Japão

O quinto poder

Mafiosos da Yakuza se infiltram
nas empresas e lucram com
a crise econômica

Angelo Ishi, de Tóquio


Durante muito tempo, os membros da Yakuza, a máfia japonesa, foram os criminosos mais espalhafatosos do planeta. Até as crianças sabiam evitar a aproximação de homens de óculos escuros com roupas chamativas, tatuagens por todo o corpo e dedos decepados em rituais de punição. Também eram de domínio público as atividades dos mafiosos: casas noturnas, prostituição, jogo, tráfico de drogas. Hoje, a Yakuza está por toda parte no Japão. Muitos de seus integrantes se confundem com sóbrios executivos nas grandes cidades, pois as gangues souberam como ninguém tirar proveito da crise econômica da última década. "Onde há dinheiro, há Yakuza", afirma Raisuke Miyawaki, ex-diretor-geral da polícia. Uma investigação oficial divulgada no início do mês lhe dá razão. Das 2.326 companhias pesquisadas, 1.031 disseram ter sofrido pressões da Yakuza e 59 simplesmente admitiram ter pago propinas sob chantagem. Uma das empresas confessou ter mimoseado os criminosos com 8 milhões de dólares. O relatório policial limitou-se aos números, mas suspeitas bem fundamentadas apontam relações promíscuas entre o crime organizado e marcas mundialmente famosas, como Mitsubishi, Toshiba, Banco Sumitomo e JAL.

Pode-se dizer que a Yakuza passou por uma espécie de reengenharia semelhante à adotada pelas grandes corporações. O número de homens em suas fileiras diminuiu radicalmente, de cerca de 180.000 nos anos 60 para menos de 80.000 nesta década, enquanto a organização se sofisticou e maximizou lucros: calcula-se que 30.000 membros atuem diretamente nas grandes empresas, não raro com cadeiras cativas nos conselhos de acionistas, de onde tiram o poder para fazer chantagem. Muita coisa se perdeu no processo, pelo menos do ponto de vista dos velhos mafiosos. Eles não se cansam de lamentar o declínio de ideais como honra, obediência à hierarquia e disciplina militar. "Eu nunca me filiaria à Yakuza atual", resmunga o chefão semi-aposentado Tokutaro Takayama, torcendo o nariz para a ganância dos jovens mafiosos. Do ponto de vista pecuniário, contudo, a organização vive uma fase brilhante, com lucro anual calculado em 45 bilhões de dólares.

Dívidas e assassinatos O ingresso da Yakuza nas altas rodas empresariais explodiu a partir de 1992, quando entrou em vigor a primeira lei verdadeiramente dura contra as atividades mafiosas. Tornou-se mais fácil punir os criminosos e fiscalizar seus mercados tradicionais. Nessa mesma época a prosperidade japonesa começou a fazer água, forçando a diversificação de atividades. Em 1994, um diretor da Fujifilm e um gerente do Sumitomo foram assassinados a mando da Yakuza. Ambos pagaram o preço por insistir em cobrar dívidas pendentes que, ao fim de uma longa linha de toma lá, dá cá, acabariam esvaziando os bolsos dos chefões das gangues. "Desde o início eu venho insistindo que a recessão econômica é causada pela Yakuza", diz Miyawaki. Seu raciocínio ampara-se numa constatação simples: dos 800 bilhões de dólares de empréstimos não saldados que o sistema bancário japonês acumulou, pelo menos 40% estão relacionados à máfia. "A polícia só se mexe quando a Yakuza comete atos violentos", completa outro ex-diretor da polícia, Kazuo Miyamoto. "O único jeito de combater o terrorismo empresarial é investigar as próprias empresas."

À sua maneira, os chefões dão duro. Sua principal ocupação é sair todas as noites para cultivar a rede de contatos com representantes de empresas ou de políticos a ser fisgados. Os mafiosos chegam a gastar o equivalente a 5.000 dólares por noite em bebedeiras. Como raramente têm acesso a cartões de crédito, andam com a carteira recheada de milhões de ienes. Graças a esses esforços de cooptação, a máfia tem abocanhado lucros exorbitantes no ramo da construção civil. Desde 1991, o governo gastou mais de 3,5 trilhões de dólares em obras públicas, em parte com o objetivo declarado de impulsionar a atividade econômica em franca retração. Além do fracasso da estratégia, pipocaram pelo país obras superfaturadas e de utilidade duvidosa, como o faraônico conjunto de pontes ligando Honshu, a principal ilha do arquipélago japonês, à pequena e rural Shikoku caso evidente de excesso de pista para pouco tráfego. Só os mafiosos saíram lucrando. "A Yakuza é, sem exagero, o quinto poder no Japão", define Miyawaki. "Seus integrantes são como mágicos que transformam qualquer pequena oportunidade em montanhas de dinheiro."

 

A marca da tradição

Angelo Ishi
Mestre Horikyo e um cliente: "Eu também fui yakuza no passado"


Dentro do sobrado discreto num beco escuro do bairro de Kabukicho, a meca do comércio do sexo em Tóquio, veteranos chefões e capangas dos baixos escalões da Yakuza unem-se em reverência ao mestre Horikyo, um dos mais conceituados tatuadores a serviço da máfia, no ofício há 26 de seus 50 anos. "Eu também fui um deles no passado", orgulha-se. Horikyo inclui-se entre os que reprovam os rumos modernizantes das gangues japonesas, em particular o progressivo desuso de sua milenar arte de ornamento corporal. Os poucos novatos que ainda se submetem ao ritual doloroso do iresumi tatuagem não sabem comportar-se. "Eles chegam atrasados e nem ao menos pedem desculpas", esbraveja. Apesar dos novos tempos, não falta trabalho a Horikyo, que cobra em média 200 dólares por sessão de noventa minutos. "A técnica dele não tem preço", desmancha-se um truculento mafioso que se identifica apenas como Onishi e exibe um dragão no torso e um deus guerreiro nas costas, obras que demandaram mais de um ano de sacrifício.

Segundo o mestre, dois motivos levam os mafiosos a se tatuar: a fidelidade à gangue e a prova de coragem. "A dor é tanta que muitos desistem no meio", afirma Onishi, literalmente coberto de desenhos até os pés. O mestre tatuador lamenta que seu prestígio se limite aos círculos criminosos. Por causa da profissão e das tatuagens no próprio corpo, nenhuma empresa quer conceder-lhe um cartão de crédito, apesar da renda acima da média. Mas triste mesmo ele ficou quando compareceu ao casamento da irmã. "Minha mãe ainda acha que sou mafioso e mandou que eu mudasse de vida", choraminga.

 

 

 




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