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Japão O quinto poderMafiosos da Yakuza se infiltram Angelo Ishi, de Tóquio
Pode-se dizer que a Yakuza passou por uma espécie de reengenharia semelhante à adotada pelas grandes corporações. O número de homens em suas fileiras diminuiu radicalmente, de cerca de 180.000 nos anos 60 para menos de 80.000 nesta década, enquanto a organização se sofisticou e maximizou lucros: calcula-se que 30.000 membros atuem diretamente nas grandes empresas, não raro com cadeiras cativas nos conselhos de acionistas, de onde tiram o poder para fazer chantagem. Muita coisa se perdeu no processo, pelo menos do ponto de vista dos velhos mafiosos. Eles não se cansam de lamentar o declínio de ideais como honra, obediência à hierarquia e disciplina militar. "Eu nunca me filiaria à Yakuza atual", resmunga o chefão semi-aposentado Tokutaro Takayama, torcendo o nariz para a ganância dos jovens mafiosos. Do ponto de vista pecuniário, contudo, a organização vive uma fase brilhante, com lucro anual calculado em 45 bilhões de dólares. Dívidas e assassinatos – O ingresso da Yakuza nas altas rodas empresariais explodiu a partir de 1992, quando entrou em vigor a primeira lei verdadeiramente dura contra as atividades mafiosas. Tornou-se mais fácil punir os criminosos e fiscalizar seus mercados tradicionais. Nessa mesma época a prosperidade japonesa começou a fazer água, forçando a diversificação de atividades. Em 1994, um diretor da Fujifilm e um gerente do Sumitomo foram assassinados a mando da Yakuza. Ambos pagaram o preço por insistir em cobrar dívidas pendentes que, ao fim de uma longa linha de toma lá, dá cá, acabariam esvaziando os bolsos dos chefões das gangues. "Desde o início eu venho insistindo que a recessão econômica é causada pela Yakuza", diz Miyawaki. Seu raciocínio ampara-se numa constatação simples: dos 800 bilhões de dólares de empréstimos não saldados que o sistema bancário japonês acumulou, pelo menos 40% estão relacionados à máfia. "A polícia só se mexe quando a Yakuza comete atos violentos", completa outro ex-diretor da polícia, Kazuo Miyamoto. "O único jeito de combater o terrorismo empresarial é investigar as próprias empresas." À sua maneira, os chefões dão duro. Sua principal ocupação é sair todas as noites para cultivar a rede de contatos com representantes de empresas ou de políticos a ser fisgados. Os mafiosos chegam a gastar o equivalente a 5.000 dólares por noite em bebedeiras. Como raramente têm acesso a cartões de crédito, andam com a carteira recheada de milhões de ienes. Graças a esses esforços de cooptação, a máfia tem abocanhado lucros exorbitantes no ramo da construção civil. Desde 1991, o governo gastou mais de 3,5 trilhões de dólares em obras públicas, em parte com o objetivo declarado de impulsionar a atividade econômica em franca retração. Além do fracasso da estratégia, pipocaram pelo país obras superfaturadas e de utilidade duvidosa, como o faraônico conjunto de pontes ligando Honshu, a principal ilha do arquipélago japonês, à pequena e rural Shikoku – caso evidente de excesso de pista para pouco tráfego. Só os mafiosos saíram lucrando. "A Yakuza é, sem exagero, o quinto poder no Japão", define Miyawaki. "Seus integrantes são como mágicos que transformam qualquer pequena oportunidade em montanhas de dinheiro."
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