Edição 1929 . 2 de novembro de 2005

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Saúde
Estudo tarja preta

Laboratórios são acusados de
manipular dados de pesquisa sobre
um medicamento antidiabetes


Paula Neiva

NESTA REPORTAGEM
Quadro: Informações sob suspeita

Dois artigos publicados recentemente na revista da Associação Médica Americana, mais conhecida pela sigla em inglês Jama, colocaram dois dos maiores laboratórios farmacêuticos sob suspeita. O Bristol-Myers Squibb e o Merck & Co. foram acusados de manipular os resultados das pesquisas de um medicamento contra o diabetes – o Pargluva – e, assim, facilitar a sua aprovação pela FDA, a agência americana de controle de remédios e alimentos. Num dos artigos, que faz as vezes de editorial da revista, o médico canadense James Brophy, professor da Universidade McGill, escreveu que a avaliação do produto feita por seus fabricantes pode ter "motivado uma falsa ilusão de segurança". A falsa ilusão refere-se ao fato de que o Bristol e o Merck não alertaram para o fato de que o Pargluva, que chegaria ao mercado em 2007, pode dobrar os riscos de aparecimento de doenças cardíacas. "Essas empresas deveriam ter adiado o pedido de aprovação do produto e iniciado uma investigação detalhada sobre os perigos oferecidos por ele", disse a VEJA o cardiologista Steven Nissen, da Cleveland Clinic e um dos autores do outro artigo publicado no Jama.

O porta-voz do laboratório Bristol no Brasil, Antonio Carlos Salles, resume da seguinte maneira a posição da empresa: "As críticas publicadas no Jama são fruto de uma determinada maneira de interpretar dados científicos. As diferenças entre metodologias são comuns no mundo científico". As distorções também. O caso não coloca na berlinda apenas a indústria farmacêutica, mas também a FDA. Afinal de contas, caberia à agência analisar com rigor os dados fornecidos pelos laboratórios. Não foi isso que aconteceu. Por 8 votos a 1, e sem a participação de um cardiologista, o órgão recomendou em setembro passado a aprovação do antidiabético – possibilitando, dessa forma, que o Pargluva fosse apresentado no último congresso da Associação Européia para o Estudo do Diabetes como uma das grandes promessas no tratamento da doença.

O episódio suscita mais uma vez a seguinte questão: até que ponto se deve confiar nos testes clínicos patrocinados pelos fabricantes dos remédios em análise? "Num mundo ideal, todos os estudos com medicamentos teriam de ser feitos por agências governamentais", disse a VEJA o epidemiologista americano Peter Lurie, diretor da divisão médica do Public Citizen, uma das principais entidades de defesa dos direitos do consumidor nos Estados Unidos. "Como isso não é possível, o mínimo a fazer é analisar os dados apresentados pela indústria com algum ceticismo." Estima-se que os próprios fabricantes financiem total ou parcialmente 90% dos estudos clínicos sobre remédios. O principal motivo é que esses levantamentos custam caro demais para que sejam bancados pelo dinheiro do contribuinte. E, ao que parece, também para que possam dar resultados negativos e jogar no lixo todo o esforço empreendido na criação de um medicamento. Aí está a chave para entender o problema: os altos custos do desenvolvimento de um remédio, e de sua posterior avaliação, estão por trás das distorções que surgiram com o passar do tempo.

No livro The Truth about the Drug Companies (A Verdade sobre as Empresas Farmacêuticas), a médica americana Marcia Angell afirma que, até a década de 80, as empresas farmacêuticas apenas forneciam o dinheiro para que um determinado estudo fosse realizado. Os pesquisadores gozavam de autonomia para levar a cabo seu trabalho. De lá para cá, no entanto, os fabricantes de medicamentos foram adquirindo um controle cada vez maior sobre os estudos – a ponto de, hoje, determinarem desde o seu perfil metodológico até a decisão de publicar ou não os seus resultados. "A pesquisa clínica passou das mãos da ciência para as da indústria. E muitos médicos só divulgam o que for do interesse das empresas", diz o cardiologista Mario Maranhão, um dos críticos mais ferozes da relação entre os laboratórios e os profissionais de saúde.

É perfeitamente legítimo que uma empresa que gasta milhões de dólares no desenvolvimento de um remédio queira extrair o maior lucro possível dele. É dessa maneira, inclusive, que se abre caminho para que outros medicamentos sejam criados. Mas o que é um processo normal do capitalismo não pode servir de pretexto para que se cometam irresponsabilidades. Estimava-se que, apenas no primeiro ano de seu lançamento, as vendas do Pargluva chegassem a 600 milhões de dólares. O escândalo não representa uma condenação definitiva do remédio. "Os resultados apresentados não me convenceram de que os benefícios clínicos superavam os riscos para o coração", disse o estatístico Dean Follmann a VEJA, o único a votar na FDA contra a aprovação do Pargluva. "Isso não significa, no entanto, que o medicamento seja ruim, e sim que mais dados são necessários para a sua aprovação." Que sejam apresentados, portanto.

 

 

O estatístico Follmann, único conselheiro da FDA a votar contra o remédio Pargluva. Abaixo, trecho do editorial do Jama em que os fabricantes do medicamento são acusados de induzir uma "falsa ilusão de segurança" Divulgação
 
 
 
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