expressar humildade ou de manter a pureza de um lugar santo. Hippies tardias como Natalie Merchant endossam esse discurso "telúrico", assim como cantoras brasileiras que têm alguma ligação com o candomblé. Maria Bethânia, por exemplo. "Ao tirar os sapatos e entrar no palco, ela deixa o mundo profano e pisa em solo sagrado", explica uma produtora. Virginia Rodrigues sustenta que, "com os pés nus, é mais fácil captar as forças da Terra". Já Vanessa da Mata faz segredo sobre seus motivos profundos. Mas os profanos um empresário esclarece: "Ela adora imitar a Bethânia".

O ritual das descalças demanda certos cuidados, como um palco acarpetado. Já houve quem se desse mal no contato com a "Mãe Terra". Certa vez, a carioca Olivia Hime não prestou atenção num prego – e saiu do palco toda ensangüentada. "Nunca mais canto descalça", diz. Como Bethânia não abre mão da mania, aqueles que a cercam precisam redobrar a atenção. "Certa vez, tive de vistoriar o chão mais de dez vezes para ter certeza de que nenhuma tachinha havia sobrado", diz uma ex-integrante de sua trupe. Para certas pessoas no meio musical, contudo, não é somente por questão de segurança que a prática deve ser evitada. "Ela mostra apenas que o artista não tem higiene", diz John Neschling, regente da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

 
 
 
 
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