Edição 1929 . 2 de novembro de 2005

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Cinema
Ai que saudade eu tenho

Recordista absoluto de bilheteria,
2 Filhos de Francisco põe em evidência
a nostalgia do Brasil pelas promessas
de um passado recente


Isabela Boscov

 
Divulgação
Dablio (à esq.) e Marcos: a felicidade num casebre do interior

Prestes a cravar a marca dos 5 milhões de espectadores – a maior do ano, com ampla folga sobre o segundo colocado, o desenho Madagascar –, 2 Filhos de Francisco, que narra a trajetória dos cantores Zezé Di Camargo e Luciano, é um fenômeno como fazia muito tempo não se via no país. Parte de seu sucesso se deve ao fato de ser agradável e bem-feito. A outra parte, a decisiva, está na habilidade com que o filme ecoa no imaginário do público. Emaranhado num presente maníaco-depressivo, o Brasil parece ter encontrado uma versão arcádica de si mesmo no passado recente em que se desenrola boa parte da trama de 2 Filhos de Francisco. Nascido em 1963, Zezé, o primogênito do lavrador Francisco Camargo, vive, no filme, uma infância rural embasada em valores fortes e na crença de que há chances justas para quem trabalha e ousa. O mais curioso é que, até três meses atrás, o Brasil cinematográfico das décadas de 60 e 70 era célebre tão-somente como o da ditadura, da tortura e do falso milagre econômico. Não se trata de imaginar que Zezé e Luciano estejam, com seu filme, endossando o regime militar ao plantar uma arcádia bem no meio dele. Antes o contrário: uma das razões pelas quais filme e platéia se entenderam tão bem talvez seja que, fora uma ou outra alusão ao clima político do período, todo ele se desenrola rigorosamente à margem de qualquer idéia de regime ou sistema. As únicas – e vitoriosas – estruturas que existem em 2 Filhos de Francisco são a da família e a do indivíduo. Quem não puder ajudar que pelo menos não atrapalhe, parece dizer o filme.

A mensagem é casual, mas sua força fica evidente nos números colecionados pelo filme do diretor Breno Silveira: nove semanas consecutivas na liderança de bilheteria (só agora, na décima, ele caiu para terceiro lugar) e 34 milhões de reais de renda acumulada – uma cifra que o coloca atrás, nos últimos anos, apenas de Titanic, Homem-Aranha 1 e 2 e A Paixão de Cristo, segundo a consultoria Filme B. Pela primeira vez também na "retomada", um filme brasileiro conquista o posto de campeão do ano. Espera-se, ainda, que seu lançamento em DVD, em 7 de dezembro, movimente meio milhão de cópias. Não fosse 2 Filhos de Francisco o recordista nacional também naquele que é o mais arrevesado dos elogios – a pirataria –, é provável que esses números alcançassem patamares ainda mais elevados.

Zezé Di Camargo & Luciano já venderam mais de 20 milhões de CDs e são ícones do movimento brega-sertanejo. Mas os relatórios dos produtores mostram que 2 Filhos de Francisco teve desempenho comparável no interior e nos centros urbanos, nos bairros ricos e na periferia, e da classe A à E. Parte desse impulso se deve às escolhas concretas do diretor e das roteiristas Patrícia Andrade e Carolina Kotscho. Ao colocar no centro do enredo um pai obstinado em dar a seus filhos as oportunidades que ele próprio não teve, o filme corteja as emoções ancestrais da platéia, independentemente de sua filiação musical. Há ali ainda o talento de Angelo Antônio e José Dumont, o encanto dos garotos Dablio Moreira e Marcos Henrique, que derruba qualquer resistência, e uma vida repleta de lances dramáticos.

Mas é o que 2 Filhos de Francisco tem de intangível que o fez disparar. Na junção de todos os seus elementos, o filme localizou um estado de espírito que vai na contramão da atroz experiência urbana brasileira e da frustração com o futuro incerto: a nostalgia de uma vida sacrificada mas simples, na qual lealdade, união e tenacidade eram bens de valor. No desfecho, o verdadeiro Zezé diz a seu irmão Luciano que nunca foi tão feliz quanto no casebre do interior goiano em que passou seus primeiros anos. Duas horas antes, a afirmação soaria como pose. Servindo de conclusão ao filme, ela faz a platéia acreditar que Zezé pode muito bem ser sincero.

 
 
 
 
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