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TELEVISÃO
Ciclo
Catherine Deneuve (sextas às
22h, no Eurochannel) De Brigitte Bardot a Isabelle Adjani,
o que nunca faltou no cinema francês foram atrizes de grande
beleza. Apenas uma delas, porém, atravessou quatro décadas
mantendo-se linda. Sendo ainda por cima talentosa e versátil,
não é de estranhar que a fama de Catherine Deneuve
perdure tanto. Neste miniciclo há quatro bons momentos de
sua carreira. A programação começa no dia 4,
com o musical Os Guarda-Chuvas do
Amor. Apesar de meio chato, o filme
é uma chance de vê-la no auge de sua forma física,
aos 21 anos. Rodado em 1967 pelo espanhol Luis Buñuel, A
Bela da Tarde (dia 11) é um
dos melhores papéis de Catherine: a burguesa casada e certinha
que, para preencher sua existência vazia, trabalha secretamente
num bordel. As atrações restantes são o épico
Indochina (dia
18) e Place Vendôme (dia
25), policial que lhe valeu o prêmio de atriz no Festival
de Veneza há dois anos.
LIVROS
Diário
de um Pároco de Aldeia,
de Georges Bernanos (tradução de Thereza Christina
Stummer; Paulus; 285 páginas; 14 reais) Bernanos,
um dos clássicos da literatura francesa no século
XX, era um democrata-cristão, no sentido mais literal do
termo. Profundamente envolvido com o catolicismo, ele costumava
dizer, no entanto, que a única maneira digna de servir à
Igreja era manter uma postura de "absoluta independência de
julgamento". Seu espírito crítico o colocou no centro
de polêmicas com outras personalidades importantes de seu
tempo. Durante vários anos, Bernanos levou uma vida errante,
chegando inclusive a estabelecer-se no Brasil. Seus livros mais
conhecidos são Sob o Sol de
Satã e este vigoroso Diário
de um Pároco de Aldeia, que
fala de temas caros à tradição cristã
como a graça, o pecado e a humildade.
Poesia,
de François Villon (tradução de Sebastião
Uchoa Leite; Edusp; 454 páginas; 38 reais) Mistura
de bandoleiro e poeta, François Villon foi uma das figuras
mais extraordinárias da literatura européia em todos
os tempos. Nascido em Paris, em 1431, ele era de família
rica e chegou a freqüentar a universidade. Depois de ferir
um padre numa arruaça, entretanto, precisou fugir da cidade
e acabou por ligar-se a um bando de malfeitores. Por causa de seus
crimes, foi condenado à morte por enforcamento, em 1463.
Conseguiu escapar da sentença e nada mais se sabe dele. Algumas
de suas poesias foram escritas num jargão secreto, usado
no submundo. Seus textos em francês arcaico, no entanto, estão
entre os mais musicais da língua. Nesta segunda edição
brasileira de sua obra, a tradução de vários
poemas foi melhorada, o que torna a leitura ainda mais prazerosa.
FILME
Divulgação
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| Instituto...:
amor aos 40 |
Instituto de Beleza Vênus (Vénus
Beauté, França, 1999.
Estreou nesta sexta-feira em São Paulo) Ganhador dos
principais prêmios César (o Oscar dos franceses) do
ano passado, este drama se passa no mais sagrado dos refúgios
femininos um salão de beleza. A trama se concentra
na esteticista Angèle, recém-entrada na casa dos 40
anos. Calejada em matéria de amores frustrados, ela desconfia
de tudo o que cheire a romance duradouro, preferindo ligações
rápidas (e quase sempre desastradas) com desconhecidos. Sem
apelar para aquela verborragia habitual do cinema francês,
o filme ganha pontos, sobretudo pela ótima interpretação
de Nathalie Baye no papel principal.
