Edição 1929 . 2 de novembro de 2005

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Internacional
Mentiras em massa

O New York Times faz autocrítica:
a ex-mártir da liberdade de imprensa
era de fato rainha do engodo

Numa história fenomenalmente complicada, alguns fatos são claros no caso que envolve Judith Miller, repórter-estrela do jornal The New York Times, e a encrenca em que membros do governo americano se meteram ao revelar a jornalistas, de maneira ilegal, a identidade de uma agente da CIA. Miller ocultou informações importantes, distorceu fatos e simplesmente mentiu à direção do jornal quanto a sua participação. Constrangeu colegas, humilhou seus superiores e colocou em posição embaraçosa aqueles que, de boa-fé, porém mal informados, lhe manifestaram apoio. Por isso, de pseudo-heroína da liberdade de imprensa, a mulher que passou 85 dias presa em defesa do direito de não revelar o nome do integrante do governo que lhe contara a identidade da agente (o agora enrascado assessor presidencial Lewis Libby), saiu da cadeia diretamente para a ignomínia.

Recebida gentilmente na porta da prisão por Arthur Sulzberger Jr., editor e representante da família que tem tinta do Times no sangue há quatro gerações, Miller foi desconstruída em poucos dias. Uma reportagem do próprio jornal recapitulou seus erros. Na origem de tudo, estão as matérias que escreveu antes e durante a invasão do Iraque. Disposta a dar o grande furo da época – a prova das armas de destruição em massa que o governo Bush atribuía ao regime de Saddam Hussein –, ela várias vezes anunciou a descoberta iminente do que se revelou inexistente. Quando o jornal fez um mea-culpa sobre os erros cometidos na cobertura, Miller empurrou a responsabilidade com a barriga. "Os analistas, os especialistas e os jornalistas que cobriram a questão das armas de destruição em massa – todos nós erramos. Se suas fontes erram, você erra", alegou, para fúria de inúmeros colegas – é claro que jornalistas podem ser enganados por informantes mal-intencionados, mas faz parte de seu trabalho justamente detectar as armadilhas. As armas da discórdia também estão por trás do caso que agora incomoda simultaneamente o governo Bush e o Times: Libby, o assessor presidencial, disse a Miller e a outros jornalistas que o homem que havia contestado publicamente um dos braços da campanha anti-Saddam era casado com uma agente da CIA, Valerie Plame. O objetivo provável era desacreditá-lo. Miller não publicou nada a respeito no jornal (Por quê? Diz que ofereceu a matéria e a editora a rejeitou; mentira, proclama a editora). Quando o caso passou a ser investigado, foi intimada a declinar sua fonte. Recusou-se, no que parecia ser uma atitude nobre – enquanto mantinha nebulosas negociações com Libby via advogado e dava informações enganosas à direção do jornal. Presa por desacato à Justiça, ganhou aura de mártir para a direção do jornal, que lhe dedicou nada menos que quinze editoriais de apoio. Já os colegas se dividiam em duas turmas: os que, descrentes da natureza humana, achavam que estava usando a cadeia para reabilitar sua carreira e os que torciam para que não saísse de lá. No fim, a direção do Times fez a autocrítica com base na pedra fundamental do jornalismo: buscar a verdade, doa a quem doer. Nem que seja em si mesmo.

 
 
 
 
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