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Música O
bloco das descalças Por que algumas
cantoras têm a mania de subir ao palco com os pés de fora
 Sérgio
Martins Mike
Blake/Reuters
 | Marcelo
Alves/AE
 | | A
inglesa Joss Stone (à esq.) e a baiana Maria Bethânia (à
dir.): uma tem medo de cair no palco, a outra pensa que o palco é solo
sagrado |
Na
semana passada, durante sua apresentação num festival, a mato-grossense
Vanessa da Mata surpreendeu parte da platéia ao subir ao palco com os pés
descalços. Enquanto entoava sua MPB "cabeça", ela deslizava sobre
um tapete persa com os dedinhos à mostra. Vanessa não é a
única a cultivar esse hábito. O "bloco das divas descalças"
é numeroso, no Brasil e no exterior. Adotar um estilo ripongo (como Vanessa)
ou apreciar um papo místico já é meio passo sem sapatos,
claro para fazer parte do clube. É esse o caso das baianas Maria
Bethânia e Virginia Rodrigues, da americana Natalie Merchant e da inglesa
Joss Stone. Mas há cantoras fora do perfil bicho-grilo que também
se rendem ao costume como a baiana Ivete Sangalo e a cabo-verdiana Cesaria
Evora. Por que uma artista se produz
inteira para subir ao palco, mas faz questão de dispensar os calçados?
Uma parte delas diz que aderiu ao hábito por comodidade. "Tenho pé
de goleiro, cheio de calos", diz Ivete Sangalo. Joss Stone, por sua vez, diz que
tem medo de dar vexame. "Corro muito pelo palco. Se tropeçasse, morreria
de vergonha", já afirmou. Projetar uma certa imagem de feminilidade também
faz parte do jogo. São conhecidos os casos de cantoras de punk-rock que
exibem partes do corpo agressivamente, mas seus pés ficam sempre guardados
no botinão. A maioria das divas descalças alega, contudo, razões
místicas para a sua prática. A idéia de que estar descalço
é uma forma de manter a ligação com as "energias do universo"
tem raízes na mitologia e nas religiões. Na mitologia grega, por
exemplo, o gigante Anteu era invencível enquanto pisasse a terra. Hércules
o derrotou ao levantá-lo no ar. Descalçar-se pode ser também
uma maneira de expressar humildade ou de manter a pureza de um lugar santo. Hippies
tardias como Natalie Merchant endossam esse discurso "telúrico", assim
como cantoras brasileiras que têm alguma ligação com o candomblé.
Maria Bethânia, por exemplo. "Ao tirar os sapatos e entrar no palco, ela
deixa o mundo profano e pisa em solo sagrado", explica uma produtora. Virginia
Rodrigues sustenta que, "com os pés nus, é mais fácil captar
as forças da Terra". Já Vanessa da Mata faz segredo sobre seus motivos
profundos. Mas os profanos um empresário esclarece: "Ela adora imitar a
Bethânia". O ritual das descalças
demanda certos cuidados, como um palco acarpetado. Já houve quem se desse
mal no contato com a "Mãe Terra". Certa vez, a carioca Olivia Hime não
prestou atenção num prego e saiu do palco toda ensangüentada.
"Nunca mais canto descalça", diz. Como Bethânia não abre mão
da mania, aqueles que a cercam precisam redobrar a atenção. "Certa
vez, tive de vistoriar o chão mais de dez vezes para ter certeza de que
nenhuma tachinha havia sobrado", diz uma ex-integrante de sua trupe. Para certas
pessoas no meio musical, contudo, não é somente por questão
de segurança que a prática deve ser evitada. "Ela mostra apenas
que o artista não tem higiene", diz John Neschling, regente da Orquestra
Sinfônica do Estado de São Paulo. |