Edição 1929 . 2 de novembro de 2005

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Auto-retrato
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Brasil
O direito de Dirceu

Esta é a beleza da democracia:
permitir que um notório culpado
alegue inocência


Mario Sabino

 
Fotos Beto Barata/AE
Dirceu e Delgado, relator do Conselho de Ética: a cassação é necessária. Mas continuem lutando, camaradas

EXCLUSIVO ON-LINE
Cronologia da crise no governo

DOS ARQUIVOS DE VEJA
Reportagens sobre José Dirceu

O ex-ministro José Dirceu não foi o guerrilheiro idealista que alardeia ter sido – na verdade, durante o regime militar, passou a maior parte do tempo escondido em Cuba e no interior do Paraná, bem longe das escaramuças que levaram tantos esquerdistas à tortura e à morte. Mas ele demonstra ser um leão na defesa do seu mandato de deputado federal. Comandante supremo do esquema do mensalão, Dirceu agarra-se a todas as tábuas oferecidas pela chicana jurídica, a fim de evitar que o Conselho de Ética da Câmara envie para votação em plenário o relatório em que recomenda a sua cassação. Na semana passada, os advogados do ex-ministro conseguiram que o Supremo Tribunal Federal (STF) anulasse a aprovação do relatório pelo Conselho de Ética. O ministro do Supremo Eros Grau considerou que o relator Júlio Delgado não refez o texto como deveria, por determinação anterior do próprio STF, que mandara expurgar dados obtidos de forma irregular. Assim, Delgado terá de reescrever o relatório e submetê-lo a outra votação no Conselho – prevista para ocorrer até a próxima quinta-feira.

"Ele reclama de falta de direito à defesa, mas discordo. Nunca vi ninguém neste país com tanto direito à defesa quanto José Dirceu", diz o deputado Chico Alencar, do Rio de Janeiro, que se transferiu recentemente do PT para o P-SOL. A frase de Alencar resume o espanto dos cidadãos diante da quantidade de ardis jurídicos de que o ex-ministro e seus defensores vêm lançando mão – ardis que, ao que tudo indica, incluem eficientíssimos "embargos auriculares" junto às altas cortes, uma especialidade brasiliense. Seria, aliás, o caso de perguntar de que maneira os caros honorários dos advogados de Dirceu são pagos, visto que o ex-ministro tem uma renda visível que o coloca como integrante de classe bem média. Haveria uma renda invisível? Dirceu encontrou advogados que trabalham de graça por causa tão pouco social?

De qualquer forma, esta é a beleza da "democracia representativa burguesa", para usar o jargão dos que gostariam de derrubá-la: o cidadão tem sempre como se defender antes de ser privado de um direito seu. No caso de Dirceu, tantos recursos servem, ainda, para legitimar mais sua necessária cassação, tirando-lhe de vez o argumento de que foi vítima de um rito sumário e excrescências que tais, típicas das ditaduras – como a cubana, por exemplo, da qual o ex-ministro é admirador. Também é da natureza da "democracia representativa burguesa" a liberdade de opinião e expressão. É dessa possibilidade que se valem os intelectuais e artistas signatários de um manifesto pró-Dirceu, divulgado na semana passada. Arregimentados pelo maior interessado, e capitaneados pelo escritor Fernando Morais, eles tentam criar na opinião pública uma aura de simpatia em torno da figura do ex-ministro. A tarefa é difícil, camaradas, mas continuem tentando. A "democracia representativa burguesa" oferece espaço para todas as utopias.

 
 
 
 
topovoltar