Roberto
Pompeu de Toledo
A falta que
a neve nos faz
Este
frio que hoje visita uma
parte do país, na maior parte do
ano,
ele perfidamente nos esquece
Que
é a neve? Nada. Uma água enrijecida, até bonita,
quando contemplada com boa vontade, mas que desmancha mais fácil
que castelo na areia. A neve tem a consistência dos fantasmas.
É como uma miragem, uma ilusão. Não bastasse,
é um paradoxo: a água, fluida por definição,
ágil, esperta, impossível de ser agarrada na mão,
travestida de objeto duro e duradouro, como se fosse diamante. De
longe, a neve, nos países em que neva, parece, em sua inocente
brancura, uma capa de beatitude deitada sobre a paisagem. Vai ver
de perto... Provoca escorregões que tornam a locomoção
dificultosa como sobre um colchão de água. Ocasiona
quedas que levam ao hospital. E, ao começar a derreter e
se misturar ao pó e à terra, vira uma substância
barrenta, viscosa, na qual só com repulsa se põe o
pé. Quer o leitor que nunca viu neve experimentar a sensação
de tê-la por perto? Vá até a poça d'água
mais próxima de casa, a mais misturada com terra, jogue algodão
sobre ela eis a neve. Agora pise em cima e terá a sensação
de insegurança, desânimo e exposição
à sujeira que é tê-la sob os pés. A neve
é tudo isso ilusão, paradoxo, desconforto, sujeira
e, além do mais, sinal de um frio de rachar os ossos e
tornar a vida impraticável. No entanto...
No
entanto, como amamos a neve! Como nós, brasileiros, a cultuamos,
como a temos em alta consideração! Nestes dias de
frio, pelo menos da metade do país para baixo, já
o frio em si é recebido como um prêmio de distinção.
Vestimos os agasalhos (fala-se aqui dos que têm agasalhos,
naturalmente), reunimo-nos para comer fondue (os que sabem o que
é fondue), e esses simples atos equivalem a uma condecoração.
Somos como que agraciados com a medalha da civilização.
Sim, porque no fundo é disso que se trata. Frio, para nós,
é civilização. Inverno é cultura. Isso
quanto à simples incidência do frio. E quando cai neve,
então, nas parcas e isoladas regiões do país
em que isso acontece Gramado, São Joaquim? Então,
é a euforia. Os boletins meteorológicos anunciam:
"Vai nevar esta noite na Serra Gaúcha!", como se anunciassem
que vai cair ouro do céu. As televisões exibem as
imagens, e os jornais as fotos, como testemunhos de um triunfo,
mais uma conquista brasileira como uma vitória no futebol
contra a Argentina, como um feito diante do qual a Europa inescapavelmente
se curvará.
O
jornalista e historiador Matthew Shirts, americano radicado no Brasil,
muito fascinado pela cultura brasileira e pelas comparações
entre o Brasil e os Estados Unidos, escreveu, numa de suas últimas
colunas no jornal O Estado de S. Paulo, que o brasileiro
"se vê como um ser tropical". "Faz parte de sua identidade",
acrescentou. "Canta a música Moro num País Tropical
de boca cheia, de norte a sul. O frio não cabe na sua auto-imagem."
O brasileiro que Shirts tem em mente é possivelmente o mulato
inzoneiro, torcedor do Flamengo o brasileiro do povão.
Sim, este tanto se assume como ser tropical que tem medo do frio
medo mesmo, como medo de onça. Há brasileiros que
têm medo de São Paulo por causa do frio até
de São Paulo, que não é nenhuma Estocolmo,
e nem mesmo Porto Alegre. "Lá faz muito frio", dizem, e sublinham
a expressão com a ênfase de um esconjuro. Mas há
brasileiros e brasileiros. Há outros para os quais a condição
tropical é como doença a ser estoicamente suportada
pois sua alma está lá longe, nas esferas temperadas
onde moram a beleza e a sabedoria. Eis mais uma clivagem entre os
brasileiros: o frio os separa. Aqueles que se ajustam mal à
condição tropical, que identificam no calor o sinal
de vergonhosa inferioridade esses são vítimas de
uma insistente e dolorosa nostalgia da neve.
Não
é de hoje que é assim. Vejam-se os quadros ou fotografias
do Brasil do século XIX não o Brasil dos escravos
descalços e de torso nu, mas o Brasil dos senhores: todos
de fraque, ou envolvidos em casacos de grosso tecido, golas altas,
luvas, polainas. Reinava uma aparatosa simulação de
frio. O Rio de Janeiro da época não era diferente
do de hoje. Um calor de 40 graus sufocava a cidade. No entanto,
os figurantes da corte, à custa de patriótico suor,
cumpriam o papel de exibir-se condignamente encasacados uma obrigação
que deviam aos princípios mais comezinhos da educação
e da inteligência. Eles faziam a sua parte. Pena que a paisagem
não fizesse a sua, e o Pão de Açúcar
não se apresentasse, alguns meses por ano, coberto de neve.
Dessa perfídia da natureza resultava que a simulação
só podia ir até certo ponto. A realidade de um sol
indecente acabava por desmoralizá-la.
Hoje,
não é que finjamos ter frio. Nesse ponto, evoluímos.
Mas a euforia causada, a cada ano, pela notícia de que nevou
em São Joaquim prova quanto o prestígio da neve continua
intocado entre nós. É como se, no resto do ano
e como sobra ano, depois da efêmera visita de uns parcos flocos
de neve , a paisagem nos traísse. Se fosse diferente,
se a neve recobrisse com mais constância, e de maneira mais
abrangente, o território nacional ah, aí não
teríamos tanta ignorância, nem tanta indolência,
nem tantos escândalos políticos.
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