Claudio
de Moura Castro
Economista
(claudiomc@attglobal.net)
O frágil
império da ciência
"Não
podemos usar a ciência para testar a existência de Deus,
mas a biologia moderna, descendente direta de Darwin, cria os remédios
que salvarão vidas, mesmo a de seus descrentes"
Ilustração Ale Setti
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Metade dos prêmios Nobel e um terço da produção
científica mundial estão nos Estados Unidos. De lá
veio a liderança para o mapeamento do genoma humano. Muitos
de nós estamos vivos graças aos recentes avanços
na medicina americana. Os computadores já falam (inglês)
e um deles ganha dos melhores enxadristas.
Vem
de longa data a liderança científica e tecnológica
de nosso vizinho e daí seu poder. Poderia parecer então
que lá a ciência está solidamente estabelecida
e os paradigmas do pensamento científico são inabaláveis.
Ledo engano.
A
teoria da evolução das espécies tem 140 anos.
Nela, Darwin mostrou que as espécies mudam, vão se
transformando, umas competindo com as outras e sobrevivendo as mais
aptas. Nessa teoria, o homem descende de primatas e é primo
do macaco. É o alicerce de toda a biologia moderna, cujos
êxitos nos salvam a vida e alimentam uma população
para a qual a Terra pareceria pequena demais. Nenhum professor titular
de biologia de qualquer uma das cinqüenta melhores universidades
americanas admite explicação alternativa. Hoje, nenhuma
das religiões ocidentais importantes tem pinimba com a teoria
da evolução. Não obstante, em 1925 o Estado
americano do Tennessee, depois da batalha legal de Monkey Trial,
aprovou uma lei que proibia o ensino da teoria da evolução.
Somente em 1968 essa lei foi revogada. Poderíamos pensar
que se trata de um episódio triste, obscurantista, mas encerrado.
Contudo,
pesquisa de opinião recente demonstrou que 47% dos americanos
acreditam que Deus criou os homens tais como são, enquanto
49% aceitam a evolução como explicação
correta. Pesquisa com alunos de cursos superiores mostrou a falta
de bases científicas de 45% daqueles que duvidam da teoria
da evolução. Pior: alguns Estados vêm aprovando
leis que obrigam a ensinar o "criacionismo científico" (cuja
cientificidade é negada pelos biólogos sérios)
lado a lado com a teoria da evolução. O Kansas eliminou
o assunto do currículo.
Stephen
Jay Gould, o conhecido paleontólogo da Harvard, atribui isso
à fragilidade da educação científica
americana, que varia entre a melhor e as mais catastróficas
do mundo. Mas há o outro lado da questão: a pouca
penetração da ciência na sociedade, mesmo diante
das próprias questões científicas. Metade da
população pontifica sem saber do assunto e sem respeitar
a autoridade de quem sabe. Isso mostra a pouca fé no método
científico, que é a grande ferramenta ou motor do
conhecimento.
Um
dos grandes avanços de nossa civilização é
o processo metódico e sistemático de fazer progredir
o conhecimento: o teste empírico das teorias. Cada teoria
é confrontada com a realidade, de forma rigorosa e perfeitamente
explicitada, de modo que qualquer um que faça o mesmo experimento
chegue às mesmas conclusões. A teoria conflita com
os resultados? Então, lata de lixo para ela. Se a observação
não nega a teoria, ela sobrevive, até que alguém
encontre uma massa suficiente de casos em que a teoria não
concorda com a realidade. Assim, a ciência vai desbastando
a ciência boa do mito, do palpite, da superstição.
O que sobra é sólido.
Como
a observação não nega as idéias de Darwin
(com os retoques e ajustes esperados), a teoria da evolução
é aceita. De fato, hoje sabemos que o homem compartilha 98%
de seu DNA com o chimpanzé. Então, qual a autoridade
intelectual de quase metade da população americana
para negar uma teoria que resistiu a 140 anos de ataques por aqueles
que sabem do assunto?
É
perigoso ter uma população basbaque, que acredita
em tudo. Mas o extremo oposto não é menos perigoso,
pois isso significa a descrença no engenho mais possante
que temos para verificar se alguma teoria que descreve a realidade
é verdadeira ou falsa. Não podemos usar a ciência
para testar a existência de Deus ou seus mandamentos. Esses
são atos de fé ou juízos de valor. Mas a biologia
moderna, descendente direta de Darwin, cria os remédios que
salvarão vidas, mesmo a de seus descrentes. É triste
reconhecer, mas, no país mais poderoso do mundo, a ciência
não chegou ao povão.