DISCO
Fernando
Lemos/Strana
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| Cachaça:
samba de primeira |
Coleção
Enciclopédia Musical Brasileira, Carlos
Cachaça (WEA) Morto em 1999, aos 97 anos, o compositor
Carlos Cachaça criou sambas de primeiríssima qualidade.
Apesar disso, seu único registro em disco, feito na década
de 70, estava esgotado havia um tempão. Boa notícia:
o álbum acaba de ser relançado, dentro de uma daquelas
coleções irregulares que as gravadoras lançam
de tempos em tempos para reciclar o catálogo. Um dos fundadores
da Mangueira, Cachaça investia em dois ingredientes que fazem
falta aos pagodeiros de hoje: música e letras impecáveis.
De tão belas, suas melodias encantaram até o maestro
inglês Leopold Stokowski, regente do celebrado filme Fantasia,
da Disney. Eis a oportunidade de conferir, na interpretação
contida do próprio compositor, preciosidades como Alvorada.
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LITERATURA
BRASILEIRA
Trouxa
Frouxa
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Vilma
Arêas
Companhia
das Letras; 82
páginas; 19 reais
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Na
tábua de mandamentos da literatura moderna, um dos
valores mais altos é certamente o da concisão.
O poeta americano Ezra Pound, por exemplo, costumava afirmar
peremptoriamente que "a incompetência se manifesta no
uso de palavras demasiadas". Graças a esse culto da
síntese, muitos textos importantes da ficção
do século XX ganharam um ar enigmático, de esfinge.
"Decifra-me ou te devoro", eles parecem dizer. Cabe ao leitor
desfazer as elipses, preencher as lacunas, fornecer o contexto
que o escritor oculta. De tanto ser repetida, no entanto,
essa idéia acabou se transformando em fetiche. Pior
ainda: virou desculpa para todo tipo de hermetismo que não
recompensa o esforço de interpretação.
Qual a fronteira entre o "texto conciso" e o "texto vazio"?
Nos últimos anos, essa questão voltou a ser
muito importante no Brasil. Uma leva de escritores tem praticado
o gênero do microconto, ou conto mínimo. O mais
conhecido é o curitibano Dalton Trevisan, que tem condensado
enredos inteiros em duas ou três linhas, sem jamais
permitir que eles percam força. Ele afirma que seus
textos são como "picadas de agulha". Às vezes
são como socos. Muitos outros autores, contudo, enveredaram
pelo mesmo caminho: Nelson de Oliveira, autor de Naquela
Época Tínhamos um Gato;
Rodrigo Naves, autor de O Filantropo;
e também Vilma Arêas, com este Trouxa
Frouxa, que é sua quarta
obra ficcional.
O
livro de Vilma é composto de 33 textos. Alguns ocupam
um par de páginas. Outros não passam de uma
linha. É possível, no entanto, dividir o conjunto
em dois grupos. Num deles, ficam textos preocupados em capturar
sensações, atmosferas, paisagens fugidias. São
exemplos o primeiro, Furo
na Mácula, e o último,
Praia. No
segundo grupo ficam obras de caráter mais narrativo,
contendo um conflito, uma situação curiosa que
às vezes parece ter sido inspirada em notícias
de jornal. Entre os mais interessantes encontram-se Dudu
(o primeiro de quatro contos
com esse mesmo título), Algaravia
e Real
Virtual. E é justamente
nestes que os melhores resultados do trabalho de desbastamento
da linguagem se encontram. Pois, neles, a concisão
trabalha a serviço da dureza e da ironia, voltadas
para a descrição de uma realidade bem brasileira,
que o leitor acaba por reconhecer. Por trás desses
textos, é possível perceber a sombra de Dalton
Trevisan. E aqui talvez se desenhe a moral da história:
nessas narrativas ultra-enxutas, que não abrem mão
de surpreender o leitor e atingi-lo com um golpe, encontra-se
o caminho que os novos cultores da concisão poderão
utilizar para deixar uma marca na literatura brasileira.
Carlos
Graieb
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