Edição 1929 . 2 de novembro de 2005

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Beleza
Permitido para menores

Cada vez mais as filhas recorrem ao
saco de mágicas das mães: próteses,
preenchimentos, lipo e até Botox


Roberta Salomone

 
Leoanrdo Aversa/Ag. Globo
Flavia Vitoria/AE
Yasmin, 17, agora e em junho: 8 centímetros de repente, não mais que de repente

O aprimoramento das técnicas de cirurgia plástica é tão patente e a assimilação cultural dos tratamentos estéticos tão rápida que tudo o que parecia complicado, ou tabu, num passado muito recente, se desmancha no ar. No princípio, plástica era coisa para depois dos 50 anos; antes disso, só mesmo correção de nariz e orelha em casos de extrema necessidade ou uma discreta redução de seios. Hoje, intervenções para alisar, preencher, enxugar e inflar são mostradas em detalhes em programas de TV, os consultórios estéticos vivem lotados, amigas se reúnem para bater papo e aplicar Botox e lipoaspiração é presente de aniversário para quem ainda não passou dos 50, dos 40, dos 30 e, cada vez mais, até dos 20. Segundo a Sociedade Brasileira de Medicina Estética (SBME), nos últimos três anos a procura das mulheres de até 25 anos por tratamentos de beleza cresceu 30%. E a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica informa que 15% dos pacientes de plástica no país são jovens de até 18 anos. "As próprias mães trazem as filhas ao consultório. O que antes era pecado agora é coqueluche", diz a dermatologista Maria Victória Campos de Souza, da SBME.

Mostrar os seios novos ou as coxas lipoaspiradas está ficando tão comum nas faixas etárias reduzidas que causa surpresa quando alguém nega o óbvio. A modelo Yasmin Brunet, de 17 anos, entrou neste ano com 81 centímetros de busto e agora, pela fita métrica de sua agência, a Ford Models, ostenta em decotes avantajados consideráveis 8 centímetros a mais. "Só vou fazer plástica bem mais velha, quando tiver uns 40 anos", conta Yasmin, que atribui a súbita expansão à genética. Como sua mãe, Luiza Brunet, também retocou os seios, é como se o DNA, de repente, tivesse implantado entre 300 e 330 mililitros de silicone na jovem modelo.

Apesar da aprovação social crescente às cirurgias precoces, o exagero ainda é facilmente identificável. A estudante de direito Monique Soares, 22 anos, fez a primeira intervenção aos 16 – passou por uma lipoescultura e aumentou o bumbum. Recentemente, fez cirurgia para afinar e arrebitar o nariz ("Era de bruxa", exagera). Aí achou que ficaria ainda melhor se aumentasse a espessura dos lábios e aproveitou as aplicações de ácido hialurônico e poliacrilamida (um derivado do acrílico) para preencher os sulcos – aos 22 anos! – ao lado da boca. "Se existem recursos para ficar mais bonita, por que não tentar?", pergunta Monique, que planeja colocar prótese nos seios em breve. A mãe dela, a psicanalista Seralice de Souza, 54 anos e uma única plástica de abdômen, se assusta com a disposição da filha. "Virou uma obsessão. Não acho nem um pouco normal alguém na idade dela querer mudar tanto a aparência", diz.

Roberto Setton
Lori, 20: Botox, "simples", e silicone, "dolorido"


A injeção de substâncias para aumentar os lábios lidera o placar das preferências das muito jovens (veja quadro) no Brasil, seguida pela correção de queixo e nariz. A lista das dez mais também inclui Botox, preenchimento de sulcos, lipo e colocação de prótese nos seios. Por que garotas sem nenhuma sombra de rugas colocam Botox? A estudante de moda Lori Cristina Faria, 20 anos, de São Paulo, implantou próteses de 250 mililitros de silicone em maio; em julho, para "deixar o olhar mais aberto e bonito", aplicou Botox embaixo e nas laterais das sobrancelhas. "O Botox foi simples e rápido. Já o pós-operatório da plástica foi um pouco dolorido", compara.

A cirurgia para inserir as próteses de silicone "descola" os músculos peitorais. A intensidade e a duração da dor variam, mas todas as pacientes certamente sofrerão no pós-operatório. Garotas imaturas, despreparadas para o adiamento do prazer exigido pelas intervenções estéticas, chegam a dar escândalo. No fim, obviamente, a maioria fica satisfeitíssima com o resultado. Nos raros casos em que a prótese continua a causar incômodo, removê-la requer uma plástica reparadora para apagar cicatrizes e reformatar os seios. A lipoaspiração, além de embutir os riscos de qualquer procedimento cirúrgico, também rende um pós-operatório de muito inchaço e níveis variados de dor. "O acesso mais fácil aos tratamentos abre caminho para essa corrida desenfreada pela perfeição estética. O jovem precisa entender que as mudanças do seu corpo serão harmonizadas com o tempo, sem a necessidade de procedimentos invasivos", diz Jane Kezem, presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Muito sensato, sem dúvida. Só falta convencer as jovens adeptas do aprimoramento estético imediato.


 
 
 
 
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