Edição 1929 . 2 de novembro de 2005

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Turismo
Brinde brasileiro

Os espumantes de qualidade
fazem de Garibaldi um novo
destino no Rio Grande do Sul


Roberta Salomone, de Garibaldi


Fotos Oscar Cabral
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Fábrica da Peterlongo (à esq.), a mais antiga vinícola da cidade, e o enólogo argentino Adolfo Lona, que está iniciando sua própria produção: região em alta

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Distante pouco mais de 100 quilômetros de Porto Alegre, Garibaldi é uma cidade aparentemente sem encantos num estado cheio de atrações turísticas como o Rio Grande do Sul. Não tem o charme de Gramado e Canela, a natureza estonteante do Parque Nacional dos Aparados da Serra ou o apelo histórico das Missões Jesuítas de Santo Ângelo. Mas em 2004 recebeu cerca de 100.000 pessoas, número cinco vezes maior que o de quatro anos atrás. O motivo está nas quinze produtoras de espumantes que funcionam na cidade e seus arredores. Com pouco menos de 30 000 habitantes, Garibaldi detém mais da metade da produção de espumantes do país, que estão cada vez mais em alta no exterior, e começa a rivalizar com a vizinha Bento Gonçalves, que fez fama como capital brasileira do vinho. Segundo os experts, o lugar tem características especialíssimas para a produção da bebida. O terroir (combinação de clima, solo e, para alguns, tradição) da Serra Gaúcha é considerado um dos melhores do mundo para a uva utilizada na elaboração de espumantes. "Começamos a nos conformar que nunca vamos conseguir fazer vinhos tintos excepcionais, mas já conseguimos acreditar que vamos nos igualar aos espumantes franceses em breve", diz, otimista, o enólogo argentino Adolfo Lona.

Há 32 anos, Lona desembarcou com a família no Rio Grande do Sul. Contratado por uma fábrica de bebidas, foi morar em Garibaldi. A adaptação a um novo país não foi fácil. Nas vinícolas que já existiam ali os recursos técnicos eram extremamente limitados e as instalações, inadequadas. Ainda assim, Lona, de 57 anos, não arredou pé da cidade. Assistiu de perto ao crescimento da produção local, tornou-se um enólogo respeitado na região e ministrou cursos de degustação para quase 19.000 pessoas. No ano passado, decidiu investir tudo o que tinha na própria marca de vinhos. Com uma produção pequena e um investimento inicial de 520.000 reais, está apostando todas as fichas em dois espumantes que desenvolveu e também no potencial de crescimento da cidade como pólo produtor.

Entre as vinícolas de Garibaldi está a Chandon, do maior conglomerado de artigos de luxo do mundo, o Moët Hennessy Louis Vuitton. Instalada ali desde 1973, a empresa deixou de fabricar vinhos tintos há sete anos, quando se deu conta de que seria impossível disputar mercado com os produtos dos vizinhos Chile e Argentina. Hoje, seus cinco tipos de espumante garantem 29% do mercado nacional. "Sempre acreditei no potencial da região", diz o francês Philippe Mével, enólogo da Chandon que mora em Garibaldi faz quinze anos.


Fotos Oscar Cabral
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Maria-fumaça na estação de Garibaldi e o enólogo francês Philippe Mével (à dir.): o turismo quintuplicou

A convicção de Mével em relação ao espumante nacional, no entanto, só ganhou adeptos mais recentemente, quando o Brasil começou a participar de importantes concursos internacionais. Os resultados foram positivos. Os produtores brasileiros já ganharam mais de vinte medalhas no Vinalies Internationales, que é considerado uma espécie de Oscar dos vinhos. Na soma dos resultados das últimas edições do Effervescents du Monde, Chardonnay du Monde e Muscats du Monde, garantiram o segundo lugar – perdendo, obviamente, para a França. "Os espumantes brasileiros são comparáveis a alguns dos melhores do mundo", elogia Béatrice Da Ros, diretora da União de Enólogos da França e do concurso Vinalies Internationales. O reconhecimento da qualidade fez crescer as vendas no mercado interno e abriu a porta para a exportação. Os números das vendas até agosto são um terço maiores do que os do mesmo período do ano passado, e até o fim do ano estima-se que sejam vendidos mais de 6 milhões de litros da bebida. Nos últimos dez anos, a produção brasileira aumentou 150%.

O cenário é bem diferente daquele do início do século passado, quando a primeira vinícola de Garibaldi foi fundada. De maneira artesanal e sem grandes recursos, o imigrante italiano Manoel Peterlongo começou a plantar uvas e a produzir vinho até desenvolver aquele que seria o primeiro champanhe brasileiro. Fez tanto sucesso que o ex-presidente Getúlio Vargas chegou a visitar o lugar, tornando a bebida popular e obrigatória em solenidades do governo. A empresa sobreviveu à chegada de concorrentes de peso, como Chandon e Georges Aubert, e é uma das únicas por aqui a usar a palavra champanhe em seus rótulos – exceção à norma que permite que o termo seja utilizado para identificar apenas produtos fabricados na região de Champagne, na França. Hoje, a vinícola produz 400.000 garrafas e fatura 15 milhões de reais por ano.

A visita à cidade inspira-se no modelo que transformou as caves européias, principalmente as francesas, em destinos turísticos obrigatórios. O que atrai os visitantes é a oportunidade de ver de perto a elaboração do vinho, caminhar entre videiras e conhecer os diferentes tipos de uva. Um trem ao estilo das antigas marias-fumaças faz o circuito que começa em Bento Gonçalves, passa por Garibaldi e vai até Carlos Barbosa, num passeio de duas horas. Depois das explanações dos guias, passeios entre enormes tonéis de madeira e de alumínio e apresentações com músicos da região, chega a hora preferida dos visitantes: a degustação (de graça) dos espumantes. Em Garibaldi, o orgulho pelo produto é tão grande que há quem afirme que o espumante está à mesa durante as refeições de grande parte das famílias que vivem ali. Na maioria dos bares e restaurantes, a bebida já substitui a cerveja. "Nem me lembro mais da última vez em que bebi água", exagera Célio Sganzerla, da Vinícola Garibaldi.

O consumo da bebida vem crescendo gradualmente no Brasil. Nas grandes cidades, como São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Brasília, as champanherias conquistam os mais jovens e o produto nacional já é o preferido por mais da metade dos consumidores, até pelo preço. Toma-se um bom espumante nacional por um terço do preço de um produto estrangeiro de qualidade equivalente. "Agora, só falta fazer com que o brasileiro crie o costume de beber espumante com mais freqüência", afirma Deyse Tanuri, presidente da Rota dos Espumantes, associação que reúne as principais vinícolas da cidade. Este é, no entanto, apenas o começo de um longo caminho que inclui mudanças de antigos e arraigados hábitos. Pesquisas mostram que o francês bebe em média seis garrafas de champanhe por ano e, ainda assim, os produtores investem sempre na divulgação da bebida. No Brasil, o consumo de espumantes engatinha. Não passa ainda de parcos 50 mililitros por pessoa.





Fotos Royalty Free/Keystone

 
 
 
 
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