Edição 1929 . 2 de novembro de 2005

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Economia e Negócios
E agora, Mr. Bernanke?

Bush indica o acadêmico Ben Bernanke para
a sucessão do mitológico Alan Greenspan

Alan Greenspan, tido como o melhor presidente de banco central que o mundo já viu, deixa o cargo no próximo dia 31 de janeiro. Depois de dezoito anos e cinco meses à frente do Federal Reserve, passa o bastão no todo-poderoso banco central dos EUA. Na semana passada, o presidente George W. Bush indicou para lhe suceder Ben Bernanke, um renomado acadêmico que preside o Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca. Greenspan, 79 anos, é dono de credibilidade e carisma de proporções mitológicas. Ganhou o apelido de Il Maestro pela sensibilidade, capacidade de prever e influenciar a ação de investidores e precisão com que conduz as finanças planetárias. Não será tarefa simples substituí-lo. Durante seu turno no Fed, enfrentou um crash na Bolsa de Nova York, lidou com duas recessões e viu ações virar pó com o estouro da bolha das empresas de nova tecnologia. Mas nos seus anos de reinado os EUA viveram o milagre da produtividade e experimentaram dez anos de crescimento ininterrupto, o mais longevo período de expansão da história do país.

Se aprovado pelo Senado, Bernanke, 51 anos, assume em fevereiro. Terá de lidar com um legado de profundos desequilíbrios financeiros na economia mundial e com a ameaça do estouro de uma bolha no setor imobiliário americano. Enfrentará ainda a sua própria falta de experiência no mercado financeiro. O economista passou praticamente toda a vida profissional dentro de universidades. Nunca trabalhou em Wall Street, ao contrário de Greenspan. "Isso não será problema. Bernanke provou que sabe se comunicar com os investidores", afirma Stephen Cecchetti, professor de finanças da Universidade Brandeis, nos EUA. O brasileiro José Alexandre Scheinkman, que trocou a Universidade de Chicago por Princeton a convite de Bernanke, também não vê dificuldades. "Ele é uma pessoa extremamente inteligente e adaptável. Greenspan, quando assumiu o Fed, poderia ter sido criticado pela falta de conhecimento acadêmico."

Um dos maiores monetaristas em atividade, Bernanke é especialista no sistema de metas de inflação e poderá levar o Fed a adotar oficialmente o regime – que está em vigor no Brasil desde 1999. "É um professor extraordinário, de aguda capacidade analítica", diz Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central. Fraga teve Bernanke na banca examinadora quando se doutorou em Princeton. Bernanke acredita que finanças públicas e excesso de moeda em circulação inflam os preços. Em uma palestra recente, elogiou a queda da inflação na América Latina, particularmente no Brasil. Disse que esse avanço só foi possível porque os países da região abandonaram as teorias desenvolvimentistas e expansionistas difundidas no continente pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Agora o mundo aguarda os primeiros passos do novo chefe do Fed.

 

Um teórico das metas de inflação

 

Larry Downing/Reuters

Formação: Ben Shalom Bernanke, 51, fez economia em Harvard e obteve doutorado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT)  

Academia: começou a carreira em Stanford; em 1985, foi para Princeton  

Vida pública: em 2002, foi indicado por George W. Bush para o conselho do Federal Reserve; filiado ao Partido Republicano, em junho de 2005 tornou-se presidente do Conselho de Assessores Econômicos da Casa Branca  

Sintonia com Greenspan: concordam que o combate à inflação é um ponto fundamental para dar credibilidade ao Fed; acreditam também que o BC não deve agir para evitar bolhas especulativas  

Discordância com Greenspan: o atual presidente do Fed nunca revelou o nível de inflação considerado ideal, por achar que isso daria menos flexibilidade à sua atuação; Bernanke defende a adoção de metas explícitas como forma de dar mais previsibilidade à condução da economia

 
 
 
 
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