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Saúde Estudo
tarja preta Laboratórios são
acusados de manipular dados de pesquisa sobre um medicamento antidiabetes
 Paula
Neiva
Dois
artigos publicados recentemente na revista da Associação Médica
Americana, mais conhecida pela sigla em inglês Jama, colocaram dois dos
maiores laboratórios farmacêuticos sob suspeita. O Bristol-Myers
Squibb e o Merck & Co. foram acusados de manipular os resultados das pesquisas
de um medicamento contra o diabetes o Pargluva e, assim, facilitar
a sua aprovação pela FDA, a agência americana de controle
de remédios e alimentos. Num dos artigos, que faz as vezes de editorial
da revista, o médico canadense James Brophy, professor da Universidade
McGill, escreveu que a avaliação do produto feita por seus fabricantes
pode ter "motivado uma falsa ilusão de segurança". A falsa ilusão
refere-se ao fato de que o Bristol e o Merck não alertaram para o fato
de que o Pargluva, que chegaria ao mercado em 2007, pode dobrar os riscos de aparecimento
de doenças cardíacas. "Essas empresas deveriam ter adiado o pedido
de aprovação do produto e iniciado uma investigação
detalhada sobre os perigos oferecidos por ele", disse a VEJA o cardiologista Steven
Nissen, da Cleveland Clinic e um dos autores do outro artigo publicado no Jama.
O porta-voz do laboratório
Bristol no Brasil, Antonio Carlos Salles, resume da seguinte maneira a posição
da empresa: "As críticas publicadas no Jama são fruto de uma determinada
maneira de interpretar dados científicos. As diferenças entre metodologias
são comuns no mundo científico". As distorções também.
O caso não coloca na berlinda apenas a indústria farmacêutica,
mas também a FDA. Afinal de contas, caberia à agência analisar
com rigor os dados fornecidos pelos laboratórios. Não foi isso que
aconteceu. Por 8 votos a 1, e sem a participação de um cardiologista,
o órgão recomendou em setembro passado a aprovação
do antidiabético possibilitando, dessa forma, que o Pargluva fosse
apresentado no último congresso da Associação Européia
para o Estudo do Diabetes como uma das grandes promessas no tratamento da doença.
O episódio suscita mais uma
vez a seguinte questão: até que ponto se deve confiar nos testes
clínicos patrocinados pelos fabricantes dos remédios em análise?
"Num mundo ideal, todos os estudos com medicamentos teriam de ser feitos por agências
governamentais", disse a VEJA o epidemiologista americano Peter Lurie, diretor
da divisão médica do Public Citizen, uma das principais entidades
de defesa dos direitos do consumidor nos Estados Unidos. "Como isso não
é possível, o mínimo a fazer é analisar os dados apresentados
pela indústria com algum ceticismo." Estima-se que os próprios fabricantes
financiem total ou parcialmente 90% dos estudos clínicos sobre remédios.
O principal motivo é que esses levantamentos custam caro demais para que
sejam bancados pelo dinheiro do contribuinte. E, ao que parece, também
para que possam dar resultados negativos e jogar no lixo todo o esforço
empreendido na criação de um medicamento. Aí está
a chave para entender o problema: os altos custos do desenvolvimento de um remédio,
e de sua posterior avaliação, estão por trás das distorções
que surgiram com o passar do tempo.
No livro The Truth about the Drug Companies (A Verdade sobre as Empresas
Farmacêuticas), a médica americana Marcia Angell afirma que, até
a década de 80, as empresas farmacêuticas apenas forneciam o dinheiro
para que um determinado estudo fosse realizado. Os pesquisadores gozavam de autonomia
para levar a cabo seu trabalho. De lá para cá, no entanto, os fabricantes
de medicamentos foram adquirindo um controle cada vez maior sobre os estudos
a ponto de, hoje, determinarem desde o seu perfil metodológico até
a decisão de publicar ou não os seus resultados. "A pesquisa clínica
passou das mãos da ciência para as da indústria. E muitos
médicos só divulgam o que for do interesse das empresas", diz o
cardiologista Mario Maranhão, um dos críticos mais ferozes da relação
entre os laboratórios e os profissionais de saúde.
É perfeitamente legítimo que uma empresa que
gasta milhões de dólares no desenvolvimento de um remédio
queira extrair o maior lucro possível dele. É dessa maneira, inclusive,
que se abre caminho para que outros medicamentos sejam criados. Mas o que é
um processo normal do capitalismo não pode servir de pretexto para que
se cometam irresponsabilidades. Estimava-se que, apenas no primeiro ano de seu
lançamento, as vendas do Pargluva chegassem a 600 milhões de dólares.
O escândalo não representa uma condenação definitiva
do remédio. "Os resultados apresentados não me convenceram de que
os benefícios clínicos superavam os riscos para o coração",
disse o estatístico Dean Follmann a VEJA, o único a votar na FDA
contra a aprovação do Pargluva. "Isso não significa, no entanto,
que o medicamento seja ruim, e sim que mais dados são necessários
para a sua aprovação." Que sejam apresentados, portanto.
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