Edição 1929 . 2 de novembro de 2005

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Fotografia
Gigante das lentes

Livro traz o melhor da obra
de José Medeiros, pioneiro
do fotojornalismo no Brasil


João Gabriel de Lima


Pescadores no Ceará (acima) e filha-de-santo num ritual de candomblé (acima, à dir.): o estilo despojado de José Medeiros (ao lado) é o oposto da eloqüência de Sebastião Salgado

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O fotojornalismo brasileiro explodiu nos anos 40, e as imagens captadas pelas Hasselblads e Rolleiflexes daquele tempo tiveram um tremendo impacto numa nação que sabia de si própria por meio dos livros e do rádio. Gilberto Freyre havia escrito em seus ensaios que o Brasil era um país mestiço, e a literatura regionalista fixara os tipos nacionais em suas sagas na caatinga, terreiros de candomblé e rituais indígenas. Numa terra ainda sem televisão – vivia-se o auge da chamada Era do Rádio –, foi a revista O Cruzeiro que primeiro "mostrou" este Brasil aos habitantes das grandes cidades. O semanário começou a privilegiar as reportagens ilustradas em 1940. Em 1946, o francês Jean Manzon, editor de imagens da revista, contratou aquele que mais tarde seria considerado o patriarca do fotojornalismo brasileiro: José Medeiros. Piauiense radicado no Rio de Janeiro, Medeiros se destacava pela técnica apurada, aprendida no dia-a-dia das redações, e pela versatilidade. Sentia-se à vontade entre os índios do Xingu e os caras-pálidas do Copacabana Palace, em rodas de samba e nos corredores do poder. O país revelado por suas lentes vibra nas páginas de Olho da Rua – O Brasil nas Fotos de José Medeiros (Aprazível Edições; 228 páginas; 130 reais), que chega às livrarias na segunda-feira 7.


Fotos José Medeiros
eiros
Dançarinas de aluguel na hora do cafezinho e cena do Carnaval carioca (à dir.): uma imagem lembra o estilo de Pedro Almodóvar, a outra remete a Federico Fellini

"O que mais surpreende nas fotos de Medeiros é a delicadeza, sobretudo na maneira de retratar a população mais pobre", avalia o jornalista carioca Leonel Kaz, editor do livro e responsável pela seleção das fotos. "Nosso olhar se acostumou à eloqüência de um Sebastião Salgado, estilo que hoje é um padrão dominante. Ao contrário dele, Medeiros prefere a simplicidade, interfere pouco, dá a impressão de que nem era notado enquanto tirava suas fotos." O belíssimo retrato de dois velhos pescadores sentados numa jangada ilustra com perfeição a tese do editor. As mãos e rostos escalavrados dos personagens, que talvez Salgado colocasse em primeiro plano, são apenas detalhes num quadro de geometria precisa e que transpira humanidade. Outro exemplo é a foto tirada num manicômio, no qual a solidão dos internos é mais importante do que a denúncia das condições em que vivem os doentes mentais. Em contraste com essa delicadeza, os textos que acompanhavam seus instantâneos em O Cruzeiro eram grandiloqüentes, como convinha à imprensa da época. As palavras ficaram datadas, mas a linguagem das fotos permanece atual – e isso fica evidente em Olho da Rua. Na feitura do livro, quase todo o processo de restauração se deu a partir do negativo, já que na digitalização o preto-e-branco perderia o viço. A impressão de qualidade muito superior à original de O Cruzeiro valoriza a habilidade do fotógrafo em obter imagens de grande plasticidade. Dois bons exemplos são os instantâneos de mascarados no Carnaval carioca e de dançarinas de aluguel (taxi-dancers) na hora do cafezinho. Uma das fotos é puro Fellini. A outra, se fosse colorida, poderia ser um still de Almodóvar.

Editor especializado em livros de arte em que a principal matéria-prima são as imagens, Leonel Kaz é uma espécie de Indiana Jones das fotos, capaz de escarafunchar milhares de negativos atrás de uma única chapa. Recentemente, lançou dois alentados painéis sobre o teatro e a música popular brasileira. Ele considera Olho da Rua – para o qual examinou 20.000 imagens antes de selecionar as 201 que o compõem – um momento especial em sua carreira, por ser a primeira empreitada de sua editora dedicada a um único fotógrafo. José Medeiros merece a homenagem. Quando viajava para fazer as reportagens de O Cruzeiro, sua intenção era inventariar o Brasil. O livro Olho da Rua mostra que suas fotos, além de documento inestimável, constituem arte da melhor qualidade.

 
 
 
 
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