Edição 1929 . 2 de novembro de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Auto-retrato
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Internacional
O mandante está em Damasco

Investigação da ONU indica que
a Síria planejou o assassinato do
ex-primeiro-ministro do Líbano


José Eduardo Barella

 
Mohamed Azakir/Reuters
AP
Caos no centro de Beirute após atentado que matou Hariri (à dir.), em fevereiro: ameaça de sanções à Síria

Deposto Saddam Hussein, ditador do Iraque, em 2003, a turma linha-dura do governo americano discutiu a conveniência de fazer serviço parecido na Síria. Em muitos aspectos, depor o regime de Damasco seria o desdobramento natural da guerra no Iraque. A Síria é uma ditadura. Seu partido único é o Baath, que compartilha o nome e a ideologia com a antiga agremiação de Saddam. O regime sírio patrocinava abertamente o terrorismo palestino e ocupava com tropas um país vizinho, o Líbano. O projeto guerra na Síria acabou torpedeado nos altos escalões sob o argumento de que não convinha uma nova aventura militar no momento em que as Forças Armadas americanas estavam estressadas pelas duas guerras em curso, no Iraque e no Afeganistão. Assim, o ditador Bashar Assad conservou o poder em tempos difíceis. O surpreendente é que, de lá para cá, Assad parece ter feito de tudo para colocar a própria cabeça no cadafalso.

Louai Beshara/AFP
O presidente Assad: irmão e cunhado sob suspeita


Dado o caráter fechado do regime em Damasco, é difícil saber se Assad está ou não perto de perder o poder. O certo é que tem desbaratado de forma acelerada o patrimônio político herdado do pai, Hafez Assad, que governou por três décadas e morreu em 2000. Bashar, um oftamologista de 40 anos que só chegou ao poder porque seu irmão mais velho, que estava sendo preparado como sucessor, morreu num acidente de carro, em 1994, revelou-se um ditador inepto. Ele fomentou a inimizade americana ao permitir que seu território seja usado como porta de entrada de voluntários para a guerra santa no Iraque. Tanta besteira fez que acabou obrigado a retirar as tropas sírias do Líbano, país que seu pai tinha transformado em Estado vassalo em 1976. Para piorar, na semana passada saiu o segundo relatório preparado por investigadores da ONU sobre o mau comportamento do governo sírio. O primeiro, há duas semanas, implicou o regime sírio no assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri, em fevereiro. O segundo documento acusa a Síria de continuar a enviar armas às milícias palestinas no Líbano depois de retirar suas tropas do país, em abril.

As investigações internacionais apontam diretamente para o coração do regime, o clã Assad. O investigador alemão Detlev Mehlis, nomeado pelo secretário-geral Kofi Annan, fez um trabalho minucioso na apuração da morte de Hariri. O homem mais rico do Líbano foi morto numa explosão que abriu uma enorme cratera no centro de Beirute. Mehlis rastreou mais de 70.000 ligações telefônicas e relacionou uma vasta rede de políticos, militares e até um líder religioso libanês, além de diplomatas e agentes da inteligência síria, envolvidos no crime. O presidente Bashar Assad não é acusado diretamente, mas tudo aponta para seu irmão Maher, comandante da Guarda Presidencial, e para o cunhado Assef Shawkat, chefe do Serviço de Inteligência sírio. Ambos foram citados por uma testemunha como os mandantes do assassinato. Maher, de 37 anos, é conhecido pela truculência. Há cinco anos, baleou Shawkat no estômago durante uma discussão familiar. "Se parentes do presidente forem mesmo responsabilizados pela morte de Hariri, o governo sírio dificilmente vai entregá-los, por causa dos laços tribais que unem os alauítas", disse a VEJA o cientista político libanês Nadim Shehadi, da Universidade Oxford, na Inglaterra. Se Damasco não colaborar com as investigações, corre o risco de sofrer sanções internacionais.

