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Quem é você?Com a ajuda da internet,
aumenta Aida Veiga
Aos curiosos de primeira viagem, um aviso: trata-se de um trabalho que demanda faro de detetive e paciência de Jó, e a internet é só o primeiro passo. Quando estiver totalmente implantado, o site da igreja mórmom, por exemplo, irá remeter cada procura a todas as páginas da internet com informações a respeito do sobrenome citado. Além disso, fornecerá uma lista das pessoas que já pesquisaram a mesma família. E só. "Não vamos fazer a árvore genealógica de ninguém", diz Antonio Fernandes, diretor da igreja no Brasil. "Mas, com tanta informação, vai ser possível descobrir antepassados, encontrar parentes e fazer contato com eles em qualquer lugar do mundo." Vencida a fase internauta, o pesquisador de suas origens terá de pôr a mão na massa: mergulhar em livros, registros, certidões e uma tonelada de papéis velhos e empoeirados, espalhados por uma infinidade de lugares. À medida que se vão desbravando gerações, a lista de parentes se multiplica. O impávido explorador que chegar à vigésima geração se verá cercado por mais de 1 milhão de ancestrais. Origem e patriarcas – Nada disso desanima os interessados. Há quatro anos, os mórmons do Brasil tinham uma dúzia de centros de História da Família, o local onde ficam arquivados os dados (uma cópia de cada registro vai para o bunker de pedra escavado em uma montanha do Estado de Utah, no centro-oeste dos Estados Unidos, onde estão guardados 2 bilhões de microfilmes). Hoje, são quase 200 centros, com mais de 2 milhões de registros acessíveis gratuitamente a qualquer pessoa. "Uns fazem por curiosidade; outros para requerer direitos como herança e dupla cidadania", conta Fernandes. Pesquisar por conta própria compensa os obstinados. Um especialista cobra, em média, 3.000 reais por uma árvore genealógica. "Demoro, em média, três meses em cada árvore", explica Marta Amato. Existem também os amadores teimosos, que começam por curiosidade, pegam gosto e não largam mais. "Pesquisar as origens é tão interessante que virou hobby na minha família", conta a paulista Celina Isoldi, que fez duas descobertas surpreendentes: é parente de Tiradentes e do próprio marido, Carlos Alberto da Silveira Isoldi, também fã da genealogia. Seu filho caçula, Carlos Alberto, está agora investigando as raízes da família na Itália e entrando em contato com parentes. "Ficamos viciados", assume Celina.
Essa turma de curiosos será público cativo do Dicionário de Famílias Brasileiras, monumental trabalho conjunto do deputado federal Cunha Bueno e do historiador Carlos Eduardo Barata, com lançamento previsto para o segundo semestre. O dicionário vai ocupar um terreno árido no Brasil, onde só existem atualmente cerca de 100 livros de histórias de família (em geral, a do próprio autor) e raras obras especializadas, como o clássico Genealogia Paulistana, de Silva Leme, que está esgotado e terá seus nove volumes reeditados em CD-ROM. O dicionário de Cunha Bueno e Barata tem mais de 14.000 verbetes (veja quadro) divididos em dois volumes de 900 páginas cada um. Reunindo informações que vão do descobrimento do Brasil até o começo deste século, o livro dá a origem de cada sobrenome, suas principais ramificações e um currículo resumido dos patriarcas e descendentes mais destacados. "É a primeira vez que os brasileiros terão acesso a informações sobre famílias indígenas e negras. Antigamente, só se estudava a elite", antecipa Barata. Cabral e Carlos Magno – A melhor parte da busca das raízes é, no meio do caminho, topar com um antepassado ilustre (pedreiros, criados, meretrizes ou palafreneiros são definitivamente menos instigantes). O músico Roberto de Carvalho descobriu que sua família descende de Fernão Dias Paes, o bandeirante das esmeraldas. Por tabela, é primo distante de Ruth Cardoso, da rainha Silvia da Suécia e do banqueiro Olavo Setúbal, todos descendentes do bandeirante. Sua mulher, a cantora Rita Lee, tem entre seus antepassados o cientista Vital Brasil, de quem é parente também o ator Tarcísio Meira – note-se nas fotos a semelhança de queixo, olhos e nariz. Emoção maior ainda sentiu o estudante carioca Marcelo Peixoto da Silva, um aficionado da genealogia que começou a pesquisar há oito anos e garante que já desfiou para trás o fio da meada até o ano 255. Apesar de ter um dos mais populares sobrenomes brasileiros, Silva se descobriu descendente de Pedro Álvares Cabral e do imperador Carlos Magno. "Não imaginava ter parentes tão famosos", conta. "Fiquei orgulhoso." Qualquer um, no entanto, que recuar tanto no tempo provavelmente chegará a resultados parecidos: de longe, somos todos reis.
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