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Uma espiadela à direita

Ilustração Pepe Casals


Olhe ali. Um pouco mais para a direita. Está vendo? Como não? Siga o meu dedo. É o líder nacionalista austríaco Joerg Haider. Da minha janela, vejo-o perfeitamente. Acaba de desembarcar de lancha no Hotel Europa & Regina, aqui em Veneza. Está de paletó preto sobre camiseta branca. Só um austríaco poderia se vestir desse jeito. Um austríaco ou Roberto Carlos. Haider veio a Veneza para promover o turismo no Estado que governa, a Caríntia. A principal atração turística da Caríntia, este ano, é o musical Rocky Horror Picture Show. De fato, Haider, em sua visita a Veneza, está acompanhado de dois bailarinos do espetáculo, com seus característicos trajes sadomasô. Do ponto de vista econômico, a Caríntia vale pouca coisa. É dez vezes menor que o Vêneto. Haider, portanto, faz muito bem em buscar dinheiro por estas bandas. Mas ele não está atrás apenas de dinheiro. Também quer umas imagens que aumentem seu cartaz junto à direita européia. É jogo fácil. Diante de seu hotel, aglomeram-se uns cinqüenta manifestantes de esquerda, com bandeiras vermelhas, apitos e rojões. Logo a seguir, passa um barquinho com dois senhores que empunham surradas bandeiras cubanas. Para Haider, não poderia ser melhor. Os manifestantes levantam-lhe a bola, a ele só resta chutar para o gol. Antes mesmo que os jornalistas tenham tempo de formular a pergunta, ele declara, ironicamente, que conseguiu tirar da letargia os últimos comunistas.

Todo mundo sabe que Haider não é Hitler. Mas manter essa ficção convém a muita gente. Os políticos da esquerda social-democrata podem alegar que, sem eles, a Europa correria o risco de virar uma ditadura. Os políticos da direita moderada podem demonstrar que só eles têm a capacidade de interceptar votos que, caso contrário, iriam para os extremistas. E o próprio Haider lucra com isso, pois, quanto mais a esquerda o ataca, mais ele se legitima como candidato antiesquerdista. É uma estratégia simplória, mas funciona. Sempre que a tensão em torno de seu nome começa a diminuir, Haider solta uma frase xenófoba ou anti-semita, provocando a reação indignada dos adversários e conquistando, assim, a credencial de pior inimigo da velha burocracia esquerdista. É a política do nosso tempo: nada é mais precioso do que uma boa oportunidade de reportagem para o telejornal. Essa equação vale tanto para Haider quanto para o protesto do Greenpeace ou para o prefeito do vilarejo italiano que se faz fotografar dentro de um caixão. Nesse ponto, a manifestação em Veneza é perfeita. Haider é um político suburbano de um Estado inexpressivo, e os manifestantes não passam de uns cinqüenta garotos. Mas o cenário é muito fotogênico. Tem o Canal Grande. Tem os barquinhos. Tem o jovem vereador que acaba de se jogar na água. Não é improvável que essas imagens ocupem alguns segundos dos telejornais de meio mundo. O único problema, para Haider, é que esse tipo de política invade todos os campos. Pouco tempo atrás, ele foi visto numa missão secreta à Líbia. A imprensa marrom chegou a insinuar que existiria uma relação homossexual entre ele e o filho do ditador líbio Kadafi. Haider caiu imediatamente nas pesquisas de opinião pública. Frases racistas não tiram votos; boataria de caserna, sim.

 

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