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Internacional O
mandante está em Damasco Investigação
da ONU indica que a Síria planejou o assassinato do ex-primeiro-ministro
do Líbano  José
Eduardo Barella Mohamed
Azakir/Reuters
 | AP
 | | Caos
no centro de Beirute após atentado que matou Hariri (à dir.),
em fevereiro: ameaça de sanções à Síria |
Deposto
Saddam Hussein, ditador do Iraque, em 2003, a turma linha-dura do governo americano
discutiu a conveniência de fazer serviço parecido na Síria.
Em muitos aspectos, depor o regime de Damasco seria o desdobramento natural da
guerra no Iraque. A Síria é uma ditadura. Seu partido único
é o Baath, que compartilha o nome e a ideologia com a antiga agremiação
de Saddam. O regime sírio patrocinava abertamente o terrorismo palestino
e ocupava com tropas um país vizinho, o Líbano. O projeto guerra
na Síria acabou torpedeado nos altos escalões sob o argumento de
que não convinha uma nova aventura militar no momento em que as Forças
Armadas americanas estavam estressadas pelas duas guerras em curso, no Iraque
e no Afeganistão. Assim, o ditador Bashar Assad conservou o poder em tempos
difíceis. O surpreendente é que, de lá para cá, Assad
parece ter feito de tudo para colocar a própria cabeça no cadafalso.
Louai
Beshara/AFP
 | | O
presidente Assad: irmão e cunhado sob suspeita |
Dado
o caráter fechado do regime em Damasco, é difícil saber se
Assad está ou não perto de perder o poder. O certo é que
tem desbaratado de forma acelerada o patrimônio político herdado
do pai, Hafez Assad, que governou por três décadas e morreu em 2000.
Bashar, um oftamologista de 40 anos que só chegou ao poder porque seu irmão
mais velho, que estava sendo preparado como sucessor, morreu num acidente de carro,
em 1994, revelou-se um ditador inepto. Ele fomentou a inimizade americana ao permitir
que seu território seja usado como porta de entrada de voluntários
para a guerra santa no Iraque. Tanta besteira fez que acabou obrigado a retirar
as tropas sírias do Líbano, país que seu pai tinha transformado
em Estado vassalo em 1976. Para piorar, na semana passada saiu o segundo relatório
preparado por investigadores da ONU sobre o mau comportamento do governo sírio.
O primeiro, há duas semanas, implicou o regime sírio no assassinato
do ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri, em fevereiro. O segundo documento
acusa a Síria de continuar a enviar armas às milícias palestinas
no Líbano depois de retirar suas tropas do país, em abril.
As investigações internacionais apontam diretamente para o coração
do regime, o clã Assad. O investigador alemão Detlev Mehlis, nomeado
pelo secretário-geral Kofi Annan, fez um trabalho minucioso na apuração
da morte de Hariri. O homem mais rico do Líbano foi morto numa explosão
que abriu uma enorme cratera no centro de Beirute. Mehlis rastreou mais de 70.000
ligações telefônicas e relacionou uma vasta rede de políticos,
militares e até um líder religioso libanês, além de
diplomatas e agentes da inteligência síria, envolvidos no crime.
O presidente Bashar Assad não é acusado diretamente, mas tudo aponta
para seu irmão Maher, comandante da Guarda Presidencial, e para o cunhado
Assef Shawkat, chefe do Serviço de Inteligência sírio. Ambos
foram citados por uma testemunha como os mandantes do assassinato. Maher, de 37
anos, é conhecido pela truculência. Há cinco anos, baleou
Shawkat no estômago durante uma discussão familiar. "Se parentes
do presidente forem mesmo responsabilizados pela morte de Hariri, o governo sírio
dificilmente vai entregá-los, por causa dos laços tribais que unem
os alauítas", disse a VEJA o cientista político libanês Nadim
Shehadi, da Universidade Oxford, na Inglaterra. Se Damasco não colaborar
com as investigações, corre o risco de sofrer sanções
internacionais. Khaled
Al-Hariri/Reuters
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de Assad numa loja em Damasco: ele herdou o poder, mas não a habilidade do pai
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Para complicar o cenário,
há menos de um mês apareceu morto o ministro do Interior, Ghazi Kanaan.
