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Fotografia
Gigante das lentes Livro traz
o melhor da obra de José Medeiros, pioneiro do fotojornalismo no
Brasil 
João Gabriel de Lima
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| Pescadores no Ceará (acima) e filha-de-santo
num ritual de candomblé (acima, à dir.): o estilo despojado
de José Medeiros (ao lado) é o oposto da eloqüência
de Sebastião Salgado |  |
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O fotojornalismo
brasileiro explodiu nos anos 40, e as imagens captadas pelas Hasselblads e Rolleiflexes
daquele tempo tiveram um tremendo impacto numa nação que sabia de
si própria por meio dos livros e do rádio. Gilberto Freyre havia
escrito em seus ensaios que o Brasil era um país mestiço, e a literatura
regionalista fixara os tipos nacionais em suas sagas na caatinga, terreiros de
candomblé e rituais indígenas. Numa terra ainda sem televisão
vivia-se o auge da chamada Era do Rádio , foi a revista O
Cruzeiro que primeiro "mostrou" este Brasil aos habitantes das grandes cidades.
O semanário começou a privilegiar as reportagens ilustradas em 1940.
Em 1946, o francês Jean Manzon, editor de imagens da revista, contratou
aquele que mais tarde seria considerado o patriarca do fotojornalismo brasileiro:
José Medeiros. Piauiense radicado no Rio de Janeiro, Medeiros se destacava
pela técnica apurada, aprendida no dia-a-dia das redações,
e pela versatilidade. Sentia-se à vontade entre os índios do Xingu
e os caras-pálidas do Copacabana Palace, em rodas de samba e nos corredores
do poder. O país revelado por suas lentes vibra nas páginas de Olho
da Rua O Brasil nas Fotos de José Medeiros (Aprazível
Edições; 228 páginas; 130 reais), que chega às livrarias
na segunda-feira 7.
Fotos José Medeiros  | eiros
 | | Dançarinas
de aluguel na hora do cafezinho e cena do Carnaval carioca (à dir.):
uma imagem lembra o estilo de Pedro Almodóvar, a outra remete a Federico
Fellini | "O que mais surpreende
nas fotos de Medeiros é a delicadeza, sobretudo na maneira de retratar
a população mais pobre", avalia o jornalista carioca Leonel Kaz,
editor do livro e responsável pela seleção das fotos. "Nosso
olhar se acostumou à eloqüência de um Sebastião Salgado,
estilo que hoje é um padrão dominante. Ao contrário dele,
Medeiros prefere a simplicidade, interfere pouco, dá a impressão
de que nem era notado enquanto tirava suas fotos." O belíssimo retrato
de dois velhos pescadores sentados numa jangada ilustra com perfeição
a tese do editor. As mãos e rostos escalavrados dos personagens, que talvez
Salgado colocasse em primeiro plano, são apenas detalhes num quadro de
geometria precisa e que transpira humanidade. Outro exemplo é a foto tirada
num manicômio, no qual a solidão dos internos é mais importante
do que a denúncia das condições em que vivem os doentes mentais.
Em contraste com essa delicadeza, os textos que acompanhavam seus instantâneos
em O Cruzeiro eram grandiloqüentes, como convinha à imprensa
da época. As palavras ficaram datadas, mas a linguagem das fotos permanece
atual e isso fica evidente em Olho da Rua. Na feitura do livro,
quase todo o processo de restauração se deu a partir do negativo,
já que na digitalização o preto-e-branco perderia o viço.
A impressão de qualidade muito superior à original de O Cruzeiro
valoriza a habilidade do fotógrafo em obter imagens de grande plasticidade.
Dois bons exemplos são os instantâneos de mascarados no Carnaval
carioca e de dançarinas de aluguel (taxi-dancers) na hora do cafezinho.
Uma das fotos é puro Fellini. A outra, se fosse colorida, poderia ser um
still de Almodóvar. Editor
especializado em livros de arte em que a principal matéria-prima são
as imagens, Leonel Kaz é uma espécie de Indiana Jones das fotos,
capaz de escarafunchar milhares de negativos atrás de uma única
chapa. Recentemente, lançou dois alentados painéis sobre o teatro
e a música popular brasileira. Ele considera Olho da Rua para
o qual examinou 20.000 imagens antes de selecionar as 201 que o compõem
um momento especial em sua carreira, por ser a primeira empreitada de sua
editora dedicada a um único fotógrafo. José Medeiros merece
a homenagem. Quando viajava para fazer as reportagens de O Cruzeiro, sua
intenção era inventariar o Brasil. O livro Olho da Rua mostra
que suas fotos, além de documento inestimável, constituem arte da
melhor qualidade. |