Khaled Al-Hariri/Reuters

Foto de Assad numa loja em Damasco: ele herdou o poder, mas não a habilidade do pai

Para complicar o cenário, há menos de um mês apareceu morto o ministro do Interior, Ghazi Kanaan. Ex-chefe da Inteligência militar síria no Líbano, ele foi durante décadas uma espécie de vice-rei naquele país. Teria aproveitado para se tornar milionário. De acordo com o governo sírio, Kanaan suicidou-se – versão que levantou suspeitas. Hafez Assad, que governou a nação entre 1970 e 2000, fundou a dinastia e a manteve com mão-de-ferro. Frio e astuto, ele criou um regime laico baseado no culto à personalidade e na perseguição implacável aos desafetos. Inimigo de Saddam, rivalizava com o iraquiano na ambição de liderar o mundo árabe. Bashar não tem a experiência nem o carisma do pai. O governo sírio é uma caixa-preta, mas sobram rumores de que um grupo de parentes e militares disputa entre si cada parcela de poder. Muitos sírios dizem que o pior pesadelo é o vazio de poder, que teria potencial para levar à guerra civil entre a maioria sunita, que representa 74% da população, e os alauítas, seita de 12% dos sírios, incluindo o clã Assad. Os alauítas são uma vertente distante dos xiitas e, de modo geral, são vistos como hereges pelos demais muçulmanos. Muitos sunitas ainda não esqueceram o massacre de 20.000 pessoas na cidade de Hama, em 1982, quando o regime alauíta decidiu cortar pela raiz o risco de uma rebelião fundamentalista islâmica.

A guerra contra o terrorismo deixou a Síria em situação difícil. O país apóia abertamente grupos terroristas palestinos e o libanês Hezbollah. A invasão americana no Iraque, há dois anos, esquentou ainda mais a situação. A Síria é acusada pela Casa Branca de facilitar a entrada de terroristas islâmicos no Iraque pela fronteira em comum. A morte de Hariri foi a gota d'água para a reação internacional. O político mais popular do Líbano, Hariri comandava a oposição ao governo-fantoche imposto pelos sírios. Foi ele quem articulou com os Estados Unidos e a França uma resolução no Conselho de Segurança da ONU, aprovada no ano passado, exigindo a retirada das tropas sírias. O atentado, no centro de Beirute, matou outras 22 pessoas e gerou uma onda de protestos no Líbano que obrigou à saída antecipada dos soldados sírios do país.

 

O PROPINODUTO DE SADDAM HUSSEIN

Mary Altaffer/AP

Volcker: 1,8 bilhão de dólares em propinas


O Programa Petróleo por Comida foi criado pela ONU para amenizar os efeitos sobre a população das sanções econômicas impostas ao Iraque por ter invadido o Kuwait, em 1990. A fórmula permitia ao governo iraquiano vender petróleo a empresas de vários países em troca da importação de alimentos e remédios. O resultado foi uma roubalheira que enriqueceu muita gente, sobretudo o ditador iraquiano. Um relatório divulgado na semana passada por uma comissão independente da ONU revelou que o regime de Saddam Hussein faturou 1,8 bilhão de dólares em propinas, entre 1996 e 2003, vendendo petróleo a preços superfaturados e exigindo comissão na compra de alimentos. Mais de 2 200 empresas de 66 países participaram do esquema, entre elas multinacionais como DaimlerChrysler, Siemens e Volvo. O deputado trabalhista inglês George Calloway, o ex-ministro do Interior francês Charles Pasqua e o deputado ultranacionalista russo Vladimir Zhirinovsky, entre outros políticos europeus, intermediaram negociações entre empresas e o governo iraquiano. "Essa era a mãe de todos os programas humanitários", ironizou Paul Volcker, ex-presidente do Banco Central americano e chefe da comissão da ONU encarregada de investigar o caso, parafraseando a ameaça feita por Saddam durante a Guerra do Golfo, de que os Estados Unidos e aliados enfrentariam "a mãe de todas as batalhas". No total, o programa movimentou cerca de 100 bilhões de dólares. A maior parte das propinas, 1,5 bilhão de dólares, foi paga por empresas que venderam alimentos e remédios ao Iraque. Os envolvidos não podem ser processados pela ONU, apenas pela Justiça de seus países.

 
 
 
 
topovoltar