Entrevista Tostão

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Mesmo com a vitória sobre a Argentina,
o ex-craque diz que o Brasil tem bons
jogadores, mas deixou de ser o
melhor do mundo

 
Michael Germana
"Luxemburgo chama os jornalistas para um cafezinho, cria intimidade, mas depois quer cobrar fidelidade"

Eduardo Gonçalves de Andrade já viveu três vidas em seus 53 anos. Nas décadas de 60 e 70, envergando as camisas do Cruzeiro de Belo Horizonte e da seleção brasileira, e com o apelido de Tostão, revelou-se um dos mais geniais jogadores da história do futebol. Um acidente no olho afastou-o dos gramados aos 26 anos e nos 21 seguintes ele se transformou no doutor Eduardo, médico e professor de medicina que trabalhava doze horas por dia e não fazia outra coisa senão dedicar-se a seus alunos e a seus pacientes. Em 1994, careca, gordo e aparentando mais idade do que a real, voltou a ser Tostão e ao futebol, agora como um comentarista arguto. Severo em suas críticas, caso raro em ex-jogadores travestidos de analistas, ganhou muitos desafetos no futebol, mas conquistou definitivamente o respeito e a admiração dos telespectadores da ESPN Brasil, canal pago de esportes, onde trabalhou por cinco anos, e dos leitores de jornais de nove Estados brasileiros que publicam sua coluna duas vezes por semana. Na semana passada, Tostão recebeu VEJA em sua casa nos arredores de Belo Horizonte para a seguinte entrevista.

Veja – A torcida comemorou com entusiasmo a vitória da seleção contra a Argentina. O Brasil ainda é o melhor futebol do mundo?
Tostão – Se o Brasil tivesse perdido, choraríamos, como se já estivéssemos fora da próxima Copa. Como ganhou, achamos logo que somos os melhores do mundo. Isso é comum no futebol, mas é uma falsidade. Temos jogadores tão bons quanto a Argentina, a França e a Holanda, mas não um time melhor que o deles. Esse é o principal problema da seleção hoje – ter um time organizado, com conjunto. Os melhores times europeus e da Argentina estão um passo a nossa frente: jogam praticamente com a mesma formação desde a última Copa.

Veja – Mas a convicção mais repetida no futebol é a de que o Brasil tem os melhores jogadores do mundo.
Tostão – A torcida, a imprensa e os próprios atletas gostam de acreditar que os melhores jogadores do mundo estão no Brasil, o país do futebol. Isso é uma grande ilusão. A qualidade dos brasileiros hoje é igual à dos jogadores das grandes seleções. O que existe no Brasil é um número maior de talentos. Temos material humano para formar três boas seleções, enquanto os adversários só podem formar uma. Como só jogam onze, o Brasil individualmente não é melhor do que a França, a Argentina ou a Holanda.

Veja – O fato de ter um número maior de bons jogadores não é uma vantagem?
Tostão – Uma das razões pelas quais não temos um time definido é o excesso de bons jogadores. Em todas as posições, há controvérsia sobre quem é o melhor. Até o técnico está confuso. Ele não pode ser teimoso, a ponto de achar que o time são os onze que ele escolheu, mas também não pode mudar a escalação a cada jogo. Esse tem sido o grande erro da seleção de Wanderley Luxemburgo.

Veja – Onde ele errou na escalação?
Tostão – Temos vários jogadores jovens e talentosos que não estão sendo bem aproveitados. É o caso de Alex, Ronaldinho Gaúcho, Athirson e França. Luxemburgo tem preferido escalar alguns jogadores que já deram tudo o que podiam dar, caso de César Sampaio, Antonio Carlos, Aldair e Flávio Conceição. Eles são bons, mas não há chance de se tornarem melhores do que já são.

Veja – Por que o Luxemburgo briga com todos os craques?
Tostão – Para mostrar que tem autoridade, que é o senhor da situação. Já teve atritos desnecessários com o Denilson, com os dois Ronaldinhos, com o Cafu. Tem gente que acha que ele convoca jogadores, como o Edmundo, o Marcelinho e o Edilson, só para ir minando-os até afastá-los da seleção.

Veja – Ele é o melhor técnico do Brasil?
Tostão – Técnico é como jogador, também tem o direito de ter uma fase ruim, de ficar fora de forma. Estamos esperando que ele entre em forma e mostre um bom trabalho.