Ex-chefe da Inteligência militar síria no Líbano, ele foi
durante décadas uma espécie de vice-rei naquele país. Teria
aproveitado para se tornar milionário. De acordo com o governo sírio,
Kanaan suicidou-se versão que levantou suspeitas. Hafez Assad, que
governou a nação entre 1970 e 2000, fundou a dinastia e a manteve
com mão-de-ferro. Frio e astuto, ele criou um regime laico baseado no culto
à personalidade e na perseguição implacável aos desafetos.
Inimigo de Saddam, rivalizava com o iraquiano na ambição de liderar
o mundo árabe. Bashar não tem a experiência nem o carisma
do pai. O governo sírio é uma caixa-preta, mas sobram rumores de
que um grupo de parentes e militares disputa entre si cada parcela de poder. Muitos
sírios dizem que o pior pesadelo é o vazio de poder, que teria potencial
para levar à guerra civil entre a maioria sunita, que representa 74% da
população, e os alauítas, seita de 12% dos sírios,
incluindo o clã Assad. Os alauítas são uma vertente distante
dos xiitas e, de modo geral, são vistos como hereges pelos demais muçulmanos.
Muitos sunitas ainda não esqueceram o massacre de 20.000 pessoas na cidade
de Hama, em 1982, quando o regime alauíta decidiu cortar pela raiz o risco
de uma rebelião fundamentalista islâmica.
A guerra contra o terrorismo deixou a Síria em situação difícil.
O país apóia abertamente grupos terroristas palestinos e o libanês
Hezbollah. A invasão americana no Iraque, há dois anos, esquentou
ainda mais a situação. A Síria é acusada pela Casa
Branca de facilitar a entrada de terroristas islâmicos no Iraque pela fronteira
em comum. A morte de Hariri foi a gota d'água para a reação
internacional. O político mais popular do Líbano, Hariri comandava
a oposição ao governo-fantoche imposto pelos sírios. Foi
ele quem articulou com os Estados Unidos e a França uma resolução
no Conselho de Segurança da ONU, aprovada no ano passado, exigindo a retirada
das tropas sírias. O atentado, no centro de Beirute, matou outras 22 pessoas
e gerou uma onda de protestos no Líbano que obrigou à saída
antecipada dos soldados sírios do país.
O PROPINODUTO DE SADDAM HUSSEIN Mary
Altaffer/AP
 | | Volcker:
1,8 bilhão de dólares em propinas |
O Programa Petróleo por Comida foi criado pela ONU para amenizar os
efeitos sobre a população das sanções econômicas
impostas ao Iraque por ter invadido o Kuwait, em 1990. A fórmula permitia
ao governo iraquiano vender petróleo a empresas de vários países
em troca da importação de alimentos e remédios. O resultado
foi uma roubalheira que enriqueceu muita gente, sobretudo o ditador iraquiano.
Um relatório divulgado na semana passada por uma comissão independente
da ONU revelou que o regime de Saddam Hussein faturou 1,8 bilhão de dólares
em propinas, entre 1996 e 2003, vendendo petróleo a preços superfaturados
e exigindo comissão na compra de alimentos. Mais de 2 200 empresas de 66
países participaram do esquema, entre elas multinacionais como DaimlerChrysler,
Siemens e Volvo. O deputado trabalhista inglês George Calloway, o ex-ministro
do Interior francês Charles Pasqua e o deputado ultranacionalista russo
Vladimir Zhirinovsky, entre outros políticos europeus, intermediaram negociações
entre empresas e o governo iraquiano. "Essa era a mãe de todos os programas
humanitários", ironizou Paul Volcker, ex-presidente do Banco Central americano
e chefe da comissão da ONU encarregada de investigar o caso, parafraseando
a ameaça feita por Saddam durante a Guerra do Golfo, de que os Estados
Unidos e aliados enfrentariam "a mãe de todas as batalhas". No total, o
programa movimentou cerca de 100 bilhões de dólares. A maior parte
das propinas, 1,5 bilhão de dólares, foi paga por empresas que venderam
alimentos e remédios ao Iraque. Os envolvidos não podem ser processados
pela ONU, apenas pela Justiça de seus países. |
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