|
|
Economia e Negócios
A ex-guerrilheira abre fogo
Seus alvos: a política econômica
como um
todo e o plano de ajuste fiscal em particular

Thaís Oyama
José Cruz/ABR
 |
Celso Junior/AE
 |
| A ministra Dilma Rousseff: guerra
declarada ao colega Paulo Bernardo (à esq.), do
Planejamento |
A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff,
não sucedeu o ex-ministro José Dirceu apenas no cargo
herdou dele também a missão de ser a principal
pedra no sapato do ministro da Fazenda, Antonio Palocci. E tem-se
esmerado no papel. Na quarta-feira passada, Dilma desafiou Palocci
na presença de seus principais colegas de governo durante
uma reunião da Câmara de Política Econômica.
O motivo do embate foi o projeto de ajuste fiscal que o ministro
do Planejamento, Paulo Bernardo, está incumbido de apresentar
ao presidente Lula. O projeto prevê, entre outras coisas,
metas mais rígidas para o superávit primário
a longo prazo, como forma de balizar a economia e forçar
a redução dos juros. Palocci defende a idéia.
Já Dilma é radicalmente contra qualquer medida que
implique maior controle de gastos por parte do governo. Chegou a
declarar em entrevista recente que a produção de superávit
"não se dá sem seqüelas" e que o índice
acumulado em 2005, de 6%, é contrário à lei
(a meta estabelecida pelo governo para o ano é de 4,25%).
Semanas atrás, outro movimento da ministra já havia
deixado em pé de guerra a equipe econômica e a Casa
Civil: Dilma fez chegar ao presidente Lula a suspeita de que o Ministério
do Planejamento vinha "manipulando" os números da arrecadação
para sustentar seus argumentos. A atitude deixou o ministro Paulo
Bernardo exasperado.
Nas últimas semanas, a ministra ganhou
dois aliados em sua batalha contra a atual política econômica:
o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, e o recém-eleito presidente
nacional do PT, deputado federal Ricardo Berzoini. Ambos defendem
o acirramento da guerra com a oposição sob o argumento
de que o governo já teria conseguido ultrapassar o pior da
crise e caberia a ele agora trocar a posição defensiva
pelo ataque sempre tendo em vista a disputa eleitoral de
2006. Berzoini usou sua primeira entrevista coletiva como presidente
da sigla para desferir um pesado ataque aos tucanos. Declarou que,
"no campo ético, o governo de Lula era melhor do que o de
Fernando Henrique" e que as denúncias contra o PT e o governo
"não têm comparação" com casos que teriam
deixado de ser apurados na administração passada,
como a compra de votos para aprovação da emenda da
reeleição. O prefeito de São Paulo agora
de volta à presidência do PSDB , José
Serra, devolveu o petardo chamando Berzoini de "político
desqualificado".
Ed Ferreira/AE
 |
| Pelo confronto: para Ricardo Berzoini, presidente
do PT, o partido tem de sair da defensiva |
A temperatura entre governo e oposição subiu mais
alguns graus quando, na terça-feira, Brasília amanheceu
coberta de cartazes em que o senador Jorge Bornhausen, presidente
do PFL, aparecia vestido com o uniforme nazista. No dia seguinte,
o sindicalista Avel Alencar apresentou-se como o responsável
pelos cartazes. Os pefelistas, porém, enxergaram na operação
as digitais do ministro do Trabalho, que, na semana anterior, havia
dito que Bornhausen tinha "saudade de Hitler". A semana se encerrou
com o programa de propaganda política do PT. Levado ao ar
na quinta-feira, teve o ex-presidente do partido Tarso Genro como
protagonista e os tucanos como alvo preferencial. Ponto para Dilma,
pelo menos no que se refere à briga em torno do ajuste fiscal.
Isso porque as medidas que estão sendo gestadas pelo Ministério
do Planejamento precisam ser aprovadas no Congresso por meio de
emenda constitucional, o que exige uma ampla negociação
com as lideranças parlamentares. "Nesse clima, vai ser difícil
o governo conseguir aprovar o ajuste", afirma um assessor do governo
com trânsito no Congresso e no Planalto.
A economia brasileira atravessa uma de suas
melhores fases nos últimos anos (veja
quadro). O mérito pela obtenção
desses resultados deriva em boa parte dos esforços e acertos
da equipe econômica comandada pelo ministro Palocci, mas dois
outros fatores foram preponderantes para que o Brasil chegasse a
esse cenário. O primeiro foi o excepcional desempenho da
economia mundial em 2004, que resultou numa ampla liquidez internacional
e no conseqüente aquecimento do comércio entre os países.
O segundo foram as mudanças estruturais implementadas pela
administração tucana nos anos anteriores a 2003, como
o combate à inflação, o aumento da abertura
da economia e a criação da Lei de Responsabilidade
Fiscal. A manutenção dessas conquistas mérito
que, este, sim, cabe ao governo Lula e à equipe de Palocci
é justamente o que a ministra (e ex-guerrilheira da
VAR-Palmares, um dos principais grupos armados da década
de 60) Dilma agora tenta torpedear. Do ponto de vista objetivo,
é improvável que consiga, dado o estado de consolidação
em que se encontram os principais pilares da economia brasileira.
O risco, contudo, é o de que as investidas da ministra atinjam
um outro flanco da política econômica, ainda relativamente
vulnerável: a credibilidade do próprio país.
Celso Junior/AE
 |
| Luiz Marinho: digitais no ataque a Borhausen
|
Em dezembro de 2001, durante um encontro nacional, o PT aprovou
um documento que pregava a "ruptura necessária" com o "modelo
neoliberal". O texto incluía a necessidade de "denunciar
o acordo com o FMI para liberar a política econômica
das restrições impostas ao crescimento". Seis meses
mais tarde, quando Lula já demonstrava ter chances reais
de vitória, o partido divulgou a "Carta ao Povo Brasileiro",
em que defendia a manutenção dos contratos
ou seja, dizia o contrário do que apregoava no documento
anterior. Felizmente, para o país, o governo fez valer a
segunda promessa. Agora, novamente às vésperas das
eleições, ele deixa explícito que seus principais
ministros não se entendem na área econômica
pelo contrário, discordam em pontos cruciais e desafiam-se
em público. Diante disso, é compreensível que
a dúvida que rondou os investidores em 2002 de novo volte
à tona: o governo está munido de real disposição
para manter a estabilidade da economia ou isso só vale como
discurso destinado a garantir mais quatro anos de poder e
corre o risco de ser revisto ao sabor de pressões internas
no partido, em caso de vitória?
A julgar por seu comportamento recente, o
presidente Lula não parece disposto a esclarecer a dúvida.
Apesar dos reiterados discursos em que descartou a opção
por "soluções mágicas" e "pirotecnias", o presidente
vem se escusando da responsabilidade de arbitrar a disputa que se
torna cada vez mais evidente no seio do seu governo. Essa postura
ficou clara quando Lula optou por não participar da reunião
da Câmara de Política Econômica que, sabia,
teria como assunto principal o plano de ajuste fiscal. Preferiu
deixar que seus ministros se engalfinhassem abertamente tornando
públicas as suas divergências. É o tipo de omissão
que pode custar caro ao país.
Com reportagem de Marcelo Carneiro
e Monica Weinberg
|