Veja – Técnico ganha jogo?
Tostão – Já vi treinador mexer no time e virar o jogo, mas no vôlei, no basquete, no futebol de salão. No campo de futebol, o técnico tem poucas chances de interferir. Mas eles criaram uma pose de que têm uma importância decisiva. A supervalorização dos treinadores é um dos maiores males do futebol brasileiro. Eles ganharam tanta importância que acabam inibindo e tolhendo o talento dos bons jogadores. O Luiz Felipe Scolari chegou para treinar o Cruzeiro e parece que chegou Jesus Cristo. Esqueceram-se de que o Palmeiras, que ele treinava, acabara de perder a Libertadores, a Copa do Brasil e o Campeonato Paulista.

Veja – De que maneira a crença de que ainda somos os melhores do mundo afeta o rendimento de nossos jogadores?
Tostão – Escrevi certa vez que o Roberto Carlos foi eleito o número 2 do mundo, mas acreditou que é o número 1. É um caso típico de arrogância. Dá a impressão de que está se poupando em campo. Sente-se o senhor do jogo e pensa que na hora que der vontade vai lá e resolve.

Veja – Os jogadores brasileiros perderam a última Copa, mas não tiraram nenhuma lição da derrota. Você concorda?
Tostão – Nunca vi um jogador brasileiro fazer uma análise sobre o que aconteceu naquele dia. Eles não entenderam que o time da França era tão bom quanto o do Brasil e venceu porque jogou melhor. Para os jogadores brasileiros, o problema com Ronaldinho foi a única explicação para a derrota.

Veja – Por que o jogador brasileiro não consegue refletir?
Tostão – Ele é imaturo. Vive num mundo onde só existe ele, a bola, o jogo e sua vida pessoal. Não tem o hábito de, acabado o jogo, pensar por que jogou mal, o que aconteceu. O que falta ao Rivaldo, por exemplo, é essa visão crítica do futebol. Por sua habilidade e técnica, pode-se dizer que é um jogador excepcional. Mas ele não tem consciência do jogo coletivo. Para ser um grande jogador é fundamental ter uma visão crítica de suas virtudes e de seus defeitos. A autocrítica é uma dificuldade para o jogador brasileiro. Mesmo quando vai atuar no exterior ele não evolui. Leva para fora do país uma série de parentes e agregados para reproduzir seu mundinho.

Veja – Como os jogadores conseguem enfrentar a fama se são tão mal preparados para a vida?
Tostão – Eles não conseguem, perdem a referência de mundo. A fama do Ronaldinho cresceu demais e isso certamente o prejudicou. Muita gente endeusando de um lado, os empresários manipulando-o do outro, excesso de compromissos empresariais, tudo isso fez com que perdesse o foco no que era o essencial de sua carreira. Já não conseguia separar o profissional dentro do campo do personagem de marketing que foi criado.

Veja – Ronaldinho ainda tem chances de virar o jogo?
Tostão – Do ponto de vista médico, é uma mentira dizer que ele vai voltar a campo sem nenhum tipo de seqüela. Pode até ser, mas ninguém pode garantir isso agora, e com certeza o retorno será difícil. O que sentimos hoje é que ele faz muita falta. Um dos problemas da seleção é não ter um atacante fora de série. No Brasil só existem dois jogadores nessa categoria: o Ronaldinho e o Romário. Mesmo com todos os problemas que enfrentou, ele atingiu um nível muito superior ao dos outros jogadores.

Veja – Ronaldinho é mesmo fora de série ou apenas um produto de marketing?
Tostão – Ele é fora de série. Quando começou a jogar no Cruzeiro, com 16 anos, já mostrou que era um supercraque. Com o tempo, passou a enfrentar dificuldade, não só por causa do problema físico, mas porque começou a ser muito marcado. Como é um jogador que usa muito mais a velocidade e a habilidade do que a inteligência e a criatividade, as chances dele diminuíram. Mas é um jogador extraordinário.

Veja – Você escreveu que o Ronaldinho sofria da síndrome de Compostela: toda vez que pega a bola quer repetir a jogada em que driblou todo o time adversário e marcou um golaço. O que você queria dizer?
Tostão – Ele criou um compromisso de que era obrigado a fazer jogadas maravilhosas em todos os jogos. Seu personagem ficou muito maior do que o jogador. Mas tudo tem um limite. O jogador fenomenal tem dois ou três momentos fenomenais num jogo. No resto do tempo ele é apenas um bom jogador. Já o Ronaldinho quer ser genial nos noventa minutos e acaba jogando mal o tempo todo.

