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Cinema Ai
que saudade eu tenho Recordista
absoluto de bilheteria, 2 Filhos de Francisco põe em evidência
a nostalgia do Brasil pelas promessas de um passado recente  Isabela
Boscov
Divulgação
 | | Dablio
(à esq.) e Marcos: a felicidade num casebre do interior |
Prestes
a cravar a marca dos 5 milhões de espectadores a maior do ano, com
ampla folga sobre o segundo colocado, o desenho Madagascar , 2
Filhos de Francisco, que narra a trajetória dos cantores Zezé
Di Camargo e Luciano, é um fenômeno como fazia muito tempo não
se via no país. Parte de seu sucesso se deve ao fato de ser agradável
e bem-feito. A outra parte, a decisiva, está na habilidade com que o filme
ecoa no imaginário do público. Emaranhado num presente maníaco-depressivo,
o Brasil parece ter encontrado uma versão arcádica de si mesmo no
passado recente em que se desenrola boa parte da trama de 2 Filhos de Francisco.
Nascido em 1963, Zezé, o primogênito do lavrador Francisco Camargo,
vive, no filme, uma infância rural embasada em valores fortes e na crença
de que há chances justas para quem trabalha e ousa. O mais curioso é
que, até três meses atrás, o Brasil cinematográfico
das décadas de 60 e 70 era célebre tão-somente como o da
ditadura, da tortura e do falso milagre econômico. Não se trata de
imaginar que Zezé e Luciano estejam, com seu filme, endossando o regime
militar ao plantar uma arcádia bem no meio dele. Antes o contrário:
uma das razões pelas quais filme e platéia se entenderam tão
bem talvez seja que, fora uma ou outra alusão ao clima político
do período, todo ele se desenrola rigorosamente à margem de qualquer
idéia de regime ou sistema. As únicas e vitoriosas
estruturas que existem em 2 Filhos de Francisco são a da família
e a do indivíduo. Quem não puder ajudar que pelo menos não
atrapalhe, parece dizer o filme. A
mensagem é casual, mas sua força fica evidente nos números
colecionados pelo filme do diretor Breno Silveira: nove semanas consecutivas na
liderança de bilheteria (só agora, na décima, ele caiu para
terceiro lugar) e 34 milhões de reais de renda acumulada uma cifra
que o coloca atrás, nos últimos anos, apenas de Titanic,
Homem-Aranha 1 e 2 e A Paixão de Cristo, segundo a
consultoria Filme B. Pela primeira vez também na "retomada", um filme brasileiro
conquista o posto de campeão do ano. Espera-se, ainda, que seu lançamento
em DVD, em 7 de dezembro, movimente meio milhão de cópias. Não
fosse 2 Filhos de Francisco o recordista nacional também naquele
que é o mais arrevesado dos elogios a pirataria , é
provável que esses números alcançassem patamares ainda mais
elevados. Zezé Di Camargo &
Luciano já venderam mais de 20 milhões de CDs e são ícones
do movimento brega-sertanejo. Mas os relatórios dos produtores mostram
que 2 Filhos de Francisco teve desempenho comparável no interior
e nos centros urbanos, nos bairros ricos e na periferia, e da classe A à
E. Parte desse impulso se deve às escolhas concretas do diretor e das roteiristas
Patrícia Andrade e Carolina Kotscho. Ao colocar no centro do enredo um
pai obstinado em dar a seus filhos as oportunidades que ele próprio não
teve, o filme corteja as emoções ancestrais da platéia, independentemente
de sua filiação musical. Há ali ainda o talento de Angelo
Antônio e José Dumont, o encanto dos garotos Dablio Moreira e Marcos
Henrique, que derruba qualquer resistência, e uma vida repleta de lances
dramáticos. Mas é o
que 2 Filhos de Francisco tem de intangível que o fez disparar.
Na junção de todos os seus elementos, o filme localizou um estado
de espírito que vai na contramão da atroz experiência urbana
brasileira e da frustração com o futuro incerto: a nostalgia de
uma vida sacrificada mas simples, na qual lealdade, união e tenacidade
eram bens de valor. No desfecho, o verdadeiro Zezé diz a seu irmão
Luciano que nunca foi tão feliz quanto no casebre do interior goiano em
que passou seus primeiros anos. Duas horas antes, a afirmação soaria
como pose. Servindo de conclusão ao filme, ela faz a platéia acreditar
que Zezé pode muito bem ser sincero. |