Veja – Pelé também só era genial durante cinco minutos?
Tostão – As pessoas acham que os grandes craques do passado só faziam jogadas maravilhosas, que nunca éramos vaiados pela torcida. Quantas vezes fui chamado de perna-de-pau! Pelé foi vaiado, era criticado. Romário sempre teve inteligência para esperar o melhor momento para brilhar.

Veja – Wanderley Luxemburgo diz que você critica tanto porque é ressentido com o futebol. Você concorda?
Tostão – Ele acha que, por ter sido jogador, falto com a ética ao criticar outro jogador. Não se conforma que eu possa emitir minha opinião, elogiar, criticar, desvinculado do passado. Fui jogador, mas não sou mais. Minha função é falar as coisas como acho que devem ser ditas.

Veja – Como é seu relacionamento pessoal com Luxemburgo?
Tostão – O primeiro contato que tive com ele foi ótimo. Tomamos um cafezinho, tratei-o com a maior educação, ele foi simpático. Depois se assustou com o que eu escrevi no jornal. Soube então que ele costuma fazer isso com a maioria dos jornalistas: chama para um cafezinho, cria intimidade e depois cobra fidelidade. Para mim, a relação do técnico com o jornalista tem de ser de respeito, educação, e cada um faz seu trabalho. O tetracampeão mundial Carlos Alberto Parreira age diferente. Mesmo criticado, é incapaz de ser mal-educado.

Veja – E como é a convivência dos jornalistas com os jogadores?
Tostão – Na minha época era um negócio espúrio, uma promiscuidade total. O repórter do Cruzeiro era torcedor do time e ia ao clube só para falar bem do time. Eu achava que isso não existia mais, mas depois de quatro anos acompanhando a seleção notei que continua uma coisa natural. Dia desses, um repórter entrevistou um jogador da seleção e saiu abraçado com ele. A câmara flagrou e o repórter achou o máximo!

Veja – Galvão Bueno, da Globo, é a encarnação da pátria de chuteiras.
Tostão – O conceito predominante é de que o esporte é um show e tudo faz parte do espetáculo, inclusive a transmissão da televisão. A informação jornalística fica num segundo plano. O futebol virou muita festa e pouca cultura.

Veja – Você já foi convidado para trabalhar na Globo?
Tostão – Várias vezes. Não vou dizer que não queria. Iria me sentir orgulhoso, porque teoricamente lá estão os melhores. Mas me senti constrangido, inquieto sobre como eu ficaria no meio desse ambiente de espetáculo, e recusei.

Veja – Depois de muita confusão, o Campeonato Brasileiro começou com um recorde de 109 clubes. Como se explica que essa situação continue mesmo após a entrada dos investidores estrangeiros?
Tostão – O futebol sempre foi desorganizado no Brasil. A esperança era de que, com a entrada das empresas, isso acabasse, virasse uma coisa profissional. Mas estamos num período de transição. As empresas estão entrando, mas não têm voz ativa. Os clubes continuam sendo administrados por dirigentes amadores. Há uma confusão muito grande.

Veja – Esse tipo de conflito afeta o que ocorre dentro de campo?
Tostão – Há uma verdadeira paranóia hoje no Brasil, com certa razão, de que tudo é feito debaixo do pano. O torcedor está sempre duvidando do juiz, do dirigente, do jogador. O jogador perde um pênalti e o cara da arquibancada acha que ele está vendido. Há um receio dos torcedores de que, com as empresas, só vai valer a lei do dinheiro.

Veja – Por que o torcedor confia mais no Eurico Miranda do que nos grandes grupos financeiros que estão investindo no futebol?
Tostão – Quanto maior a globalização, mais as pessoas querem saber de seu mundo restrito, de seu bairro. Eurico está ali no meio deles, faz parte da vida deles. Pode ter defeitos, mas é torcedor do Vasco. Há um compromisso entre eles de fidelidade. Quando o Eurico fala que foi eleito no Congresso para defender os interesses do Vasco, um grande absurdo, o torcedor acha que é para seu próprio bem.

Veja – A discussão em torno dos rumos do futebol não reproduz o debate em relação aos rumos do país?
Tostão – Há uma desconfiança de que tudo funciona em conchavos, em subterfúgios e troca de interesses. O torcedor acha que o futebol é só isso, que todo mundo é ladrão: jogador, juiz, dirigente. Há uma descrença total, em todo o país, que se manifesta no futebol dessa maneira.

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